Retrato de um português com pinguins ao fundo

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O biólogo com um filhote de albatroz viajeiro, a maior ave marinha do mundo fotos: dr

Tem sido visitada por cientistas portugueses, em particular nos anos mais recentes. O último que esteve lá acaba de regressar à civilização. Grande parte do tempo passou-o na ilha de Bird, um pedaço de terra com o mar quase sempre à vista em redor, que partilhou com três pessoas e milhares de aves. Excertos de uma conversa de Portugal para a Antárctida

Qual é a relação entre as colónias de albatrozes da Antárctida e os pastéis de nata? José Xavier tem toda uma teoria sobre o assunto. E há duas razões para lhe dar crédito: adora pastéis de nata e nunca antes dele um português fez uma campanha científica tão longa naquela região.

Quando falámos ao telefone por satélite, já estava de regresso, ainda que algures no oceano Antárctico, no quebra-gelos britânico James Clark Ross, a mil quilómetros das Malvinas. Tinha deixado a ilha Signy havia apenas três horas. Quase em mar aberto, dizia que já avistava menos icebergues. Antes de Signy, tinha passado cerca de oito meses na base britânica na ilha de Bird, na Geórgia do Sul. Ele e mais três pessoas, na maior parte do tempo. E antes da ilha de Bird, o mesmo James Clark Ross foi a sua casa durante uma campanha oceanográfica no Antárctico. Chegou no sábado a Inglaterra, onde é investigador convidado do British Antarctic Survey, um centro de investigação em Cambridge. Para a semana regressará a Portugal.

Segue-se a aventura deste biólogo marinho, de 34 anos, o último português na Antárctida. Nove meses - de Março a Novembro - longe da agitação da cidade, dos amigos, da família e, claro, dos pastéis de nata. Mas preenchidos por muitas experiências de e pela ciência.

Revele-se, então, como é que os albatrozes são como o bolo português. "É tudo uma questão de atracção", conta no blogue que criou, o Ciência Polar.

José Xavier não consegue resistir àquele aroma a baunilha, ao cheiro a canela, ao folhado crocante, nem à visão de um doce que é ao mesmo tempo grande - satisfaz - e pequeno - apetece comer outro. O problema está nas pastelarias: "São autênticas armadilhas a quem quer ir trabalhar cedinho, principalmente quando libertam exércitos de sabores pelo ar num raio de centenas de metros, e não resistimos a comer um."

Tal como as pastelarias que atraem o biólogo, as colónias de albatrozes estão sempre à espera do regresso dos seus habitantes, para que se reproduzam. Nos albatrozes de cabeça cinzenta, o acasalamento é para a vida, embora a reprodução só ocorra de dois em dois anos, pelo que cada casal está esse tempo sem se ver. "Passam a maior parte da vida no mar, longe de terra, longe das suas "pastelarias"."

Na ilha de Bird, há outros albatrozes, como o viajeiro, a maior ave marinha do mundo, com três metros de asa a asa. Também acasala para a vida e reproduz-se a cada dois anos. "Se os albatrozes falassem, a palavra "saudade" teria sido inventada para eles."

Pouco se sabe, porém, como se orientam no mar alto e que relógio usam para saber que chegou a hora de voltar às colónias. "Quando regressar [a Portugal], sei onde encontrar as pastelarias de esquina cheias de pastéis de nata, mas tenho GPS, mapas e um relógio. Estes nossos amigos só precisam das asas."

A culpa foi das lulasA estranha relação entre a maior ave marinha e o bolo português só podia vir de alguém que passou muito tempo naquela região e, está-se a ver, tem saudades de casa: afinal, esta foi a sexta campanha de José Xavier na Antárctica, expressão que, segundo o cientista, inclui tanto terra firme (a Antárctida), como o oceano Antárctico. "Se reunisse todas as vezes que estive na Antárctica, fariamais de dois anos."

Como muitas coisas, tudo isto não lhe caiu do céu. Surgiu aos poucos, a partir do terceiro ano da licenciatura na Universidade do Algarve. "Ir às aulas não me bastava e comecei a envolver-me em projectos de investigação. Queria perceber o que é ser cientista." Participou num estudo sobre cefalópodes (polvos, chocos e lulas). Quando chegou a altura do estágio da licenciatura, teve a oportunidade de ir para o British Antarctic Survey. Ali, em 1997, estudou a distribuição das lulas no Antárctico e o passo seguinte apareceu naturalmente.

Lançaram-lhe o desafio de continuar as investigações sobre as lulas no doutoramento, dessa vez usando os albatrozes para as apanhar para os cientistas. Pôs aparelhos nas costas das aves que permitiam o rastreio por satélite, enviando a sua posição: assim pôde saber onde é que comiam as lulas e conhecer a sua distribuição. Quando os albatrozes regressavam a terra, fazia-os regurgitar os alimentos, verificando o que traziam no estômago.

