Entrevista

Margarida Cordeiro: Voltava ao cinema amanhã

Margarida Cordeiro
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Margarida Cordeiro Nelson Garrido

"Era amor." Não há outra forma de falar do trabalho de António Reis e Margarida Cordeiro. Juntos fizeram uma obra mítica do cinema português, filmada sobretudo em Trás-os--Montes. Agora, 18 anos depois da morte dele, ela vive numa aldeia retirada do mundo. Ou não?

Daqui a nada é noite. Subimos pela aldeia, à procura. No largo da igreja apontam-nos uma rua estreita. Metemos por ela a pé, até aparecer uma casa antiga de dois pisos. Janelas fechadas, trepadeiras, matagal, abandono. Uma rede de ferro por cima do muro na entrada, como se cá fora fosse hostil. E de repente ladram cães. Não um, nem dois, muitos cães invisíveis.

A aldeia chama-se Bemposta. À volta é o planalto mirandês, onde Portugal acaba no seu canto mais interior. Terra de gente que teve fome quando as crianças eram muitas e agora não tem crianças. Rebanhos, oliveiras, casas fechadas de quem anda na Espanha, na França.

E esta casa, aparentemente fechada para o mundo.

É aqui que vive Margarida Martins Cordeiro, co-autora de uma obra mítica do cinema português nos anos a seguir ao 25 de Abril.

Trás-os-Montes, o primeiro filme que assinou com António Reis, tornou-se uma referência para toda uma geração, e 33 anos depois da estreia continua a ser a súmula de algo português. "Para um povo e para um país à procura de si próprios", escreveu João Bénard da Costa, "é uma das poucas pedras do caminho que nos pode ajudar a reencontrar a direcção".

Tal como os restantes filmes da dupla, não é fácil vê-lo. Mantêm-se entraves à edição em DVD.

Mas a 4.ª mostra do documentário português Panorama (Cinema São Jorge, Lisboa, 9 a 18 de Abril) vai destacar a obra de António Reis e Margarida Cordeiro e serão exibidos os quatro filmes: Jaime (ainda só assinado por Reis), Trás-os-Montes, Ana e Rosa de Areia.

O projecto seguinte seria a adaptação da obra-prima do mexicano Juan Rulfo, Pedro Páramo (edição portuguesa na Cavalo de Ferro), mas Reis morreu em 1991. Margarida quis continuar a ideia, chegou a ir ao México fazer pesquisa, mas recebeu recusas sucessivas de subsídio até o filme ser aprovado. Nunca chegou a ser feito.

Já reformada do Hospital Miguel Bombarda, onde era chefe de serviço de psiquiatria, Margarida Cordeiro foi viver para a casa da mãe, em Bemposta. Anos depois, a irmã, Isabel, juntou-se-lhe.

É o que sabemos ao chegar, assim, sem aviso. Não temos um número de telefone. Vamos bater.

- Não estão - atalha a vizinha, sentada no degrau da casa em frente, explicando que todas as tardes as irmãs saem de carro com os cães.

Quando voltamos, uma hora depois, há um jipe mesmo em frente à entrada. Damos pancadas no portão porque não vemos campainha. O escuro enche-se de cães a ladrar. A porta de casa abre-se e sai uma mulher com uma romã na mão. Numa das cenas iniciais de Trás-os-Montes há uma menina a comer uma romã.

- Margarida Cordeiro?

- Sim?

E começamos a falar da romã e de Trás-os-Montes.

Ainda nem dissemos o nosso nome, só que vimos de Lisboa e do Porto. Margarida pede ajuda à irmã para manter os cães invisíveis nas traseiras, enquanto vários cães visíveis saltam à nossa volta.

Somos levados para a cozinha, onde cheira a lareira mas sobretudo a cão, e há algo de acampamento, como quem está barricado ali. Conversamos durante uma hora. No dia seguinte, Margarida vai visitar a campa de António. A irmã Isabel é que a conduz sempre. António e Margarida correram Trás-os-Montes sem carta de condução.

Fica combinado um reencontro dois dias depois, para uma entrevista, e assim é. Domingo, 1 de Novembro, descemos as curvas de Bragança até à Bemposta com vento, chuva e granizo. Depois, os cães já são quase nossos amigos e Margarida Cordeiro deu cor ao cabelo. Parece uma bailarina retirada, pernas flectidas por cima do braço da cadeira, ágil, fulminante. Não acredita que a idade existe, e quem acreditaria que ela tem 71 anos?

