A questão do carácter

Depois de ler a entrevista que Pedro Passos Coelho deu no domingo passado ao Jornal de Notícias, digo-vos que desfiz todas as dúvidas sobre a ausência de convicções que caracteriza este candidato a líder do PSD. Bem sei que os sinais desse vazio estavam à vista há muito tempo. Mas foi preciso que Manuela Ferreira Leite perdesse as eleições para a máscara de Passos Coelho cair.

Pacheco Pereira já o referiu na blogosfera, mas eu reforço. O cardápio ideológico que Passos Coelho passou a adoptar subitamente sobre a economia, o endividamento ou o desemprego é rigorosamente igual ao que Manuela Ferreira Leite andou a dizer no último ano contra o Governo. Passos Coelho também quer travar os gastos do país; suspender o TGV; prestar ajuda às pequenas e médias empresas. Trata-se de um alinhamento com o discurso seguido por Ferreira Leite no último ano que até poderia ser normal em dois membros do mesmo partido.

O problema é outro. É que durante todo este tempo Passos Coelho tratou sempre a actual liderança do PSD abaixo do analfabetismo. Valeu de tudo: acusações de ignorância, falta de ideias, inépcia. Tudo distribuído por sei lá quantas entrevistas que foi concedendo à imprensa. Pior do que isso: num tema de tanta clivagem como o TGV, é interessante observar a evolução de Passos Coelho desde o início do ano.

Em Janeiro, dias depois de Ferreira Leite dar uma entrevista à RTP avisando que suspenderia o TGV, Passos Coelho veio contrapor: "O TGV é um projecto estratégico que envolve compromissos assumidos por vários governos." Passos Coelho viu aí uma oportunidade para enfraquecer Ferreira Leite, porque, afinal, ela tinha feito parte de um dos governos anteriores que assumiu esse compromisso. Se bem se recordam, até houve alguém que usou esse argumento na campanha eleitoral. Foi José Sócrates.

Agora, nesta entrevista, Passos Coelho já não tem cerimónias: "É decisivo não avançar com a construção do TGV na ligação de Lisboa a Madrid para encontrar alguma folga para que as verbas destinadas a ser drenadas nesse projecto (...) possam ser aplicadas de outra forma na economia."

Há nisto todo um método que é bem revelador da inconsistência e falta de convicções que abundam na política portuguesa. Passos Coelho passou ano e meio a atacar Ferreira Leite por não ter ideias. Resolveu entretanto apoderar-se das posições dela para ilustrar a oposição que deseja fzer. Tudo em nome das suas ambições de poder partidário. Convenhamos que é muito pouco. Pelos vistos, Ferreira Leite até tinha razão sobre o TGV. E é irónico e desleal que Passos Coelho a tivesse combatido aí com força, para agora a vir plagiar.

Na mesma entrevista, Passos Coelho reconhece o óbvio sobre as suspeições que atingem Sócrates no caso Face Oculta: "Um primeiro-ministro alvo de suspeição fragiliza a imagem externa do país." Mas como não lhe é conveniente colocar-se ao lado de Ferreira Leite exigindo o seu esclarecimento, opta por atacar os "julgamentos de carácter". Como se fosse uma bizarria os cidadãos avaliarem o carácter de um político. Como se numa democracia estivéssemos impedidos de apreciar a honorabilidade de quem nos governa.

Passos Coelho prefere antes "construir ideias". Mas ideias qualquer um arranja, simula ou, como se vê, pede emprestado. Aquilo que nos falta são políticos dignos e confiáveis para as executar. Mais plástico e intrujice, não obrigado. Jurista