É um pénis. É um canhão. É Anish Kapoor contra o império.

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Na primeira grande exposição de um artista vivo na Royal Academy de Londres, Anish Kapoor dispara 30 toneladas de cera, penetra cinco salas com um comboio vermelho, e deixa pilhas de excrementos. O Ípsilon esteve lá e falou com ele

O sexo é uma arma política. Nascido em Bombaim há 55 anos, Anish Kapoor está neste momento a bombardear as paredes da Royal Academy of Arts, em Londres, com um pénis gigante de onde saem oito quilos de cera vermelha a cada 20 minutos, "booooommmmm!", contra a parede.

Até 11 de Dezembro, quando a exposição terminar, terão sido ejaculadas 30 toneladas de cera.

E entretanto, uma grande massa também em cera vai penetrando lentamente cinco salas, para a frente e para trás, sem parar. A cada porta que atravessa, deixa bocados pastosos no mármore e no soalho.

Nunca, em 241 anos de vida, a Royal Academy tinha dado cinco salas a uma só obra, tal como nunca antes convidara um só artista.

Há algo de vingança pós-colonial nisto. O primeiro artista vivo com uma exposição na antiga sala de visitas do império é um filho das ex-colónias, e aproveita o convite para dar cabo do império.

De resto, entre críticos, curadores e inspiradores, todos aludem a falos, vulvas, vaginas, orifícios, penetrações, intestinos e matéria fecal.

E o resto será divertimento de feira, a fazer gato-sapato com a percepção que temos de nós próprios e do espaço.

Chamem-lhe "Anish Kapoor", é o nome próprio da exposição.

O chão no céu

Tudo começa ainda cá fora, no pátio, com um totem de 75 esferas prateadas que leva tudo para as nuvens, multiplicando o edifício da Royal Academy e o que se passa entre o chão e o céu.

Parecem balões de tão leves.

E mesmo nesta véspera de inauguração, com o pátio apenas cheio de jornalistas, são atraentes como um íman. Tal como boa parte da obra de Kapoor, dão vontade de experimentar. Está um céu de prata, a bandeira britânica esvoaça sobre o edifício, e as pessoas enfiam-se debaixo das esferas, às duas e três, queixo virado para cima.

Depois, entram na primeira sala e têm à sua frente uma gigantesca peça orgânica cor de ferrugem que alguém já descreveu como um submarino vitoriano. Parece saída de Júlio Verne, mas com uma boca, ou um estômago negro, oco. E é preciso contorná-la para continuar em qualquer direcção.

Na sala imediatamente à direita ergue-se o mais recente trabalho de Kapoor, montes em espiral, rectangulares, pontiagudos que parecem vermes, intestinos, excrementos ou pirâmides muito primitivas. É um mundo opaco, pesado, cinzento, por vezes ocre, de cimento.

E por cima o tecto imperial, com clarabóia e frisos dourados, arco em mármore na porta.

Na sala seguinte, enrosca-se uma espécie de cobra gigante em resina. No lugar da cabeça tem uma vulva de fibra de vidro, grandes lábios carmins entreabertos, brilhantes como líquido.

E depois, passando mais uma porta, surge a primeira visão da tal massa penetrante que anda para trás e para a frente, atravessando cinco salas com cinco portas alinhadas.

Kapoor, dado a nomes místicos, chamou-lhe "Svayambh", o que significa "auto-gerado" em sânscrito.

Lembra um vagão de comboio, daqueles cegos, sem janelas, como os que seguiam para Auschwitz. Desliza imperceptivelmente num longo carril. A cera carmim (uma mistura de cera, tinta e vaselina) cobre o carril, transborda para o chão e enche o rebordo das portas, uma, a uma.

"Leva uma hora e meia a ir e vir", confidencia o vigilante da sala, enquanto a massa avança na nossa direcção, lá de longe. "Todos os dias lhe vão pondo cera".

Para ver a massa mais perto é preciso dar a volta até uma das salas intermédias, onde Kapoor está a ser entrevistado por uma repórter indiana. De muito perto, a cera parece sorvete de framboesa.

Entretanto, na sala central, a maior de todas, repórteres de todo o mundo brincam diante das superfícies espelhadas, côncavas e convexas, que os fazem parecer achatados, esticados, gigantes, minúsculos, ou de pernas para o ar, e tudo isto enquanto continuam a tomar notas. É um jogo de feira popular mas polido, e com uma clarabóia de reis.

Segue-se uma das obras mais hipnóticas de Kapoor: uma parede amarelo-gema que ao centro afunda, como uma barriga para dentro. Quente, solar, centrípeta, puxa-nos para aquela espécie de vórtice.

E passando a porta, é a guerra - a sala do pénis-canhão.

As munições (cartuchos gigantes de cera) estão empilhadas do lado esquerdo. O canhão, com uma espécie de bolsas por baixo (os testículos, sugeriu um crítico), está ao centro. E ao fundo, a cera ejectada, a sujar chão e paredes, até ao tecto.