Por que vive aqui?

São razões pessoais, privadas. Não é por gosto. Senti-me no dever de vir há anos, estou arrependida, gastei dinheiro a recompor a casa e outras coisas, mas não foi uma escolha, foi por obrigação, pronto. Gostava de ter ido para Bragança, e a segunda escolha era dar a volta a vários pontos do mundo, porque adoro viajar. Tanto posso estar sozinha muito tempo, e estive aqui cinco anos sozinha, como posso andar a correr pelo mundo. Gosto de extremos.


Então não está retirada?

Eu?! Nunca vivi com mais paixão. Isso é uma coisa que recomendo. Chegar a uma idade avançada, mas com lucidez. A coisa melhor que há.


Nunca viveu com mais paixão?

Nunca!


O que é que isso quer dizer?

Tudo. Tudo me apaixona. Respirar, andar, ver, rir, dormir.


Ainda gostava de fazer essa viagem à volta do mundo?

Sim, sim.


O que é que a impede?

Ainda razões pessoais. Que não são minhas, são da minha situação.


Onde gostava de ir?

Onde não gostava de ir, talvez seja mais simples. Não gostava de ir aos Estados Unidos. Passei lá e não me deixaram passar para o lado branco, deixaram-me com os negros e os mexicanos. Não gostei, e disse que nunca mais. Não gostaria de ir a Inglaterra, à Noruega, à Suécia. Gostava de ir a toda a África, ao Mediterrâneo e sobretudo à América do Sul. Ao Vietname, à Índia, essas zonas onde há muita gente. E também desertos onde não há ninguém. Rejeitaria as partes evoluídas da Europa e América do Norte.


Neste momento, além da sua irmã Isabel e dos seus cães... que são quantos?

É segredo.


São muitos.

São. Mais que dois.


Mas é segredo? Está a falar a sério?

Estou. É preciso ter cuidado com o que se diz quando é diferente da média. As pessoas não têm cães, têm um cão. Não têm gatos, têm um gato. Eu tenho mais do que um, e então pronto, saio da média.


Mas fora da cidade as pessoas têm bastantes cães, gatos, animais.

Não. Não assim. Os caçadores, sim, têm vários cães. Mas eu tenho cães por ter cães. Não é para ir caçar.


Além da sua irmã e dos cães, com quem conversa?

Converso com tudo o que leio, porque leio muito. Converso comigo própria, tenho uma vida enorme para trás, tenho autonomia, estou sempre à espera de conhecer uma pessoa interessante, o que é difícil. Se fosse numa terra grande, havia probabilidades, como dizem os físicos. Não tenho probabilidades de encontrar uma pessoa interessante, mas estou sempre à espera. E portanto entretenho-me. Também não vejo televisão.


O que é uma pessoa interessante?

É uma pessoa que descobre coisas interessantes em mim, que não se limita a dizer bom dia, boa tarde, como está o tempo. Que me faz trabalhar por dentro. Que não me faz dar respostas civilizadas, corteses. Que me dá trabalho.


Quer dizer que posso tentar dar-lhe trabalho.

Pode e deve. Vamos lá lutar.


Tem Internet aqui?

Não. Só quando a minha filha está.


Sabe mexer na Internet?

Não. Sou azelha.


Sabe mexer em computadores?

Não. Por enquanto. Logo que façam a transcrição de livros para Internet.


Já estão a fazer.

Mas ainda não está à venda. Sou uma pessoa da minha época e gosto de ler. Também gosto muito de ver, mas a televisão não me satisfaz. Queria ter um ecrã em casa e filmes disponíveis. Não tenho, fico sem os ver.


Filmes disponíveis, ou seja uma DVDteca.

Desde que tivesse os filmes da zona temporal de que gosto. O cinema primitivo de todo o mundo, francês, alemão, quando o cinema era uma arte.


Até...?

Mesmo agora há filmes que me entusiasmam.


Quando foi a última vez que foi ao cinema?

[suspira] Quando estava em Lisboa. Já vim para cá há 11 anos, talvez. Aqui não há filmes. Também é uma experiência-limite, compreende. Ter uma certa idade estando privada de muitas coisas é ser uma espécie de Robinson Crusoé. O Robinson tinha o que lhe foi parar à ilha e teve de improvisar, e que me conste saiu mais rico interiormente do que quando entrou. Também lhe apareceu o Sexta-Feira. A mim, apareceu-me a minha irmã, mas a minha irmã não é um Sexta-Feira.


