A opressão etarra

Na passada segunda-feira, Espanha ficou mais segura para os bascos, os espanhóis e para todos os que ali se arriscam

Acúpula directiva da ETA rejuvenesceu. A detenção de dois altos dirigentes no passado dia 19 de Outubro confirma esta tendência, verificada ao longo dos últimos 3 anos. Durante a governação de José María Aznar, entre 1996 e 2004, a maioria dos operacionais treinados por grupos argelinos, pelo IRA e por outras organizações terroristas foram presos. O vazio de poder gerado foi preenchido pelas fileiras das camadas jovens da organização, normalmente empregues no vandalismo daKale Borroka. Longe de mudar alguma coisa, a nova geração trouxe apenas mais agressividade. A ETA intitula-se lutadora pela liberdade. Aliás,Euskadi ta Askatasuna significa "País Basco e Libertação". Nada mais do que retórica, e os atentados provam-no.

Isaías Carrasco foi vereador do PSOE em Mondagrón-Arrasate, um bastião do movimento etarra. Em dado momento, retirou-se da vida política e regressou à sua anterior profissão: portageiro numa via rodoviária basca. Esta actividade profissional impunha-lhe uma vida modesta. Decidiu, uma vez abandonado o cargo público, prescindir da escolta armada a que tinha direito. No dia 7 de Março de 2008, quando saía de casa acompanhado pela mulher e pela filha, foi assassinado a tiro por um comando da ETA.

Não há opressão política por parte do Governo central. E, ainda que houvesse, Isaías não era um tirano. Quais os motivos que justificam a sua execução? A sua morte explica-se por, naquele momento, se estar em plena campanha para as eleições legislativas e esta ser a forma escolhida pela ETA para participar no acto eleitoral. Quando as figuras proeminentes estão blindadas, a ETA ataca os pontos mais fracos.

Independentemente das valorações que façamos sobre o sentido de oportunidade e estratégia do processo de diálogo encetado por José Luis Zapatero, julgo ser indiscutível que aquilo que o moveu foi a intenção genuína de por cobro à violência que grassa no país vizinho. Durante este período de conversações, a ETA deu vários passos que nos permitem descortinar a sua verdadeira intenção e comportamento político. Em Outubro de 2006, na véspera do dia em que o executivo espanhol levou o Caso Basco e representantes das forças políticas separatistas ao Parlamento Europeu, o grupo terrorista roubou cerca de 300 armas e munições numa fábrica da região basca francesa. Isto é, enquanto o Governo se esforçava por encontrar vias de diálogo e soluções, a ETA rearmava-se. A 30 de Dezembro do mesmo ano, armadilhou uma carrinha e colocou-a no parque de estacionamento do aeroporto madrileno de Barajas, destruindo por completo o sector D do referido parque e matando dois emigrantes equatorianos que, como muitos outros, procuravam na Europa uma vida melhor, que não alcançam nos seus países de origem.

A ETA luta contra o que alega ser o domínio opressor do Governo de Madrid. Por toda a Espanha, ainda que com maior incidência no País Basco, militares, políticos, jornalistas, académicos e suas famílias vivem as 24 horas do dia dependentes de guarda-costas e de procedimentos especiais de segurança extremamente restritivos. Abdicar da liberdade é a única forma de terem alguma garantia de que continuarão vivos. Afinal, a opressão existe em Espanha, mas é da exclusiva responsabilidade da ETA.

A detenção de Aitor Elizaran Aguilar e de Oihana San Vicente não pode, portanto, deixar de ser recebida como uma boa notícia. Em termos globais nada muda, pelo menos para já, mas não deixa de ser um duro golpe na estrutura operacional da ETA. Na passada segunda-feira, Espanha ficou mais segura para os bascos, para os espanhóis e para todos aqueles que se arriscam a estar no momento errado no lugar errado em território espanhol. Investigador do Instituto Português de Relações Internacionais e Segurança