Foi assim que em 1999 José Xavier se viu pela primeira vez na Antárctida - precisamente na ilha de Bird, durante sete meses. Regressou à mesma ilha em 2000. Recordações desses tempos: "Tudo era novo para mim: o contacto directo com os animais, o fascínio da neve, o modo de viver numa base científica", lembra no blogue. "Temos um plano de ciência tão intenso que nem dá para pensar que não temos aqui um cinema, um bar ou uma cara diferente."

Seguiram-se outras três campanhas apenas em navios oceanográficos, sem pôr os pés em terra (duas em 2004, uma em 2008). Este ano, já como cientista do Instituto do Mar da Universidade de Coimbra, marcou o terceiro reencontro com a "sua" ilha. Coincidiu com a publicação do primeiro livro científico sobre a Antárctida de um português: da autoria de José Xavier e do francês Yves Cherel, é um guia das mandíbulas dos cefalópodes, únicas em cada espécie e que permitem a sua identificação ("um cientista que queira estudar a dieta de qualquer animal marinho na Antárctica terá de ter este livro").

Sol uma vez por semana

"Em terra sente-se tudo mais forte. Pode-se tocar nos animais e viver a Antárctica num sentido mais completo. É como entrar noutro planeta. Os animais não têm medo de nós. Podemos ficar a centímetros dos albatrozes ou dos pinguins. Assim que cheguei tive a oportunidade de ver a colónia de 80 mil pinguins-macaroni. Também foi demais voltar a estar com os albatrozes - os viajeiros, os de cabeça cinzenta e os de sobrancelha preta. São lindos."

Certa vez, fez-se fotografar com um albatroz viajeiro bebé ao colo, que mais parece um boneco de peluche. "Os filhotes são adoráveis e podemos fazer-lhes miminhos atrás da cabeça. O engraçado foi perceber que a partir dos três ou quatro meses tornam-se adolescentes e já não nos deixam fazer nada." Os sons que os animais fazem também são particulares. A passar por cima de uma pessoa, um albatroz viajeiro faz lembrar o som de um avião. Os pinguins-gentis, com o seu cantarolar, são muito comunicativos: "Vêm até nós. Alguns rosnam, como se perguntassem: "Quem és tu?""E daquela ilha de um por quatro quilómetros, alguma vez deixa de se ver o mar? "Só há um ou dois vales em que não se vê." E o cheiro, como é? "Na Antárctica, é diferente de Portugal, onde temos o contacto directo com o ar salgado da costa. Não se sente tanto aquele cheiro forte do sal." Há uma explicação: no Verão, com o gelo a derreter, a salinidade das águas é mais baixa.

Se no Inverno está tudo forrado de branco, no Verão fica tudo verdejante, com tufos de erva entre a neve. Desenganem-se aqueles que pensam que o Verão antárctico dá para aproveitar o sol e a praia de calhaus pretos da ilha. Quando não há vento, a temperatura anda perto dos zero graus Celsius (no Inverno, chega aos 30 negativos com vento).

"O sol aparece, mas não como as fotos fazem parecer. As que tiro são sempre obtidas quando existe boa luz. Na ilha de Bird, diria que temos sol pelo menos um dia por semana e dá-nos para sobreviver. Se há sol, nota-se uma excitação no ar: nós, os cientistas, estamos felizes; as focas estão felizes; os albatrozes ainda mais alegres; e os pinguins a fazer mais festa do que o costume", relata.

"Tento aproveitar todos os dias na Antárctica, com chuva, neve - é tão bom sentir as gotas de água ou os flocos a bater-nos levemente na cara -, quando está nublado ou nevoeiro e os magníficos dias de sol."

Em Agosto, escrevia: "Estão cinco graus negativos, a neve é abundante, mas continuo com um sorriso. É-me difícil imaginar que em Portugal estão todos com uma toalha de praia, protector solar e um livro, a apreciar um pastel de nata entre dois cornetos (experiência pessoal) e a ler o jornal."

Para lá do tempo, dos cheiros ou do que se avista da ilha, há todo um mar de emoções. "A Antárctica é como um planeta dentro do planeta. Sinto que estou numa redoma e tento tocar e comunicar com os animais à minha frente. É tudo fascinante; a neve continua a fazer-me sorrir."

A solidão sente-se? "A ilha de Bird dá para estar horas a fio connosco próprios, para fazer ciência a cem por cento por muito tempo (as distracções são poucas). Mas nunca tive a sensação de isolamento." Saudades, então? "Senti as saudades tipicamente portuguesas, mas nunca me senti só. Chegar à Antárctica demora dois a três anos de propostas de financiamento, burocracias e preparativos. Quando finalmente se tem a oportunidade de vir, é tudo muito intenso. Estive sempre ocupado com a ciência e, sempre que havia um pouco de tempo livre, vinha logo a ideia de aproveitar ao máximo", responde.

"Acho que só notarei as diferenças quando voltar à "civilização". Isso aconteceu-me após o meu segundo ano, em 2000, com o ritmo dos transportes, o stress de Londres, o saber que quando saio de casa preciso da carteira, das chaves, do telemóvel, o relembrar os códigos do cartão de crédito."