Não sabe nada do que se passou no cinema nos últimos dez anos?

De Portugal, nada. Com muito gosto. Sei quem faz filmes ainda, mas não os vi.


O que é que lê?

Tudo.


O que está a ler agora?

Não posso dizer sequer. Vai ter de cortar.


Então porquê?

A História Criminal do Cristianismo em dez volumes, do Deschner.


E porque é que vou ter de cortar isso?

Porque estamos num Estado católico.


Ora essa.

Gosto de Antropologia. De Filosofia. De História - História! Biologia, Física, Ciências Naturais, tudo isso.


Alguma época histórica?

Tudo. Pré-história. Império Romano. Actual. Estou na II Guerra Mundial. Não tenho feito outra coisa. Nasci na guerra. Lembro-me do racionamento da alimentação aqui, da entrada do leite em pó dos americanos, dos contrabandistas, do volfrâmio.


Nasceu nesta aldeia da Bemposta?

Disseram-me que nasci noutra terra perto. Eu era tão pequenina que nem falava. Verdade. Até me baptizaram sem pedir licença - essa não perdoo. Fiz três anos numa aldeia perto, vim para aqui, aos nove já estava em Bragança, depois sempre no Porto e depois sempre em Lisboa. Aqui vivi quase nada.


Não tendo uma relação tão longa com este lugar...

Não foi longa mas foi intensa.


... havia uma casa que era esta, da sua mãe.

Esta cozinha já é da minha infância, dos dez anos.


Trouxe os seus livros quando veio?

Não. Foi depois a minha irmã buscá-los. Não tenho uma biblioteca centrada, estão dispersos. Tenho muitos álbuns, pintura, arquitectura, fotografia, tudo o que é bonito. Viajo de qualquer maneira.


E lê jornais?

Não. Só se vir algum por aí, mas não vêm jornais para a aldeia.


Como sabe o que se passa no mundo?

Talvez uma bolinha de cristal... Sei às vezes com muito desfasamento. Só soube das Torres Gémeas três dias depois.


Está zangada com o mundo do cinema?

Não. Desiludida, sim. Zangada, não, dá um bocado de esforço. Desiludida porque sou uma cidadã do Estado, pago muitos impostos, e não tendo segurança, nem transportes, nem saúde, nem sequer pude fazer um filme. É normal que esteja aborrecida.


Esse filme era o Pedro Páramo.

Era. Tínhamos três projectos de que não falarei e o Pedro Páramo.


O que aconteceu?

Sempre a mesma coisa. Para arranjar o dinheiro, foram não sei quantos anos. Depois deram-me o dinheiro e ficou o produtor pegado à minha perna, que queria fazer o filme grátis - a mim não me dava nada. Bem, não foi bem assim, foi mais complicado, com mais enganos. E portanto eu teria de fazer um filme só pela ambição de o fazer, mas totalmente diferente do que queria. E quando percebi que era apenas um veículo, decidi cortar. Não me davam as mínimas condições de levar uma coisa para a frente, não fiz.


Mas mantém relações...?

Nada. Nada. Fui ameaçada. Um dia saí e estavam à minha espera.


Quem?

Um produtor, não vou falar em nomes. Ameaçaram tirar-me o dinheiro.


Mas há gente em Lisboa...

Essa gente não tem dinheiro. Eu preciso de dinheiro para fazer o filme.


... que gostava de a ver voltar. Sabe disso, não sabe?

Não. Nem a mínima ideia. Posso estar aqui sem televisão, mas tenho direcção do correio. Um dia, o António - não é da minha vida com ele, é anterior - mete-se no comboio, vai daqui a França e aparece em casa do Gaston Bachelard, um filósofo de tombo e lombo, um dos maiores filósofos franceses. Ele admirava-o imenso. E estava o Gaston Bachelard a descascar batatas. Claro que para o António isto era lindo. "Ah, a minha filha foi para a universidade, estou aqui a adiantar o jantar." O António foi ter com ele e encontrou-o. É isso que quero dizer. Quando se quer encontrar alguém... E nós quase apanhámos o Buster Keaton. Ele veio a Espanha antes de morrer e quase o apanhámos.


O que está a dizer é que a podem encontrar se quiserem, porque está aqui.

Sim. Todos os dias saio de casa. Estou magra mas ainda sou visível.


Se fossem criadas as condições, voltava a fazer cinema?

