Dalila Rodrigues abruptamente afastada do novo museu de Paula Rego

Decisão anunciada na quinta-feira surpreende directora. Historiadora de arte fora escolhida pela própria pintora

A actual directora da Casa das Histórias, o museu da pintora Paula Rego, que inaugurou há um mês, acaba de ser afastada do projecto. A decisão foi anunciada ontem à responsável, abruptamente, durante uma reunião na Câmara Municipal de Cascais. Dalila Rodrigues deve sair no fim do ano.

"Não houve consenso no nome de Dalila Rodrigues", disse ao PÚBLICO Ana Clara Justino, vereadora da Cultura de Cascais e vice-presidente da Fundação Paula Rego, entidade gestora da Casa das Histórias. "A sua indicação para o cargo de directora não foi validada pelo Conselho de Administração." Não se conhece ainda o nome do possível sucessor.

Não são conhecidas as razões do afastamento de Dalila Rodrigues, originalmente convidada pela própria pintora. Mas fonte institucional que acompanhou o processo de perto diz que, desde o início, eram notórias as divergências sobre o futuro do museu entre Dalila e o circuito mais próximo da pintora. A directora defendia um projecto muito mais ambicioso.

Dalila Rodrigues, que foi ontem de férias para Nova Iorque numa viagem já programada, não confirmou a saída ao PÚBLICO, mas explicou que "a passagem de tutela da Câmara Municipal de Cascais para a Fundação Paula Rego está em processo negocial". "Uns dias antes da abertura do museu foram aprovados os estatutos da fundação e a equipa transitará para este novo quadro. É um processo que está em curso."

A Câmara de Cascais já reuniu com a equipa do museu para comunicar a decisão. Segundo Ana Clara Justino, "a proposta de permanência da equipa está válida até Dezembro para cada um dos colaboradores". A Fundação Paula Rego, composta em partes iguais pelo Estado, Câmara Municipal de Cascais, a própria Paula Rego e a sua galeria Marlborough, de Londres, é presidida por Maria João Liberal.

Quando a decisão de afastamento lhe foi comunicada, a câmara deu a Dalila Rodrigues a "possibilidade de assegurar a transição até Dezembro, em condições a acordar", disse a vereadora Ana Clara Justino, mas "sobre esta possibilidade a Drª Dalila não se pronunciou".

A Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais, um projecto do arquitecto Eduardo Souto Moura - com quem Dalila Rodrigues já se tinha cruzado na requalificação do Museu Grão Vasco - foi inaugurada a 18 de Setembro pelo Presidente da República Cavaco Silva. Dalila Rodrigues abandonou a direcção de comunicação, marketing e desenvolvimento da Casa da Música, no Porto, para abraçar este novo desafio, depois de ter dirigido o Museu Nacional de Arte Antiga, de onde saiu também de forma conturbada, depois de ter sido afastada pela então ministra da Cultura socialista Isabel Pires de Lima, em 2007. A sua saída gerou um forte debate público, com cartas, protestos e abaixo assinados contra a decisão.

Na altura em que o seu nome foi apresentado, o presidente da Câmara Municipal de Cascais, o social-democrata António Capucho, fez questão de sublinhar publicamente que o nome de Dalila Rodrigues era uma escolha pessoal de Paula Rego. Respeitada historiadora de arte, Dalila Rodrigues é especialista em pintura portuguesa do século XVI e autora de um estudo sobre o mestre Grão Vasco.