Opinião - Amália e Alain Oulman: in memoriam

Foto
DR

Impus, como condição para aceitar, que procurassem obter a prévia aprovação da cantora para que me fosse entregue uma tarefa por mim considerada como sendo muito honrosa e, ao mesmo tempo, de grande responsabilidade, não só pela projecção mundial do nome de Amália como também pela grandeza da operação de levar a efeito tal projecto, que começava no rigor da recolha de todo o material de natureza audiovisual onde ela tivesse participado e terminava na obrigação de obter, a partir do momento em que eu ficasse com o encargo, as mais perfeitas gravações e registos audiovisuais que, desde então, fossem feitos de todos os seus espectáculos e intervenções públicas.

Amália aceitou o meu nome e, depois da nossa primeira conversa, mantida na presença de Rui Valentim de Carvalho, ficou entendido que passaria a competir-me não só a direcção de todas as operações tendentes à realização do projecto, como também a coordenação e a gravação de todos os passos da artista que se entendesse serem relevantes para a composição do filme, em condições técnicas que considerasse como sendo as mais convenientes para a obtenção de suportes da mais alta qualidade, por forma a ser possível chegarmos a um produto final à altura da grandeza universal a que chegara o nome de Amália Rodrigues.

Tal significaria , em termos práticos, que daí em diante nenhum espectáculo de Amália teria lugar sem a minha direcção artística.

Começámos a trabalhar com entusiasmo dadas as minhas relações com a própria Amália Rodrigues, com Rui Valentim de Carvalho e seu sobrinho Carlos de Carvalho ( que assumiu as funções de coordenador de produção do projecto ) e tendo ainda em conta os laços de amizade que me ligavam, de longa data, a Alain Oulman, o compositor do maior número de fados interpretados por Amália, e a David Mourão-Ferreira , autor do maior número de poemas por ela cantados.

Organizei um plano de trabalhos que previa, para lá da recolha de todos os materiais onde houvesse a presença da artista nos diferentes arquivos de imagens em movimento, uma série de entrevistas, das quais a mais importante era a da própria Amália, que preparei minuciosamente com ela, tendo obtido a sua anuência para que se realizasse em sua casa sendo seus interlocutores eu próprio, David Mourão-Ferreira e Alain Oulman, tendo ainda ficado acordada uma ida à sua casa do Brejão cuja finalidade era a de estabelecer a sua relação com o lugar por ela própria definido como sendo o de sua eleição, sito na costa vicentina, numa casa construída à sua medida, numa falésia rochosa em frente ao oceano atlântico. Essa entrevista foi realizada e faz parte do material cujas matrizes estão à guarda da firma Valentim de Carvalho.

Depois de muitas horas de troca de impressões com Amália, que me permitiram avaliar da importância de cada um dos passos da sua longa, rica e movimentada carreira, ocorreu-me a ideia de filmar qualquer coisa que desde a primeira hora me intrigara e acerca da qual nunca havia sido feito qualquer registo.

Disse-lhe que não haveria nenhum dos espectadores do futuro filme que não desejasse saber como é que a Amália aprendia a cantar uma música e uma letra que lhe fossem trazidas pelo compositor e que ela teria que aprender para poder cantá-las...

A Amália começou por recusar liminarmente a ideia, dizendo que jamais se prestaria a revelar qualquer coisa que relevava do seu foro intimo.

Resolvi então pedir o auxílio do Alain Oulman, certo de que ele compreenderia imediatamente o interesse da minha proposta e me ajudaria a convencê-la a aceitar o que me parecia ser uma boa ideia.

O Alain vivia em Paris, falámos ao telefone e a resposta que ele me deu foi em tudo idêntica à de Amália, invocando os mesmos argumentos. Combinámos, no entanto, a data de uma vinda sua a Lisboa, para gravação da entrevista, tendo eu continuado pacientemente a tentar demover Amália da sua recusa, sem que obtivesse grandes avanços, pedindo a ajuda do David Mourão-Ferreira, do Rui Valentim de Carvalho e de outras pessoas do círculo dos amigos íntimos de Amália.

Foi necessária muita paciência e alguma teimosia mas, finalmente, após uma conversa de várias horas no salão da casa da Amália travada com ela e com o Alain, obtive o consentimento de ambos para a filmagem.

Foi-me assim possível organizar a realização de qualquer coisa que é, com efeito, um momento único da criação de uma peça musical, e tive a consciência de que passara a pesar sobre mim a responsabilidade do resultado final, que seria tanto melhor quanto mais eficiente e discretamente eu conseguisse utilizar meios técnicos de algum volume e de indisfarçável presença de modo a não prejudicar o que iria passar-se entre dois seres que, entre si, teriam que comunicar um ao outro qualquer coisa que exige uma enorme concentração, um recolhimento total e uma empatia entre dois criadores que nenhum elemento externo pode perturbar.

Eu e a minha equipa trabalhámos o dia inteiro a organizar a colocação dos diferentes equipamentos de filmagem e de iluminação, a orientar as luzes, a esconder os cabos e a estabelecer o modo de funcionamento das duas câmaras de captação das imagens da forma menos visível ( ou mais invisível... ) tanto para a Amália como para o Alain Oulman - que sempre lhe “ensinava” as músicas tocando-as ao piano.

O piano tinha sido colocado bem exactamente ao meio do estúdio.