Sim. Sim. Mas precisava de uma pessoa ou duas. Um assistente pessoal que eu escolhesse. Pedi um assistente e [o produtor] disse que tinha de ser homem. Eu disse: "Porquê?" E escolheu-me um assistente com quem não me dou. Já viu um produtor fazer tanta asneira?


Sentiu machismo no meio do cinema português?

Sim, com homens e mulheres.


Depois da morte de António Reis?

Sim, definitivamente. Se o António estivesse aqui e não eu, de certeza que estava tudo a andar. Ele tinha uma força que eu não tinha.


Acha que foi prejudicada por ser mulher?

Sim! Ou tem dúvidas?


De que forma sentiu isso?

Não senti isso no esquema do Pedro Páramo, porque acabei por ter a alocação do dinheiro, que era mínima, não dava para nada, 200 mil contos. Só a película... Mas noto que eu própria me desmoralizei, ou nas entrevistas, ou nas perguntas. Em Portugal. Lá fora nunca senti isso.


Isso o quê?

Uma discriminação nas entrevistas. O António deitava-se muito para a frente. E, mesmo quando não se deitava, não me davam ocasião de eu falar. Notei isso muitas vezes, e sempre em Portugal. Lá fora eu existia.


Sentia que as pessoas falavam da obra como se fosse só do António Reis?

Não, como se também fosse minha. Mas eu estava ali! Há muitas mulheres que são a secretária do marido. A Pilar del Río e outras. É muito comum a mulher sacrificar-se pelo marido e às vezes assinar também.


O Manuel Mozos [que foi assistente de Reis e Cordeiro] diz que o António não filmava um plano sem a Margarida chegar.

Com certeza. O António era uma pessoa decente. Fora de série.


Para que as pessoas percebam a articulação que tinham...

Não se pode falar nisso. Era amor, pronto. Amor, colaboração e muito respeito. Havia uma crítica gentil entre nós. Se eu tivesse uma ideia que não era assim... era gentilmente corrigida, ou ele esperava que eu me corrigisse, que também tinha essa classe. Ou a ideia que ele tivesse, eu também a aproveitava. Não havia centralização. Era mesmo equipa. Entendíamo-nos bem. Melhor no cinema que na vida real, que eu sou muito barafustadeira. Era como se dois pintores pintassem o mesmo quadro.


Tendemos a ver a criação como uma coisa muito individual...

Não é individual. Por exemplo, para filmar Trás-os-Montes, viemos muitas vezes de camioneta até Bragança. Andávamos por aquelas aldeias ano após ano, às vezes seis e sete anos. E tudo aquilo era conversado entre nós. Conhecíamos praticamente todas as aldeias. Conhecíamos as pessoas e falávamos com elas. É como fazer trabalho etnográfico.


Em Miranda também?

Em Miranda pouco, porque fui segregada da família por não estar casada com o António. Portanto, durante 15 anos evitei esta zona. Era Bragança. Também um pouco Espanha, aqui a borda, de que gosto muito, a fronteira do luto. Tínhamos um grande amigo aqui ao lado e dávamo-nos com toda a gente. O António conhecia o Manuel Ferreira [dono da casa na aldeia de Palácios, que aparece no filme].


O Manuel Ferreira conta que o António lhe apareceu em casa...

O António era assim.


... a dizer: "Preciso da casa de Palácios." E depois foi a casa, os filhos, tudo. Trás-os-Montes nasce dessa...

Sim, dessa apropriação lenta da vida. Quando a gente filma, viu aquilo tantas vezes que é apenas mais um episódio, portanto é fácil criar em conjunto. Estávamos juntos, andávamos ali, conhecíamos os hábitos.


Por isso é que António Reis dizia que não filmava ninguém antes de ter criado uma relação com as pessoas.

Claro. Fundamental. Quiseram impingir-me actores de teatro português. Têm aquela dicção...


Vocês não queriam actores.

Por amor de Deus.


Chama a Trás-os-Montes documentário?

Não. Não me importo que chamem, mas é errado. O António não gostava que lhe chamassem documentário.


Qual é a melhor palavra?

Não sei. É Trás-os-Montes. Um modo de abordagem de uma coisa de que se gosta. Um documentário tem de ser fiel à realidade objectiva. Pelo menos 50 por cento das pessoas que o vêem têm de dizer que está parecido com o que é. Você chegava aqui a esta aldeia e mostrava quanto ganha este, quanto ganha aquele, os hábitos. Isso é um documentário, uma aproximação da realidade.


