O velho casal

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Os críticos de cinema, assim como a generalidade das pessoas que gostam de cinema, usam com frequência este adjectivo: "televisivo". Invariavelmente, é um queixume. Serge Daney, que escreveu imenso sobre televisão (mesmo se, ou sobretudo porque, a considerava "incriticável"), observou melancolicamente: "Como um velho casal, o cinema e a televisão acabaram por ficar parecidos um com o outro". Era um queixume. As pessoas que gostam de cinema não gostam que o cinema se pareça com a televisão.

Há uma primeira explicação, muito rápida: as pessoas que gostam de cinema, de ir ao cinema, que se dão ao trabalho de sair de casa, de enfrentar a chuva, os transportes públicos ou a escassez de lugares para estacionar, não gostam de chegar e verem-se confrontados com o mesmo tipo de coisa a que teriam direito se tivessem ficado em casa e ligado a torneira da televisão.

A segunda explicação não é tão rápida mas formula-se de maneira simples: o cinema não é a televisão. Não é a televisão má (embora seja, nos casos mais felizes, "má televisão") e também não é a televisão boa (embora seja, demasiadas vezes, "boa televisão").
Porque não se trata de implicar que toda a televisão é má. Há coisas interessantes na televisão. E o trânsito entre a televisão e o cinema já conheceu muitos episódios produtivos. No cinema americano, por exemplo, realizadores tão estimáveis como Robert Mulligan ou Sidney Lumet tiveram a televisão como escola. E muitos cineastas - nalguns casos, como Hitchcock ou Renoir, vindos do mudo - se interessaram pela televisão, com respeito e seriedade intelectual. O caso de Roberto Rossellini é crucial. Nos anos 60 anunciou que abandonava o cinema, agastado com o que ele via como futilidades (e "futilidades" eram tanto o "negócio" como a "arte"). Acreditava na utilidade da televisão, como ferramenta científica e didáctica, posta ao serviço do saber e da investigação. Concretizou vários projectos e alimentou o sonho - certamente insano - de uma grande "enciclopédia audiovisual". Mas quem tomou o poder sobre a televisão em Itália foi Berlusconi e a realidade vingou-se do idealismo rosselliniano.

É importante não confundir coisas feitas para a televisão com a televisão, como ideia, como entidade e como prática geral. Os filmes de Frederick Wiseman têm em canais de cabo regionais os seus principais modos de divulgação na América. Mas não passa pela cabeça de ninguém confundi-los com "televisão", tão longe eles estão dos modelos comuns da produção televisiva. Pode-se até defender que eles influenciaram alguma dessa produção, se quisermos pensar na hipótese de estar neles a raiz de séries de TV (como "Hill Street Blues" ou as séries hospitalares) centradas em "lugares de convergência". Que, por sua vez, ninguém confundiria com um filme de Wiseman: o cinema não é a televisão.

E no entanto a confusão existe, e é aqui que surge o adjectivo "televisivo". Que não se queixa da televisão, queixa-se do cinema. Do cinema que tem o horizonte limitado pela televisão ou, quando muito, da televisão que se faz passar por cinema. O documentário, género fragilizado pela sua reduzida implantação nos circuitos da distribuição cinematográfica comercial, e em consequência muitíssimo dependente da televisão, é pasto fértil para esta confusão. Demasiadas vezes se toma a "reportagem televisiva" por "cinema documental". Algum jornalismo pode ser posto a par da melhor literatura, mas mesmo nesses casos há uma diferença de natureza, preocupações, práticas e funções distintas. A reportagem é presidida por um tema, no cinema o "tema" surge através da criação de um ponto de vista construido com o tempo, com o espaço, com o real. Os recursos formais, a respiração e o ritmo são diferentes. Quando se confundem, é "televisivo". No seu registo tão devedor de procedimentos (e de efeitos) importados da televisão, é caso de "Pare, Escute e Olhe". Eventualmente é um programa de TV interessante, bem acabado, com um "tema" de interesse público, fácil de ver. Posto dentro de um festival de cinema documental, estas qualidades parecem magras - e desajustadas. Daney tinha melancólica razão quando falava do "velho casal", mas se ainda há festivais de cinema estes deviam propor uma revolta conjugal e talvez pensar no título de um filme de Maurice Pialat: "Não envelheceremos juntos".