Snowboard foi das coisas que aprendeu. Escalou, caminhou - e acampou, "com a noite a um grau negativo, o saco-cama congelou, mas não tive frio".

Claro que é preciso aprender a viver encafuado meses a fio com três ou quatro pessoas numa ilha. Mas ninguém cai ali de pára-quedas: quem vá com o British Antarctic Survey é submetido a vários cursos, explica José Xavier. De salvamento, geradores eléctricos, noções básicas de estomatologia e muito mais. "Em reuniões discute-se como lidar com a solidão, com problemas pessoais, com quem se deve falar. Percebemos que somos uma equipa e que todos dependem de todos. O hospital mais próximo é a mil quilómetros."

A inglesa Stacey Adlard (a estudar os pinguins) teve de fazer de dentista. "Um dia de Inverno, o Ewan [Edwards, um escocês que estuda focas] partiu um dente. Como não parecia grave, a Stacey lá tratou do caso. Claro que tirámos fotos ao dente, enviámo-las por e-mail ao dentista do British Antarctic Survey, mais uns telefonemas e correu tudo bem."

Se há coisa que se mantém constante na vida científica de José Xavier são as lulas e os albatrozes. Só que os pinguins também se lhes juntaram e a pergunta a que procura agora responder, já depois do doutoramento, é outra: como é que as alterações climáticas estão a afectar a dieta e, por sua vez, a reprodução dos pinguins-gentis e dos albatrozes viajeiros?

Os resultados, ainda preliminares, trouxeram surpresas (a 10 de Dezembro, José Xavier fará mais revelações numa apresentação pública no Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa). Este ano não houve muito krill, o camarão do Antárctico que é uma das bases da alimentação na zona, o que teve consequências nos pinguins. Em vez de krill, neste Inverno antárctico (de Junho a Agosto) tiveram de comer pequenos organismos chamados anfípodes. Resultado, começaram a época de reprodução mais tarde. "Como a taxa reprodutiva foi muito baixa, leva-me a concluir que os anfípodes foram a sua segunda opção de alimento e não conseguiram alimentar-se de mais nada."

Enquanto os pinguins-gentis regressam todos os dias a terra e nunca se afastam mais do que 20 quilómetros da ilha à procura de comida, os albatrozes viajeiros que estão ali lançam-se em viagens de mais de 20 dias, podendo ir até ao Brasil e regressar. Mas machos e fêmeas comportam-se de forma diferente: elas vão mais longe e comem principalmente lulas, eles ficam-se mais pela mesma área dos pinguins e alimentam-se de peixes, em particular das rejeições lançadas à água pelos barcos de pesca. Portanto, as alterações climáticas estarão a atingir mais os pinguins, enquanto os albatrozes parecem passar incólumes. O problema, neste caso, está nos anzóis de pesca onde ficam presos.

Congelar os momentos

Na primeira vez que chegou à ilha de Bird, José Xavier julgava ser o primeiro português a estudar os albatrozes. Enganou-se: "Cheguei 500 anos tarde demais. Quando os navegadores portugueses se aventuraram pelas costas de África, encontraram umas aves marinhas de grandes dimensões, pretas e brancas, às quais chamaram "alcatrazes", que nos séculos XV e XVI significava "grande ave marinha". Mais tarde, os navegadores ingleses corromperam a palavra para albatross." A diferença é que os estudos de José Xavier podem ajudar a salvá-los da extinção, por exemplo ao mostrarem que o uso de linhas de anzol mais pesadas impede os animais de apanharem o isco.

Para lá da correria entre as colónias de pinguins e albatrozes, o biólogo tinha os deveres da base. Cozinhar, de quatro em quatro dias, era um deles. Deu a provar feijoada, empadão ou bitoque.

Quem cozinhava ao sábado, esmerava-se, pois era um dia mais descontraído: à noite, conversavam ou entretinham-se com jogos. Aos domingos e quartas-feiras, havia cinema. Nas outras noites, analisavam dados e respondiam a e-mails, agora que há sempre Internet na base. Também ouviam rádios de todo o mundo. "Num fim-de-semana, estávamos a ouvir um jogo de críquete entre a Inglaterra e a Austrália na BBC. Eu e o Ewan decidimos enviar-lhes uma mensagem. Minutos depois foi ouvir os comentadores a dizer os nossos nomes e a dar-nos a máxima força. Foi uma alegria."

Mal saiu da Antárctida dizia que já estava com saudades do que deixara para trás. Em Setembro, faltavam ainda dois meses para o adeus, já transparecia no que escreveu que estava a despedir-se. "Gostaria de congelar estes momentos com todas as sensações que contêm e pô-las no bolso, para mais tarde recordar."Entre as colónias na ilha de Bird, na Geórgia do Sul, há pinguins-macaroni e albatrozes de sobrancela preta (em cima e em baixo); na praia de calhaus pretos podem encontrar-se elefantes-marinhos do AntárcticoA base britânica na ilha de Bird, de onde o biólogo marinho José Xavier acaba de regressar