Então entra um homem todo vestido de preto, carrega uma munição, fecha o carregador, olha em frente e "booooommmmm!" Tudo treme, e os jornalistas dão um salto, acumulados por trás do canhão. Há risos nervosos. É brutal.

Na sala que se segue estão alguns dos trabalhos de Kapoor com pigmentos ultra-coloridos (vermelhos, amarelos, azuis da Índia). Uns parecem montanhas em miniatura, outros são como plantas a sair das paredes. E só depois de o visitante circular entre eles nota uma mancha estranha na parede, semelhante a algo desfocado, dissolvido. Há que olhar de lado para perceber: uma barriguinha redonda, como se a parede estivesse grávida.

Dano reversível

Daqui a pouco os curadores vão fazer uma visita guiada, e um deles, Adrian Locke, da Royal Academy, já vagueia entre a parede amarela e o canhão.

"É a primeira vez que fazemos algo semelhante", diz, a olhar para os montes de cera agarrados à parede. "Temos de ter a certeza de que nada é permanentemente danificado".

Demoraram cinco semanas a montar a exposição.

"Para nós é muito tempo. As paredes tiveram de ser reforçadas."

Mas o mais difícil nem foram as peças com cera. Foi a parede amarela com a barriga para dentro.

"Vem desmontada e é preciso refazê-la aqui, polindo tudo. Foram três semanas de trabalho contínuo."

"Booooommmmm!" Mais um tiro. Mais risos nervosos.

Chega o francês Jean de Loisy, o outro curador da exposição, com Anish Kapoor, e os três concentram-se junto à parede amarela. Filho de pai hindu e mãe judia do Iraque, educado em Londres desde os 19 anos, Kapoor parece cem por cento indiano, com um sotaque cem por cento inglês, ironia incluída.

"O que tenho a dizer está aqui", diz. "É uma grande honra, um dos mais belos espaços de exposição no mundo. O que se expõe é associado ao que se expôs aqui antes. Penso neste espaço não apenas como venerável mas como uma continuidade. E é tudo menos uma retrospectiva. Sinto que ainda tenho trabalho para fazer, e aqui quase tudo é novo, ou foi feito neste últimos sete ou oito anos"

Kapoor retira-se e os jornalistas seguem os curadores, que vão propôr alguns destaques.

Por exemplo, a barriga na parede branca.

"Mal se vê ao entrar", diz Jean de Loisy. "É a ausência de uma presença que se está a desenvolver."

Depois o canhão.

"Um terrível psico-drama."

Exibida antes em Viena, esta peça ("Shooting into the Corner") absorveu toda uma dimensão psicanalítica.

Adrian fala da incerteza do espectador, de não sabermos quando o canhão vai disparar ou quando chegará o comboio.

Jean de Loisy fala de tensão entre as peças, da ideia de penetração, e de "um jardim filosófico".

"Anish chama-lhes não-objectos. Não existem sem a nossa presença. Ele acredita que os artistas devem inventar um novo espaço e isto é um espaço de identidade entre a pele do objecto e a nossa."

E já estamos na sala onde o carril termina.

O comboio foi mostrado duas vezes, em Nantes (França) e Munique (Alemanha). "Em Nantes as memórias podem ter sido de carroças a carregar prisioneiros ao longo das ruas para as guilhotinas da Revolução Francesa"; sugere no catálogo Norman Rosenthal, da Royal Academy. Depois, em Munique, "na infame ‘Casa da Arte' que Hitler construiu para expor a pintura e escultura do Nacional Socialismo", esta peça evocava os comboios dos campos de concentração. E em Londres, "outrora o epicentro do Império Britânico, não podem ser evitadas reflexões sobre o sangue e o suor com os quais esse império foi construído, originalmente nas costas da escravatura".

"É um movimento inexorável que não presta atenção aos humanos", diz Jean de Loisy sobre este comboio. "E, tal como no movimento cósmico, há algo de trágico aqui, com um tempo inumano."

Finalmente, na sala dos montes de cimento, Adrian explica que todas estas formas foram programadas em computador e feitas por uma máquina.

"Foi um gesto muito arriscado de Anish incluir isto, criando um ambiente caótico, ambíguo, intrigante."

Não perguntem ao próprio, que ele diz que não sabe o que são. 

Os disparos da crítica

Kapoor será tudo menos um "outsider". É o próprio champanhe da arte britânica contemporânea. Desde os anos 70 que expõe nas mais importantes galerias, em 1990 representou o Reino Unido na Bienal de Veneza, em 1991 ganhou o Prémio Turner, e desde então tem marcado o espaço público com esculturas espectaculares de Chicago a Nova Iorque, da Noruega a Inglaterra, para além de todas as exposições individuais.

Os trabalhos que agora estão na Royal Academy não são exactamente uma retrospectiva porque se concentram nos últimos anos. Foram pouco vistos ou nunca, embora no conjunto assinalem etapas diferentes do trablho de Kapoor.

A crítica britânica não se tem ajoelhado. Bate numas coisas e tira o chapéu a outras.

