"Há centenas de clientes desesperados"

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Já há 500 inscritos

Já se filiaram mais de 500 pessoas na associação criada para defender os clientes do BPN. Mas ninguém sabe como e quando "o pesadelo" vai acabar

a Todos os dias há dezenas de clientes do BPN a contar histórias dramáticas, diz António Henriques, presidente da Associação Nacional de Defesa dos Direitos dos Clientes do BPN, que em 12 dias já tem mais de 500 associados.

"Precisávamos de um psicólogo ou de um psiquiatra para nos ajudar a lidar com alguns casos", desabafa o responsável. "Há centenas de clientes que estão desesperados e alguns estão mesmo desvairados, e pertencem a todos os grupos sociais", diz o presidente da associação criada para representar todos os clientes lesados pelo BPN, mas onde ganham especial destaque os que não foram reembolsados da emissão de papel comercial da SLN Valor, a holding de topo do grupo que detinha o BPN, entretanto nacionalizado.

"Sempre que abrimos a caixa de correio electrónico [[email protected]] encontramos testemunhos de pais sem dinheiro para pagar as universidades dos filhos, de pessoas a pedir empréstimos a outros bancos para fazer face a despesas de saúde, de pessoas que enviuvaram e não têm rendimentos para fazer face às despesas", diz António Henriques.

O responsável adiantou que há muitas pessoas que tinham todas as suas poupanças depositadas no BPN, poupanças essas que foram transferidas, em alguns casos sem que tivessem assinado qualquer documento, para a subscrição de papel comercial, com a garantia de que se tratava também de um depósito a prazo (um ano), que os títulos eram emitidos pela dona do BPN (a SLN Valor).

António Henriques diz que a relação dos clientes com os funcionários era muito próxima, por isso há pessoas que foram contactadas por telefone e deram autorização por essa via. "Há pessoas que têm dificuldade em perceber esta relação de confiança que existia entre os clientes e os funcionários e não é contra eles que nós estamos, porque eles também foram enganados pela administração", destaca Henriques, lembrando o caso do director de Coimbra que emitiu um e-mail aos funcionários a dizer que era preciso "arrasar" na colocação da emissão e que se algum cliente levantasse dúvidas deveriam dizer-lhe que estava "a comprar risco BPN".

António Cardoso, do Porto e ligado ao ramo imobiliário, foi um dos clientes que aceitaram a transferência de 100 mil euros de um depósito a prazo para a emissão de papel comercial (colocados em unidades de 50 mil euros), que renderia mais 1,25 por cento face aos juros do depósito. Cardoso disse ao PÚBLICO que perguntou ao gerente se o produto era seguro, o que o levou a mostrar-lhe o tal e-mail do coordenador de empresas do Centro, Jorge Pessoa, agora administrador do banco.

"Isto é um pesadelo, fomos apanhados no meio de uma guerra política", defende António Cardoso, sus-tentando que "o caso BPN é uma resposta do PS ao caso Freeport, instigado pelo PSD".

Conflito segue para tribunal

Os factos: em Julho e Agosto de 2008, já com Miguel Cadilhe à frente do grupo SLN - Sociedade Lusa de Negócios, que detinha o BPN, foram feitas duas emissões de papel comercial no valor global de 150 milhões de euros. A emissão destinava-se a garantir dinheiro à SLN Valor, a holding de topo do grupo, para fazer face a um aumento de capital do BPN, que nessa altura já se debatia com sérias dificuldades financeiras.

Assim, a emissão foi feita pela SLN Valor (os accionistas da empresa não entravam directamente com dinheiro, pelo menos nesta fase), a colocação foi feita pelo BPN junto dos seus clientes.

Em Novembro, já depois do aumento de capital do BPN com o dinheiro dos clientes, dá-se a nacionalização da instituição. Em Julho e Agosto venceu o prazo do papel comercial e, no BPN, só havia ordem (da SLN Valor) para pagar os juros e 10 por cento do valor da emissão.

Entretanto, a administração do banco nacionalizado tem descartado quaisquer responsabilidades face ao reembolso da emissão, remetendo a responsabilidade dessa questão para a SLN Valor, que continua sem concluir o reembolso.

Neste momento, três credores (de papel comercial) avançaram com um pedido de insolvência da SLN Valor. Na contestação desse pedido, a administração da holding, liderada por Alberto Figueiredo, diz ter património imobiliário, designadamente terrenos em Alcochete, que pretende canalizar para um fundo de investimento imobiliário, que garante o pagamento da dívida.

Agora, o futuro das poupanças destes clientes está, em grande parte, dependente da evolução do processo no Tribunal do Comércio de Lisboa.