Às vezes, para chegar ao real, não temos de construir?

Sim. Todos construímos. Estamos a fazer isso aqui. Estamos aqui quatro e cada um vê a sua coisa.


Por exemplo, a cena de Trás-os-Montes em que vemos uma cama com cinco crianças...

Nunca tiveram fome, mas sabemos de pessoas que a passaram. A minha avó passou fome. A minha mãe teve uma barriga inchada por aquela doença africana em que as crianças ficam com a barriga grande. A minha mãe teve deficiência de proteínas, não teve pai, o pai apareceu cá muito mais tarde. A minha bisavó também teve problemas. Houve fome.


A casa daquelas cinco crianças não era aquela, mas a realidade que viviam era aquela. Ou seja, é irrelevante que a casa seja a deles.

Sim, sim.


Foram criadas assim, a dormir na mesma cama.

Se calhar baseámo-nos nisso. Não me lembro. Às vezes, os actores trazem a sua vivência, e isso ajuda imenso.


Mas chama-lhes actores?

Chamo, porque agem. Não são actores de teatro. Agem.


São actores de uma construção vossa.

Dizíamos-lhes mais ou menos o que queríamos. Uns eram mais inteligentes, outros mais sensíveis, outros nem se importavam. Primeiro, escolhiam-se bem.


Quando falou da sua mãe, lembrou-me uma das sequências mais belas de Trás-os-Montes, a do pai que parte a cavalo, e fica a menina...

Essa história é de verdade.


... com o laço vermelho

É a Ilda. Faça-me um favor, encontre-me essa Ilda.


... a dizer-lhe adeus.

A Ilda é a história da minha mãe.


Essa menina era de onde?

Estava num lar de Bragança como o Armando [um dos rapazes do filme]. Escolhemo-la no meio de um grupo. Era uma aristocrata nata. Entrou no papel perfeitamente. Eu na altura era uma jovenzinha e tudo para mim eram filhos. Adorava dar-lhe abraços. Uma miúda encantadora. Sei que casou mas não sei onde está.


O homem a quem ela diz adeus é a imagem do seu avô.

A minha mãe conheceu o pai só aos 16 anos e passava a vida a contar essa história. Ficou a dizer adeus...


Quando foi a última vez que soube da Ilda?

Penso que está lá para baixo casada. Para baixo de Coimbra.


Mantém contacto com as pessoas que entraram em Trás-os-Montes?

Só com as que estão aqui perto.


Há quanto tempo não vê um filme seu?

Há uns anos largos. Metem pessoas que morreram e custa-me muito. Ver o filme não compensa o choque. Sou bastante emotiva.


E tem os filmes?

Não. Porque havia de ter? Eu e o Tó tínhamos a crença de que só numa pantalha normal é que se via um filme, não em tamanho reduzido. É como quando se quer ver um quadro: vai-se ao museu, não se compra um postal. É que o tamanho importa, sim.


Acha que os filmes não devem estar em DVD.

Acho que não. Vale a pena deslocar-se a um sítio para ver. Se não, que ninguém veja, pronto. É como ouvir uma boa orquestra numa cassete, numa mota a jacto. Não dá. As obras de arte têm proporções que não podem ser transformadas em postais.


Então é contra...

Não sou contra, façam o que quiserem, mas com a minha aprovação escrita, não.


Para mim é fácil ter acesso ao Trás-os-Montes. Estou em Lisboa, sou jornalista, posso ir ao ANIM [Arquivo Nacional das Imagens em Movimento], como fiz, pedir um visionamento, está lá a bobine. Mas quantas pessoas não podem fazer isso, jovens que nasceram depois do filme? O seu trabalho poderia chegar a pessoas que estão a começar a ver cinema.

Isso não me diz nada. A obra tem de ser vista na forma em que foi feita. Com aquele som. Por isso é que o som retrabalhado também me incomoda. Tem de ser tal como se fez. Os filmes mudos são bonitos mudos. Desenvolveu-se uma linguagem que se perdeu depois, o cinema mudo estava a atingir uma perfeição inaudita. Actualmente, é o diálogo omnipresente, campo-contracampo, plano americano, umas panorâmicas. Para agradar, como nas novelas nos Estados Unidos. Sei isso por revistas esquisitas. Compro muitas revistas.


Onde?