Para Tom Lubbock, do "Independent", Kapoor "sempre esteve na fronteira do entretenimento, ainda que seja tentado por uma pretensão grandiosa". A sua obra tem "poderes como ilusionista", "inventou alguns truques ópticos muito originais" e "estes efeitos alucinatórios levaram muita gente a procurar uma espiritualidade", encorajada pelos títulos das peças.

Mas ultimamente, esta arte "tem sido atraída não apenas para a ilusão e simbolismo como para o grande espectáculo", e "o resultado é geralmente vaidade".

Lubbock achou que o "trabalho mais pateta" na exposição era o canhão e que o simbolismo sexual de Kapoor pode ser terrível (deu como exemplo a cobra-vulva, e nesse caso é impossível não estar de acordo: é terrível).

Quanto ao comboio: "Para algo tão estranho e grande, devia ser espantoso. Não é. É só estranho e grande. Um elefante carmim."

Mas, ressalvou, há algo nem grandioso nem malicioso, uma sala cheia de "castelos de areia cinzentos feitos de montes de matéria viscosa", encaracolados, como espremidos de uma bisnaga - "uma peça de escultura perfeitamente séria".

No "Sunday Times", Waldemar Januszczak disse que "isto é uma batalha tanto quanto uma retrospectiva": "Kapoor vs os espaços da Royal Academy."

Se o totem de esferas é só "espumoso" e "divertido", e, em peças como os espelhos deformantes, Kapoor sabe "que há um macaco em todos nós", a exposição torna-se progressivamente "mais escura, mais estranha, mais pesada, à medida que escava na nossa memória". Os pigmentos coloridos "assaltam os olhos com uma força que está mais próxima da violação que da persuasão". E, depois de explorar a nossa memória, o artista explora o nossos subconsciente.

O canhão a ejacular cera com um barulho "aterrador" é "uma peça fenomenal". Mas o maior pénis é o que atravessa as galerias. "O maior pénis do mundo estava a fornicar a Royal Academy. É uma escultura tão estranha quanto isso. É um espectáculo tão estranho quanto isto."

Já Jackie Wullschlager, do "Financial Times", viu a "ejaculação" do canhão como um sonho infantil. "À medida que o trabalho do artista se torna maior e mais grandioso, também se torna vazio e mais estéril." Para esta crítica, as pilhas de cimento são pretensiosas. O que se salva são as "curvilíneas e sensuais" esculturas-espelho, "instalação intensamente metafísica e desconcertante".

Finalmente, Adrian Searle, no "Guardian", considerou esta exposição "auto-crítica, divertida e desconfortável". Elegeu os montes de cimento como um regresso às origens, "o perfeito mito do escultor". Falou do comboio como um caminho intestinal, multiplicou as associações fecais e fálicas e defendeu  que aqui "há muito para pensar, tal como há muito de diversão gratuita, infantil". 

"Matem-nos!"

Concluída a visita feita pelos curadores, Kapoor volta à sala da parede amarela para conversar com alguns jornalistas.

Primeiro, o comboio.

"Estou interessado na relação entre o objecto e o espaço, na forma como o significado se liberta. Por isso digo que não tenho nada a dizer. O que fiz com o comboio é um processo e os significados mudam. Era uma coisa em Munique e é outra coisa aqui. Aqui é mais formal. Penso que aqui é melhor.

Depois, o canhão:

"Viena é o lugar de Freud, mas também de vários artistas."

O cimento é o regresso a algo arcaico?

"Não sei. Não sei para onde vou. Mas tem uma relação íntima com as peças coloridas."

E isto de dar cabo das paredes e do chão da Academia, logo ele que nasceu em Bombaim?

"No mundo da arte, neste país, as decisões são tomadas por razões artísticas. Claro que isto pode ser visto como uma provocação ao ‘establishment' simbolizado neste edifício. A política está lá mas não é o que escolho sublinhar."

De resto, diz, já não é um "cidadão indiano".

"Vivo neste país há  35 anos. As minhas influências estão no mundo da arte. A única questão  é: a arte é suficientemente boa?"

"Booooommmmm!" Outra vez saltos e risos nervosos.

"Céus!", diz o autor do canhão, a fingir que se arrepia.

Alguém lhe pergunta pelo uso da cor, como esta parede amarela, ou o vermelho da cera.

"Ficamos em frente de um trabalho e ele ocupa-nos. Quando a cor ocupa o nosso campo de visão pode tornar-se uma emoção."

Geralmente o que acontece depois é que os espectadores querem tocar-lhe.

"Matem-nos!", lança Kapoor, a sorrir. "Claro que o trabalho tem alguma atracção física e isso é importante. Quando estamos fisicamente envolvidos talvez os significados possam surgir."

E daqui para a frente?

"A minha obsessão é fazer arte sem as mãos, autónoma. O comboio é parte disso."

O Ípsilon viajou a convite do Turismo Britânico (www.visitbritain.pt) e da British Airlines (www.ba.com).