Crítica

Assusta-me que eu gosto

Um curioso exercício que remete para outros tempos do cinema de terror

Sobre a história - filmezinho caseiro feito por meia dúzia de tostões por cinco pessoas na própria casa do realizador torna-se, depois de anos na prateleira, no sucesso-surpresa da rentrée americana - já se disse tudo noutras páginas. Sobre o filme, então, percebe-se que o sucesso de "Actividade Paranormal" - tal como, há anos, o do "Projecto Blair Witch" a que tem sido comparado - está na inteligência de saber adequar a forma à função, o estilo à história, e de ter sempre presente que tudo o que é preciso para enervar, assustar ou perturbar uma audiência existe nas suas próprias cabeças e precisa apenas de ser activado.


Na sua essência, "Actividade Paranormal" é uma história clássica do cinema de terror - a casa assombrada - que Oren Peli conta através de uma inserção progressiva de estranheza no quotidiano de um casal de São Diego, à medida que esse casal deixa ligada uma câmara de vídeo no quarto durante a noite e começa a perceber o que tem em mãos. Trata-se, na prática, de usar a titilação do falso "home movie" (aqui entendido como derivação do "reality show") para simultaneamente alimentar e defraudar as expectativas da audiência, jogando de modo astuto com as novas coordenadas do mundo audiovisual em que vivemos.

No entanto, apesar desse "air du temps" que o filme apanha bem, quem vier a "Actividade Paranormal" à espera de um novo paradigma do cinema fantástico ou apenas de um grande filme de terror não encontrará nem um nem outro. Não encontra um novo paradigma porque, na sua ausência total de efeitos visuais, de sangue e vísceras, na sua aposta na construção da tensão apenas por sugestão e atmosfera, o filme é um retorno a uma era passada do cinema de terror que apenas parecerá nova a quem não viu os originais (aqui estamos, por exemplo, a pensar no grande "The Haunting" de Robert Wise); quando muito, tratar-se-á da recuperação de um paradigma anterior.

E não encontra um grande filme de terror porque todo o engenho de "Actividade Paranormal" está na sua exacta modéstia, na sua recusa de ser um "grande" filme e na sua insistência em se inserir numa longa tradição de cinema de género sem outras ambições ou vontades, no modo desarmante como se recusa a responder às expectativas de quem o vê (até no próprio final).

O que se encontra, então, é outra coisa: um filme de terror austero que nos recorda como o medo é uma coisa com a qual vivemos quotidianamente, que está toda na nossa cabeça, que se esconde até numa banalíssima casa suburbana. E, depois da recente vaga de sanguinolências sortidas que o "torture porn" de "Saw" e "Hostel" tornou de rigor, um filme como este é uma lufada de ar fresco que até parece qualquer coisa de novo. Não é, mas é refrescante.

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