"Architecting": e tudo o mundo levou

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O colectivo americano The Team apresenta "Architecting", proposta exigente que surpreende e faz pensar na América e no mundo. Hoje, Culturgest

Eles podiam ter feito uma adaptação clássica de "E Tudo o Vento Levou", de tão obcecados que estavam com os cenários, as personagens, os medos e aspirações de um país que se erguia depois de uma guerra absolutamente devastadora, à procura de uma redefinição.

Eles podiam ter trabalhado o tema da reconstrução que atravessa o romance de Margaret Mitchell que o cinema celebrizou nos olhos de Vivien Leigh e na pronúncia exagerada de Clark Gable a partir do dia-a-dia dos empresários ocidentais, muitos deles americanos, que enriquecem em Bagdad à custa da destruição que a invasão causou, protegidos por mercenários-Blackwater.

Eles podiam ter optado por uma peça sobre o feminismo - foi assim que começou, aliás - em que se evocassem as mulheres fortes que atravessam o livro que valeu a Mitchell o Pulitzer em 1937.

Mas os membros do colectivo The Team - Theater of the Emerging American Moment acabaram por ser levados noutras direcções. O espectáculo "Architecting", que a Culturgest apresenta em Lisboa (hoje´é o último dia), cruza diversas referências e meios - há dança, vídeo, música - para explorar o tema da reconstrução e da sobrevivência, sem que um se sobreponha ao outro.

"Os dois estão ligados, não podem separar-se", diz Rachel Chavkin, ao telefone de Nova Iorque e enquanto caminha apressadamente entre as aulas e o teatro. Chavkin partilha com Davey Anderson a encenação desta peça que a companhia escreveu e que tem vindo a desenvolver desde 2006. "No fundo, a questão central deste trabalho é como se reconstrói uma nação ou uma pessoa depois de uma transformação maciça sobre a qual não tivemos qualquer controlo. Se respondermos a esta pergunta saberemos o que dizer a outra: como se sobrevive a uma mudança radical que não pedimos, não previmos e não queremos? Esta é a questão que atravessa todo o romance de Mitchell e que andou sempre às voltas nas nossas cabeças. E sobreviver é às vezes tão difícil... Mas mais para umas pessoas do que para outras."

Do romance e da vida real

Num ritmo alucinante, criando por vezes cenas que parecem dominadas pelo caos e tendo sempre por referencial a América pós-Guerra Civil, "Architecting" instala fisicamente a acção num bar de Nova Orleães d.K. (depois do Katrina, o furacão que destruiu a cidade em Agosto de 2005). É por lá que passa uma galeria de personagens saída do romance de Mitchell, mas também da vida real: um produtor de cinema branco que insiste num "remake" politicamente correcto do filme que Victor Fleming dirigiu em 1939, contratando para isso um realizador negro; uma mulher que quer vencer um concurso de beleza destinado a escolher uma Scarlett O'Hara para um cortejo revivalista de "E Tudo o Vento Levou", uma jovem arquitecta que quer realizar o projecto do pai.

Carrie Campbell, a arquitecta que Libby King interpreta de forma arrepiante, é uma dessas mulheres fortes, e verdadeiras, que marcam "Architecting" (Mitchell também lá está, com a flor branca que usa numa das suas fotografias mais conhecidas). Na peça ela tenta pôr de pé o projecto de Steve Campbell que, antes de morrer, planeara um complexo habitacional para "yuppies" onde antes se erguiam casas modestas, num bairro negro de Nova Orleães totalmente destruído pelo Katrina. Na vida real é uma amiga de King, que se viu obrigada a regressar a casa, depois de muitos anos em Chicago, para representar a família num negócio de venda de terrenos no Nebraska.

Foi este momento na vida da amiga de King que, com o livro de Mitchell que nenhum membro da companhia lera antes de começar a trabalhar nesta peça, serviu de base ao primeiro embrião de "Architecting", uma pequena peça apresentada num festival em Nova Iorque, no Outono de 2006. Chamava-se "Thanks For Coming Home, Carrie Campbell".

"O nosso processo é sempre o mesmo - escolhemos um tema, lemos muitos dos livros que há para ler sobre o assunto, e começamos a trabalhar em estúdio, improvisando, escrevendo", explica Chavkin. De início, "E Tudo o Vento Levou" foi uma "escolha pouco óbvia" e a contragosto, feita numa conversa com os funcionários da livraria que a encenadora mais frequenta. Mas resultou.

A Team queria abordar a questão racial nos EUA, central em todo o "desastre doméstico" em que o Katrina se transformou, central na oposição Norte-Sul da Guerra Civil.

"A raça ainda é uma das questões fundamentais da vida americana. Mesmo depois de todo o optimismo que vivemos o ano passado com a eleição do Presidente Obama... Hoje o país está assustado. Olhamos para as livrarias e vemos todos aqueles títulos da ‘intelectualidade' da direita radical, com o seu populismo violento. Agora acabam de ser lançadas as memórias de Sarah Palin ["Going Rouge"], ícone do racismo e da ignorância, uma mulher essencialmente anti-imigração e anti-tudo que seja ‘não branco'."

Rachel Chavkin espera que "Architecting" ponha as pessoas a pensar no que as rodeia, em tudo o que gostariam de reconstruir, mas sem ingenuidades nem optimismos. Para ela esta é uma peça negra e a frase que Carrie Campbell diz no seu monólogo final resume-a, na sua essência: "As pessoas precisam de casas antes de precisarem de monumentos comemorativos." É nisso que Chavkin pensa quando olha para as ruínas das casas tradicionais de Nova Orleães, com os seus alpendres destruídos, ofuscadas pelas moradias que Brad Pitt está a construir. Ela acha o projecto do actor "maravilhoso", mas gostava tanto dos velhos alpendres...

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