Cultura

Saramago: Há muita coisa na Bíblia que vale a pena ler

“Desperto muitos anticorpos em certas pessoas”, afirma José Saramago
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“Desperto muitos anticorpos em certas pessoas”, afirma José Saramago Enric Vives-Rubio/Arquivo

A Bíblia “é um livro sagrado” mas a literatura de Saramago não; a Bíblia “tem coisas admiráveis do ponto de vista literário” e “muita coisa que vale a pena ler” – nomeadamente o livro dos Salmos, com páginas “belíssimas”, o Cântico dos Cânticos, ou a parábola do semeador contada por Jesus; e muitos valores que José Saramago tem interiorizados são “valores cristãos”.

Quem o diz é o próprio autor de Caim, o livro que está a provocar nova polémica. Não pelo livro, como reconheceu hoje, em conferência de imprensa, José Saramago. Mas pelos comentários do próprio autor a propósito. Nomeadamente, quando dizia, domingo, em Penafiel, que a Bíblia é um “manual de maus costumes”, cheio de “um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana”. E para a decifrar, uma pessoa comum precisaria de ter “um teólogo ao lado”.

E se alguém dissesse que a obra de Saramago é, também ela, um “manual de maus costumes”? Seria isso redutor ou seria necessário um teólogo para explicar a obra?

“A Bíblia é um livro sagrado e, que eu saiba, nenhum dos meus romances é sagrado”, responde o escritor. “A Bíblia tem coisas admiráveis do ponto de vista literário”, reconhece. Entre elas, estão os Salmos e o Cântico dos Cânticos. E também já leu o Pentateuco e o Novo Testamento.

Mas a exegese de Saramago prefere pegar nos episódios de violência relatados na Bíblia – históricos, uns, mitológicos, outros. O sacrifício de Isaac, a destruição de Sodoma ou a vida de Job, por exemplo. Todos eles revelam que “Deus não é de fiar”, diz. E, sobre a necessidade ou não da exegese, Saramago diz que tem que “interpretar a letra” do texto – um processo que, na interpretação bíblica, é chamado de literalista.

Mesmo assim, Saramago sente-se espicaçado pela Bíblia no seu trabalho de escritor – este texto faz parte do seu património cultural, ao contrário do Alcorão, que não irá merecer a sua atenção literária. Mas mostrou algum agastamento quando uma jornalista lhe perguntou porque sentia essa necessidade de esmiuçar a Bíblia: “Não se ponha na posição da Igreja, de que não se toca na Bíblia.”

Há duas décadas, o escritor publicou O Evangelho Segundo Jesus Cristo e a temática religiosa está presente em vários trechos da sua obra.

Caim suscitou “incompreensões, resistência, ódios velhos”, diz. “Desperto muitos anticorpos em certas pessoas”, acrescenta, acusando várias vezes responsáveis da Igreja Católica (mas não protestantes ou judeus) de terem comentado o livro que ainda não leram – de facto, as pessoas foram instadas a comentar as declarações sobre a Bíblia, feitas por Saramago.

O prémio Nobel repetiu ainda várias afirmações: Deus e o demónio não estão no céu e no inferno, mas “na nossa cabeça”; Deus não fez nada durante a eternidade, depois criou o Universo e ao sétimo descansou e “não fez mais nada”. Reivindicou que pode escrever sobre Caim e citou por duas vezes Byron, que também o fez – mas não referiu o também Nobel John Steinbeck, que trata a personagem de Caim em A Leste do Paraíso.

Saramago ainda elogiou o padre José Tolentino Mendonça, “excelente poeta”, com quem gravou uma conversa e que já afirmara que a leitura da Bíblia feita em Caim é “simplista”.