Crítica

Um designer português

A imagem complexa e crítica de um grande designer autodidacta, polivalente e muitas vezes clandestino.

"Sena da Silva" começa por ser um bom livro desde o primeiro momento, levando-nos, antes mesmo de o abrirmos, a vê-lo como um objecto de design: na sua capa não aparece texto, nem sequer o nome do livro, apenas a imagem forte e táctil duma bateria de automóvel quase abstracta, estampada a cobre sobre tecido azul escuro. A ausência de qualquer outra informação leva o leitor a virá-lo até encontrar o título gravado na lombada em grandes letras acobreadas - ganhando, no processo, a consciência do livro como um objecto táctil e tridimensional.Desconfio que o próprio Sena da Silva aprovaria a elegância com que esta capa leva o leitor a olhar para um livro como se fosse uma coisa nova e única. Ao longo da sua vida, procurou fazer o mesmo a todo o tipo de objectos, fossem eles cadeiras, cartazes, automóveis, escolas, fotografias, pães, batatas cozidas - ou mesmo o próprio design. À maneira modernista, via-o menos como uma profissão do que como um método universal e interdisciplinar, aplicável a todas as situações, objectos ou problemas. Não se tratava sequer de uma especialização, mas de algo que deveria fazer parte da cultura geral ou da consciência cívica de cada um - não um fim em si mesmo, mas um meio de emancipação, tanto colectivo como pessoal.

Na sua própria vida, o design funcionava como um fluido em que se reuniam dinamicamente os seus diferentes interesses e actividades: foi arquitecto, gestor, professor, comissário, escritor e fotógrafo; quando ainda tinha 16 anos, projectou carroçarias de autocarros para a fábrica do seu pai; mais tarde, inventou protótipos de escolas modulares e de geradores eólicos; fez mobiliário, cartazes, programas de televisão e exposições; fez logótipos para pilhas e para baterias de automóvel; importou e tentou divulgar um pequeno automóvel em forma de ovo que poderia bem ser um antepassado distante do Smart; tentou fazer um photobook sobre Lisboa na mesma altura em que Costa Martins e Victor Palla o fizeram. Mesmo hoje, quando se fala tanto de interdisciplinaridade (e com isso se quer dizer apenas que há computadores onde se podem tratar imagens, compor música ou escrever um texto), é difícil imaginar uma só pessoa a fazer isto tudo. No entanto, também é difícil não cismar no que aconteceria se tivesse escolhido um dos seus interesses e o tivesse levado até ao fim. Tal como é evidente neste livro, muito do que fez foi realizado de forma precária, sem remuneração ou qualquer tipo de enquadramento institucional, dando por vezes a sensação de que as suas actividades mais interessantes acabavam por ser feitas nos intervalos, quando havia oportunidade, e nem sempre nas melhores condições. A sua escrita, por exemplo, de que este volume recolhe uma parte importante, aparece dispersa por jornais e revistas, mas também em enunciados de trabalhos escolares ou em notas dactilografadas. Muitos dos seus projectos foram sendo ignorados ou mal recebidos pelo público, pelas instituições ou pelos governos: ameaçou-se de demolição o protótipo da sua escola modular; o pequeno carro italiano que queria promover como um transporte popular acabou por só ser comprado pelas elites; o seu gerador eólico nunca foi produzido; uma das exposições que projectou na Suíça teve de ser aberta sob forte protecção policial, no meio do gás lacrimogéneo e das bombas de mau cheiro, devido a manifestações violentas contra o Estado Novo.

Actualmente, o design português é uma construção muito distinta da que Sena da Silva conheceu quando começou a praticá-lo nos anos 40 do século XX. Tem instituições, especializações e recursos que permitem, entre outras coisas, a edição de um livro sobre a sua obra. O próprio facto de ter sido publicado é um testemunho à importância do seu trabalho, mas - ao mesmo tempo e no mesmo acto - é também uma confirmação de que já não é possível fazer design como ele o fez. Neste livro, para falar sobre um único designer, foi preciso convocar designers, curadores, fotógrafos, críticos e professores, evocando uma dispersão disciplinar que contradiz a própria filosofia de Sena Silva. Do mesmo modo, um livro sobre a vida e a obra de um designer vai contra o design anónimo e modesto que Sena defendia, argumentando que não havia recursos para sustentar estrelas do design em Portugal. Este livro, de qualidade inegável, consagrá-lo-á sem dúvida como uma referência ao lado de outros designers da sua geração como Sebastião Rodrigues, Daciano da Costa ou Victor Palla. Não se trata, finalmente, de uma contradição, mas da constatação que o design português mudou - o que é um pensamento reconfortante tendo em conta que muita gente acredita que nem sequer existe.

É costume pensar-se no design português como uma construção pobre e tardia, cuja personalidade é, em larga medida, tomada de empréstimo noutros lados. "Sena da Silva" demonstra abundantemente o contrário: que o design português tem, desde há bastante tempo, uma identidade complexa, embora (talvez por isso mesmo) frustrante, e que, se "roubou" muita coisa, o fez por vezes de forma lúcida e critica. De certo modo, conta a história das suas origens enquanto disciplina, mas conta também a história de como um certo tipo de design, autodidacta, polivalente e quase sempre clandestino, deu lugar - inevitavelmente - a um design institucionalizado, especializado, mas nem por isso menos interessante ou mais conformado. Essa vitalidade é evidente neste livro que, com bom design e bons textos, evita a celebração condescendente, produzindo a imagem complexa e critica de um grande designer.