Em Espanha. Salamanca, Zamora. Espanha diz-me muito. E no meio da desolação em que Portugal está... Madrid não, porque parece-me que está cancerosamente grande, e eu não a domino. Não dominar é não saber as livrarias.


Há quanto tempo não vai a Lisboa?

Há dois anos. Fui lá fazer as operações [aos olhos]. Mas as livrarias estavam todas de rastos. Não têm o afluxo que tinham dantes. Eu estava sempre na livraria e sabia o que chegava.


Se viessem dizer-lhe: "Gostávamos de fazer uma caixa de DVD com a vossa obra"...

Não me importo. Não digo que sim nem que não. Não tenho nada a ver com isso. O que é interessante é fazer filmes, não é a sorte deles. Depois o filme cresce e vai-se embora.


Escreve?

Não. Para meu desgosto. Não consigo. O que escrevo não me interessa. É uma pena. Não tem classe. Não sou escritora. Tenho um grande desgosto. Era uma forma de espairecer.


Fale-me de escritores de que goste.

Marcel Proust . Sou muito antiquada. A Ilíada e não a Odisseia. Literatura dos nórdicos, as sagas. O Musil. Franz Kafka. O senhor Faulkner. Eça de Queirós, Beckett. Gosto de tantos. Gosto também muito de poesia, François Villon. Fernando Pessoa. Que é feito do Pedro Tamen?


Sabe que traduziu Em Busca do Tempo Perdido?

Ah, não sabia. Stendhal, estava-me a esquecer. Sou uma stendhaliana. Há assim um grupo com essa aficção. O António-Pedro Vasconcelos também é stendhaliano.


E portugueses?

Já disse o Eça e o Pessoa. Aquilino Ribeiro, muito.


Miguel Torga, que veio à estreia de Trás-os-Montes?

Gosto.


Eram amigos?

Muito.


E aquele escritor de quem foi chefe [em psiquiatria], o António Lobo Antunes?

[Ri-se.] Conheço pouco. Memória de Elefante e outro que já não me lembro qual é. Gostei, achei que era um começo. O Saramago também conheço pouco, o Levantado do Chão e o Memorial do Convento. Depois, tenho visto em Espanha. Tem a Pilar del Río a fazer-lhe as ajudas, e gosto de o ver lá, quase sempre em segundo ou terceiro. Já encomendei o Caim. Ele diz que não se afastou da Bíblia e tem material suficiente porque a Bíblia é um livro que conheço bem. Não recomendo, mas conheço bem.


Não recomenda porquê?

É o livro mais vendido do mundo. Vou recomendá-lo?


Portanto não precisa da sua recomendação.

Prefiro o Mahabarata. De longe. É também uma epopeia.


Como acha que está a paisagem de Trás-os-Montes?

Onde não há trabalhos do homem, está intacta. Depois, numa porção plantaram desordenadamente cerejeiras, epiceas, pinheiros, e não sei que mais. Nada do que é natural daqui. Os aldeões tiraram as vinhas, que era o que marcava esta zona em relação a Bragança, e puseram oliveiras por todo o lado.


Porquê?

Porque deram subsídios para arrancar vinha.As zonas plantadas de vinha há 50 ou 80 anos são astronómicas. E tudo se fazia à mão, com sacho e animal, não com tractores.


No Trás-os-Montes não há tractores.

Quem me dera ter um tractor. Não sou contra!


Um dos actores disse-nos: "Ah, eles não queriam tractores no filme, eram contra o desenvolvimento."

Não era contra, pelo contrário. Sou pelo progresso, sobretudo da inteligência. Quem me dera que aprendessem coisas.


O que está intocado é habitado por pastores, que também têm subsídios. Com o dinheiro que entra, fazem plantações, e depois não lavram. As coisas crescem como crescem, ardem, queimam-se. Portanto, o dinheiro dos contribuintes vem para aqui, e a mim custa-me ver isso. Porque o meu também vai não sei para onde.


Precisei de ir arranjar os meus olhos. Aqui, as mulheres ficam à espera dois ou três anos, fazem um olho, dali a um ano ou dois fazem o outro. Eu fui, paguei tudo. Parti um braço, fui eu que paguei.


Operou a miopia?

Não. Tive de pôr lentes internas. Tire a ideia de que sou contra o progresso, contra a Internet. Não. Gosto de tudo quanto é progresso.


E a construção que agora há em Trás-os-Montes?

