Crítica

Um "delay"

As estreias em poesia são em geral tardias, e já tardava uma estreia com esta força

As estreias na poesia portuguesa são em geral tardias. Mas já tardava uma estreia forte de um poeta nascido na segunda metade dos anos 1970. Miguel-Manso nasceu em 1979 e à beira dos trinta publicou dois notáveis livros de poemas: "Contra a Manhã Burra", edição de autor, e "Quando Escreve Descalça-se", edição da livraria Trama. As escassas centenas de pessoas que acompanham a nova poesia esgotaram com entusiasmo ambas as publicações, pelo que "Contra a Manhã Burra" volta a aparecer, agora com chancela da Mariposa Azual.

Todo o percurso biográfico de Miguel-Manso aponta para a deriva, um dos modelos canónicos da vida literária: estudou Design de Comunicação e desenho, foi bibliotecário e vigilante de museu, arranjou biscates, viveu em Paris e andou pelo Oriente. "Contra a Manhã Burra" tem uma evidente dimensão de viagem e aventura, notas soltas sobre pessoas e lugares. O mundo todo é palco de experiências, e tanto estamos em Almeirim como em Barcelona, na estrada para Góis, em Canterbury ou no lisboeta Jardim da Parada. Este parece um livro manuscrito, quase como se tivéssemos em fac-simile os cadernos de Miguel-Manso; há uma comunicabilidade directa do vivido como é raro encontrar. Isso não significa que os poemas tenham uma legibilidade clássica; pelo contrário, eles são formalmente inventivos e inesperados, o seu desenho na página sempre uma surpresa, têm hiatos e justaposições, numa espécie de imagismo boicotado que deve muito a João Miguel Fernandes Jorge.

Muitos dos textos são anotações, às vezes o memorial de um momento fugaz. Outros são poemas-piada, fáceis ou deliberadamente obscuros. Nos melhores casos, no entanto, combinam uma crença antiga e antiquada nos poderes da linguagem poética com uma auto-ironia e reticência geracionalmente mais óbvias. Há uma expressão bastante curiosa que nos dá uma boa pista: "um delay entre a matéria e a consciência". O próprio poema é esse "delay", porque a matéria, que era um fenómeno exterior, já foi interiorizada, já faz parte da consciência. Basta ver como Miguel-Manso dialoga com dois poetas portugueses. Ruy Belo é de algum modo convocado como um percursor do "estudo da melancolia", mas o que é em Belo "matéria" e "consciência"? As estações do ano são matéria ou consciência? A passagem do tempo é matéria ou consciência? É no "delay" que essas dúvidas se exprimem como dúvidas. O mesmo acontece com Cesariny: "luzes e achados / dizia // coisas que de dentro saíam / sabe como é // (...) sabe / a gente pensa que é feita de milhões / de coisas cá dentro mas // depois olha o céu aliás / o cimo // o cimo como uma estrada secreta (...)" (pág. 82). Somos feitos de "milhões de coisas", fora e dentro, na matéria e na consciência, e daí estes poemas que vão ao encontro de "luzes e achados".

O mais insólito é a presença de uma cartografia portuguesa, "o assombro português das descobertas". Não é patriotismo nem depuração mitológica, apenas dar novos mundos ao mundo, viver experiências na "Nova Ásia" que está tanto por descobrir como no tempo de João de Barros. Além do mais, Miguel-Manso absorveu a depuração da poesia oriental, a natureza em movimento, pássaros a agitar-se numa nespereira, mas também delicadas sugestões eróticas e confissões reticentes, como neste "Casamento de Bangkok": "disse-me // aprendi o essencial de tailandês / para não me perder na rua / saber o que vou comer nos restaurantes / dizer-lhe que a amo // mas não o suficiente para / lhe explicar o porquê // por isso / aponto com o olhar as árvores do pomar / são o nosso pequeno resguardo / de beleza // seguimos o perfume / ela sabe" (pág. 73).

A viagem entre matéria e consciência neste e noutros mundos não descamba em catequese filosófica, até porque Miguel-Manso prefere sempre fazer uma pausa para um cigarro. A notável e serena inquietude deste poeta está na recusa deste "tempo de simulacros / e rarefacção" e na capacidade de ir à descoberta. De fazer as suas próprias descobertas: "de Piccard a Cousteau de Jasão a Ballard / e hoje na lenta esferográfica deste poeta em 2ª classe / Linha da Azambuja ao cair da tarde / O sol deita-se sobre o começo convexo do mouchão / A trinta minutos de Santarém como se fosse mel (pág. 78).

Acrescente-se que a outra colectânea, "Quando Escreve Descalça-se", é ainda melhor que "Contra a Manhã Burra", e merece igualmente uma rápida reedição. Já há algum tempo que esperávamos por um novo poeta.