3D (or not 3D)

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As três dimensões são o melhor de "Avatar", que é o pior filme de James Cameron.

Estou a ser mais "enganado" a olhar para o filme com os óculos ou sem os óculos?

Hollywood é uma vítima do seu sucesso. Andou um século a formar o imaginário de um planeta inteiro e, mal pôde, com a invenção dos "downloads" ilegais, o planeta pôs-se a pirateá-la sem dores de alma. São milhões de espectadores a menos e a ameaça de uma crise sem precedentes na indústria americana de cinema é bem real.
Para convencer as pessoas de uma coisa de que elas há muito deixaram de querer ser convencidas - que ver um filme numa sala de cinema não é o mesmo que vê-lo num ecrã de computador ou num televisor - os cérebros de Hollywood lembraram-se de ir buscar a ideia das três dimensões. Parece que não "passa" nos "downloads" e fica como exclusivo da sala. Quer dizer: há muita coisa que não passa nos "downloads" mas para explicar isso a uma geração educada nos ecrãzinhos do YouTube ("the pictures got smaller", dizia a Norma Desmond de Billy Wilder, sem saber da missa a metade) nada melhor do que encontrar uma "saliência" que entre pelos olhos adentro. Como, justamente, as três dimensões.

Eis-nos, portanto, num filme como "Avatar", perante o que se anuncia como o "cinema do futuro". Convém ser cauteloso. Normalmente o melhor é esperar uns anos para se perceber o que é o futuro, de facto, foi. Aliás, e neste caso concreto, também se pode dizer que se trata do "cinema do passado". As três dimensões não são uma invenção nova, antes a recuperação de uma das respostas da indústria quando, nos anos 50, sentiu fortemente o embate provocado pela televisão. Vieram daí também o "cinemascope" e o formato dos 70mm, tudo coisas que "engrandeciam" os filmes e os afastavam dos tamanhos dos televisores. A aposta nas três dimensões foi, então, a mais residual, rapidamente abandonada sem muitos filmes memoráveis. O melhor foi "Dial M Murder", um óptimo Hitchcock (que se vê perfeitamente na versão "2D"); mas também toda a gente se lembra do "acontecimento" que foi a passagem na TV portuguesa, em finais dos anos 80, de outro destes filmes, o "Monstro da Lagoa Negra" de Jack Arnold, que implicou a distribuição em massa de óculos de cartão com lentes coloridas. E também toda a gente se lembra do anti-climax: se a intenção era mostrar porque é que as 3D tinham sido tão rapidamente postas de lado não se podia ter escolhido melhor.

Em "Avatar" estamos bem longe da técnica rudimentar do filme de Arnold mas não nos livrámos dos óculos. É uma razão para torcer o nariz ao "cinema do futuro": isto é ainda demasiado incómodo. Tenho a sorte de (por enquanto) não precisar de usar óculos, e nunca me habituei sequer a usar óculos de sol. Para quem for como eu, passar duas horas e três quartos com aquelas coisas penduradas na cara implica sofrimento: comichões nas orelhas, e a desconfiança insistente, reavivada de cinco em cinco minutos, de que aquilo me está a fazer mal à vista. Mas se dou por mim a tirar os óculos de vez em quando há outra razão para além do desconforto. É para ver como é "aquilo" sem os óculos (há planos que são autênticos borrões), numa indecisão quanto ao que é mais "real": é o filme, tal qual está a ser projectado, ou é o efeito criado pelas lentes? Estou a ser mais "enganado" a olhar para o filme com os óculos ou sem os óculos? Esta leve angústia é uma sensação nova numa sala de cinema, e não deve ser descartada.

As três dimensões são o melhor de "Avatar", que é o pior filme de Cameron. Em certos momentos, em certos planos, a impressão de nunca ser ter visto nada "assim" é fortíssima, um "frisson" sensorial (bem a calhar num filme tão chocho) que muda algo, de facto, na experiência. É o "futuro"? Sobre isso, três coisas. Primeiro, isto ainda é o mais velho truque do mundo, uma espécie de "comboio dos Lumière" para um espectador que, cento e tal anos depois, já se tornou "blasé" perante as imagens convencionais. Segundo, ainda não é uma mudança de paradigma: apesar das "nuances" na percepção do espaço e do relevo, a experiência continua a ser contemplativa, a "quarta parede" ainda está bem definida (olha-se para as três dimensões mas não há verdadeiramente imersão do espectador, nem confusão quanto ao seu lugar). Terceiro, num dos canais servidos no cabo (salvo erro a BBC) apanhei há tempos um programa sobre as maravilhas tecnológicas que nos esperam nos próximos dez anos. Uma dessas "maravilhas" era um sistema que visa arrancar a televisão ao televisor e espalhá-la pelas quatro paredes, pelo chão e pelo tecto, com o espectador no meio. Se isto for verdade, parece que, lamentavelmente para os executivos de Hollywood, o "cinema do futuro" se vai passar longe das salas de cinema. Mas, dúvida: nesse futuro, a que é que chamaremos cinema, e o que é que chamaremos ao cinema?