Não me fale nisso. Há anos que não vejo uma casa decente. Gosto de arquitectura. Fazem-se milhares e é o mesmo modelo, cimento, tijolos ocos. Por fora, uma camada a fingir pedra rústica, varandas, colunas. São construtores que andam a fazer trabalhos em Espanha e depois fazem a própria casa. E estão vazias. Só se abrem nas festas ou quando os emigrantes vêm.


As crianças desapareceram.

Não há crianças.


Trás-os-Montes estava cheio de crianças.

As ruas estavam cheias de crianças. Agora nasce uma por ano, se nascer. A diáspora portuguesa desta zona é imensa, Alemanha, Suíça, Luxemburgo, França, Norte de África, África do Sul, e começam a pensar em Angola. As pessoas mais activas não estão cá.


Quando fizeram Trás-os-Montes era o Verão quente. Foi quente aqui?

Para já, não acho que tenha sido uma revolução. Uma revolução é virarem-se as coisas de pernas para o ar e pôr o capital à ordem de quem saiba gerir, e não haver tantos pobres e tão poucos ricos. Não houve uma revolução, ao contrário, houve uma saída de ouro, daqui. Entusiasmei-me como toda a gente, mas não acreditei totalmente.


Mas sentia-se a revolução, aqui?

Sentia. Politicamente, o que mais me magoa é a situação social. Você vai à loja e a situação social está ali. Quer ter um médico aqui e eles preferem pagar casa a um padre. A situação social está em todo o lado.


Falou em padre. Não se sente a religião no Trás-os-Montes.

Não, não sou religiosa. Tentamos respeitar sem falar muito nisso. Omitir uma coisa que é omnipresente é uma maneira de criticar. Aqui é omnipresente. Não digo que seja sincera.


Hoje, na aldeia de Gimonde, ouvimos missa pelos altifalantes. Mas vemos Trás-os-Montes e não há nada que denote a presença da igreja.

Omitir é uma agressão. Dentro da nossa concepção de uma realidade poética, e que não se aproxima nada desta actual, a igreja não cabia.


Sente que a presença da igreja hoje é maior, menor, igual?

Igual. No povo inculto é mais. Inculto, não estou a dizer que não leia, e não estou a dizer que são sinceros, nem que acreditam no outro mundo. Mas casam-se, vão à missa, ouvem o terço, e toda a influência da televisão está bastante impregnada de religiosidade, ou pelo menos de valores burgueses. Big word, burgueses: burgo, cidade.


Não compreendo porque é que vive aqui.

Nem eu. Estou a ser sincera. Então diga-me uma hipótese. Ajude-me.


O que é que a impede de sair amanhã por esta porta?

Tudo. É bom viver em Paris ou em Veneza, por exemplo. Pode ser que possa.


Do que disse sobre o que a afastou do cinema, fica-se com a sensação de que talvez tudo seja uma soma de equívocos.

Para mim foram agressões graves. Para criar, uma pessoa tem de seguir a sua lei, as suas ideias. E isso foi-me proibido.


Mas há outras pessoas.

Conhece alguém que me desse dinheiro, um produtor ou uma produtora razoável, dois bons assistentes? Conhece? Quando vim para aqui estava bastante em baixo, desistindo das coisas do cinema, mas tenho-me posto a pergunta. Se tivesse oportunidade, fazia.


Ou seja, pode voltar ao cinema amanhã se lhe derem oportunidade.

Sim. Oportunidade quer dizer: as minhas condições. E note, não é ganhar dinheiro, que eu tinha-me proposto fazer o filme sem dinheiro. Não é pelo dinheiro que corro. Senão não sei o que estava aqui a fazer, ao fim de uma vida, tão pobre como estou. Quem quer ser rico começa cedo.


Se tivesse as condições para fazer um filme...

Sim. Sim. E não são muitas. Dinheiro, produtor simpático, que deixe uma pessoa fazer.


E o que fazia?

O Pedro Páramo! Para começar. Está todo na minha cabeça, ou julga que penso noutra coisa? Tenho cenas feitas há muito tempo.


Fazia-o no México, com mexicanos?

Agora, não sei. No México, sim, vou para lá a correr. Adorei aquilo. A terra, o céu, a comida, os mexicanos, as mexicanas.


E além do Pedro Páramo?

Não vou viver até aos 200 anos.


São assim tantos projectos?

Tínhamos dois ou três. Por exemplo, um actor que eu queria é o [Javier] Bardem. Queria também a mãe dele e aquela actriz espanhola feiosita.


