A cozinha como arte da vida

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Os espectadores podem assistir a tudo, menos comer

Quando os espectadores se sentarem na plateia do São Luiz, em Lisboa, para assistir a "O que se leva desta vida", de Gonçalo Waddington e Tiago Rodrigues com dramaturgia de João Canijo, devem ir bem alimentados. É que durante o espectáculo vão assistir à confecção de vários pratos "gourmet" e terão à frente o frenesi que se vive numa cozinha de um restaurante agraciado com estrelas Michelin - além dos dois actores está em palco uma equipa de cinco cozinheiros. E sairão dali a ter a certeza de que as grandes questões da vida se resolvem à mesa.

Entre outras coisas Gonçalo vai confeccionar "gel de perdiz com gelatina de grelos e granizado de pão com uma chip de pele de porco" e Tiago irá fazer "gelado de carne de pato, areia de temperos e água de grelos numa caixa de fumos". E há um operador de câmara em palco que vai filmando a confecção dos pratos e isso é projectada em ecrãs.

A ideia do espectáculo e de montar uma cozinha num palco surgiu quando Waddington e Rodrigues rodaram "Mal Nascida". de Canijo, e nas folgas faziam périplos gastronómicos pelo Norte do país e Galiza. "A conversa sobre a ideia de realizarmos um projecto em conjunto acontecia sempre quando estávamos à mesa e por isso achámos que o tema devia ser a gastronomia", conta Gonçalo. Partiram para a Catalunha e País Basco e pediram a colaboração dos cozinheiros de restaurantes com três estrelas Michelin como Santi Santamaria, Martín Berasategui, Juan Mari Arzak e Carme Ruscalleda. Comeram nesses restaurantes - o menu de degustação - e entrevistavam os cozinheiros sobre a arte de cozinhar e ainda fizeram um estágio nas cozinhas de Arzak e de Berasategui, em San Sebastian.

O texto foi escrito por Canijo e pelos dois actores. Um texto sobre dois cozinheiros com duas maneiras diferentes de ver a sua profissão, "um cozinheiro platónico e um aristotélico, ou seja um muito mais pela cozinha imanente, pelo prazer da vida, pelo prazer de cozinhar no momento, e o outro muito mais transcendente, pelo prazer das ideias, da criação", explica Gonçalo. A discussão entre os dois começa por causa de um produto português: a alheira.

"Há um jogo que nos interessa que é o de um espectáculo que começa com um gesto desconcertante artisticamente que é que basta uma cozinha a funcionar em palco para haver uma proposta performativa", explica Tiago. "De repente há uma peça de teatro que começa a sair dos subterrâneos dessa cozinha".

Uma peça com "um lado vagamente documental e expositivo" que mostra um pouco do universo da "haute cuisine". Em "O que se leva desta vida" os espectadores conseguem ver tudo aquilo que não vêem quando vão ao restaurante. "A única coisa que não lhe oferecemos é sentar-se na sala e comer um bom prato", dizem os actores que esperam que os espectadores saiam do S. Luiz com fome.