Alain dera a Amália, creio que na véspera, o poema que ela teria que “aprender”, o belíssimo “Soledad”, de Cecília de Meireles. O Alain apareceu-nos um ou dois minutos antes da Amália, expliquei-lhe vagamente como ia proceder ( eu próprio empunharia uma das câmaras ) e quando a Amália chegou havia já no estúdio a penumbra da luz feita para a gravação. Ela encostou-se ao piano, tinha na mão a folha com o poema, o Alain começou a tocar e a cantar ele próprio os primeiros versos. A Amália logo começou a segui-lo, e bem depressa, para grande surpresa minha, se substituíu a ele, como se tivesse adivinhado a melodia e a letra...

Todos partilhámos a emoção de um momento único, irrepetível e de grande autenticidade e beleza, que ultrapassou o simples acto de ver e ouvir um compositor a ensinar a um intérprete o que este terá que cantar.

Tive a plena sensação de ter filmado os mais belos planos da minha vida.

Filmei ainda, entre outros episódios, a entrevista em casa de Amália Rodrigues e a ida ao Brejão, que ocorreu num belo e luminoso dia de fim de Primavera, durante o qual, e antes da filmagem que faríamos à casa e aos espaços exteriores que a circundam, a Amália organizou bem à sua maneira, ela que tanto gostava de receber os amigos , uma “sardinhada” cuja filmagem não estava prevista. Ordenei a um dos operadores e ao técnico de som, sem prevenir a Amália, a colocação de uma câmara e de um microfone captando a sua imagem em grande plano, de tal modo que ficou gravada toda a conversa havida à volta daquela mesa, com evidencia para o que dissesse Amália, dada a escala do plano utilizada.

Ocorreram, entretanto, um pouco mais tarde, os incidentes que levaram à minha saída do filme. O primeiro teve lugar na preparação de um espectáculo que os gerentes em exercício na Valentim de Carvalho, à revelia do que tinha sido acordado entre mim, Amália Rodrigues e Rui Valentim de Carvalho, consentiram que fosse gravado pela RTP, sob a direcção de um realizador da casa e, portanto, sem a minha intervenção.

O segundo, verificou-se quando fui notificado de que nem eu nem a minha equipa acompanharíamos a digressão da artista a Itália, onde ia cantar às termas de Caracalla, cujo concerto deveria ser gravado na íntegra de acordo com tudo o que fora combinado, por forma a que o filme sobre a vida da Amália pudesse ter o registo de todas as suas actuações futuras, de modo a evitar-se o que tantas vezes sucedera no passado, inclusivamente nos arquivos da RTP, onde deparámos com o desaparecimento de muito do material que sobre ela fora gravado, em virtude de ter sido feito em condições deficientes ou pura e simplesmente apagado.

Informei Amália Rodrigues da minha decisão de abandonar um projecto ao qual me ligara de alma e coração mas que não poderia levar a bom termo se não fossem respeitadas as regras previamente estabelecidas, cuja quebra, entre outras coisas, indiciava novos atropelos de natureza técnica e artística que muito dificultariam o meu trabalho. Tentou demover-me do que eu decidira fazer mas percebeu as minhas razões que estavam, de resto, de acordo com exigências que haviam sido as suas.

Informei também o Carlos de Carvalho da decisão que tomara, na sua qualidade de coordenador do projecto e para que dela desse noticia a Rui Valentim de Carvalho, seu tio, procedi ao fecho de contas das despesas de produção em curso com o Estúdio bem como à entrega de todos os materiais que tinha em meu poder e, desde então, remeti-me ao silêncio.

Sendo provável que tenha passado recibos para pagamento das tarefas puramente técnicas de um profissional de cinema, não assinei nenhum contrato com a Valentim de Carvalho, nem directamente nem através da Sociedade Portuguesa de Autores que me representa, do qual possa inferir-se que tenha cedido os meus direitos de autor.

Não parece ser este o entendimento que os gerentes da referida firma têm do problema das autorias, e, neste caso concreto, da minha autoria, porquanto:

- cederam, sem minha prévia autorização, todo o material de que dispunham ao realizador que contrataram para me substituir, creio que em 1994, de seu nome Bruno de Almeida, para um filme sobre Amália a que foi dado o título de “The Art of Amália”. Na primeira cópia deste filme exibida na RTP em data que não recordo, forcei, por intermédio de Carlos de Carvalho, à colocação do meu nome como autor das filmagens da sequência na qual se vê Amália a aprender o fado, a única das imagens por mim deixadas usada pelo realizador. Posteriormente, o meu nome foi retirado, desaparecendo, portanto, de todas as cópias eventualmente vendidas pela Valentim de Carvalho para várias cadeias de televisão do mundo inteiro.

- cederam, igualmente sem minha autorização, imagens dessa sequência para o filme de Carlos Saura “Fados”, estreado em 2007, e exibido em todo o mundo. Em nenhum momento do filme é referido o meu nome como tendo sido o autor dessas imagens.

- cederam, novamente sem minha autorização, alguns dos materiais por mim filmados mais a totalidade dos planos que configuram esta sequência para o filme recém-estreado “Com Que Voz – Alain Oulman”, com os quais o realizador do filme Nicholas Oulman, edita a comovente cena final com a duração de 8 a 9 minutos. O filme foi feito para honrar a memória de seu Pai, Alain Oulman, prematuramente falecido em 1990 e que foi um dos meus melhores Amigos. Destina-se a exibição comercial universal e auguro-lhe o maior sucesso porque é um belo filme.

O meu nome não figura no seu genérico, passando-se tudo como se as imagens fossem da lavra de quem, como realizador, o assina e não da minha autoria.

À semelhança do que se passou com os outros dois filmes.
Como se eu não existisse.