A Rossy de Palma.

E a Marisa Paredes.


Queria-os para o Pedro Páramo?

Queria.


Se hoje tivesse de dizer quem foi António Reis, que diria?

Não posso falar sobre isso. É difícil traduzir em palavras.


Toda a gente diz que em qualquer sítio ele estabelecia logo uma relação.

Logo, logo. Éramos totalmente diferentes, água e vinho. Aprendi muito com ele. Eu era muito introvertida, ele era absolutamente social, e amável, e puro. Eu sou uma pessoa mais retorcida.


O que aprendeu com ele?

Tudo. [Pausa] Tudo, não. Também devo quase tudo ao meu analista. Cinquenta por cento ao António, cinquenta por cento ao João dos Santos. Sou uma quimera. Eu não existo.


Conte-me esses dois lados.

O lado João dos Santos não posso contar. Uma psicanálise não se conta. Foi o meu analista amado. O António também foi amado.


Como se conheceram?

Conheci-o no Palácio de Cristal do Porto, e não gostei nada dele.


Em que circunstâncias?

Foi num concerto. Eu estava absolutamente cansada da vida. Andava nos 20 anos e não sabia o que fazer. Já estava no [hospital psiquiátrico] Conde Ferreira a trabalhar. E o meu irmão médico passou por mim e disse: "Estás aí com essa cara, anda ao Palácio de Cristal, está lá um concerto." Lá fui, sentei-me enquanto ele andava lá, daí a pouco aparece-me com o António. "Olha, apresento-te este amigo." O concerto acabou e depois o António veio connosco pela rua do Museu Soares dos Reis. O meu irmão vinha no meio e o António a meter-se comigo. Um dia mandou-me um livro do Rainer Maria Rilke, um dos meus autores, Cartas a Um Jovem Poeta. E mandava dizer: "Está mais bem-disposta?" O meu irmão disse-me: "Pega lá, mas olha que é de um homem casado." E eu disse: "Quero lá saber, não gostei dele." Isto foi o começo, porque depois, quando saí de casa, saí à bofetada. E estive sem ligação com os meus pais 15 anos. O António estava separado. Isto custou muito à minha mãe. Só quando nasceu a minha filha é que reatámos.


O que tem a temer da igreja?

Nada. Mas tudo, também.


Mas não lhe podem fazer nada.

A mim não. E que fizessem. Metem-me impressão as ideologias que mantêm as pessoas quietas. Futebol, touros ou religião. Não entendo. São forças irracionais.


Podemos pensar que o século XX foi a tentativa de o homem fugir à religião, e o século XXI foi o século do regresso. Abre com o ataque às Torres Gémeas...

Ataque ou auto-ataque? Não me faça rir. Como é que pode haver um ataque às Torres Gémeas? Está tudo visionado, andam aqui uns satélites que vêem debaixo de terra, jazidas minerais e tudo. E porque é que mais de metade das pessoas foi avisada para não ir trabalhar nesse dia?


Então acha que foi o quê?

Um auto-ataque para provocar os acontecimentos. Pearl Harbour foi a mesma coisa.


É uma das teses sobre o 11 de Setembro.

Não é uma das teses. Pense bem. E os restos do avião que caíram no rio, não conseguiram juntá-los. E tem um buraco no Pentágono que não pode ser outra coisa que não um ataque por eles próprios.


Então leu muito sobre isto.

É evidente que me interessa. Estamos na aldeia planetária. Ou não?


O 11 de Setembro permitiu que se radicalizassem os pólos, de repente estávamos numa espécie de nova cruzada.

Actualmente, os pobres dos muçulmanos estão a passar mal. Eu tirei um cursozinho sobre os muçulmanos e aprendi árabe. Aprendi e já esqueci. Eles, coitados, estão aflitos. Agora os cristãos são melhores que eles?


Então acompanhou os debates do pós-11 de Setembro?

Acompanhei, não. Estou aqui. Mas tento ver.


Acompanhou a eleição de Obama?

Acho que é um tipo engraçado, o primeiro negro. Mas o contexto dos Estados Unidos é tal que não sei o que ele vai fazer. E agora com a reforma de saúde, desejo-lhe todas as felicidades, porque está a ter uns problemas... É corajoso. Realmente, há muita gente lá que não tem dinheiro nem para tratar um dente. Mas o Presidente é só um homem de palha, as eminências pardas estão por baixo.