Gaidar ou o fracasso de mais um reformador da Rússia

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Gaidar acreditou que o seu programa iria fortalecer as classes médias RUI GAUDÊNCIO

Concebeu a "terapia de choque" a pensar na ocidentalização do país. O resultado foi o inverso

Iegor Gaidar, de 53 anos, o mentor da "terapia de choque" de 1992 para criar uma economia de mercado na Rússia, morreu na noite de terça para quarta-feira, aparentemente vítima de uma trombose, noticiou a agência Interfax. Fica na História como mais um exemplo do fracasso dos reformadores russos.

O seu porta-voz, Valeri Natarov, confirmou à AFP que a morte se deveu à formação de um coágulo de sangue, "quando estava a trabalhar num livro", na sua residência em Odintsovo, arredores de Moscovo.

A precisão deve-se ao facto de, em 2006, Gaidar ter adoecido subitamente numa viagem à Irlanda, levantando a suspeição de "envenenamento não natural". Dias antes, fora envenenado em Londres o antigo espião Alexandre Litvinenko. Os médicos e a família afastaram depois a suspeita.

Brilhante economista, formado em 1978, o jovem Gaidar entrou de rompante na cena política com a ascensão de Boris Ieltsin à presidência da Federação Russa, no período da sua disputa de poder com Gorbatchov. Nomeado vice-ministro da Economia e das Finanças em Outubro de 1991, foi um dos promotores do projecto de "terapia de choque" económica, inspirada nas reformas polaca e checa, seguindo os conselhos do americano Jeffrey Sachs, e em ruptura com o gradualismo da equipa de Gorbatchov.

A mais radical medida, a liberalização dos preços, entrou em vigor no dia 2 de Janeiro de 1992, logo a seguir ao desmembramento da URSS. O efeito foi uma inflação galopante, que volatilizou as poupanças da população e fez desaparecer os alimentos do mercado legal. Gaidar torna-se subitamente um dos mais impopulares governantes.

Em Junho de 1992, foi nomeado primeiro-ministro por Ieltsin, mas o seu nome não foi ratificado pela Duma (câmara baixa do Parlamento), dominada pelos conservadores. Manteve-se como chefe interino do Governo até Dezembro, data em que Ieltsin foi forçado a nomear um conservador pragmático, Viktor Tchernomirdin. Em 1993, volta temporariamente ao executivo, como vice-primeiro-ministro para a Economia.

O favorito do Ocidente

Durante a crise de Outubro de 1993, no sangrento confronto entre o Presidente e o Parlamento, esteve na primeira linha dos apoiantes de Ieltsin. Depois de abandonar definitivamente o Governo, em 1994, funda com Anatoli Tchubais o partido A Escolha da Rússia, que pretendia federar os sectores liberais e apoiar Ieltsin. Demarca-se pela primeira vez do Presidente em 1994, ao condenar o envio de tropas para a Tchetchénia e o bombardeamento de Grozni. Mas voltará a apoiá-lo nas presidenciais de 1996.

Com o declínio do seu partido, abandona o Parlamento e sai praticamente da cena política. Assume uma posição ambígua em relação ao regime de Vladimir Putin, defendendo inicialmente a sua política económica mas criticando-o do ponto de vista da democracia. Denunciou mais tarde a dependência russa do preço do petróleo.

Gaidar foi um dos políticos russos mais apreciados pelos Estados Unidos e pelos governos europeus, que nele depuseram a esperança de uma rápida modernização da Rússia segundo um modelo político-económico ocidental.

Ontem, as homenagens sucederam-se. Foi elogiado por Putin e pelo Presidente Medvedev, que o qualificou como um político "honesto e corajoso que assumiu a responsabilidade de medidas impopulares mas inevitáveis num período de mudança radical". E também pelo antigo oligarca Mikhail Khodorkosvski, hoje na prisão. Outro reformador, Grigori Iavlinski, que duramente criticou a terapia de choque de 1992, reconhece: "Ele assumiu a responsabilidade pelo futuro do país num momento em que ninguém sabia que fazer e como fazer."

Em 2004, num debate nos Estados Unidos, foi confrontado com o seu balanço. Declarou não estar arrependido. Mas reconheceu um "importante erro estratégico". Imaginava que a reforma fortaleceria as forças liberais e as classes médias, graças à estabilização económica, ao crescimento e ao declínio da pobreza. O efeito foi o inverso, tendo permitido às forças radicais, designadamente aos comunistas, capitalizar o descontentamento. Foi o derradeiro expoente do sonho de ocidentalizar a Rússia.