Crítica

Cacique 97

De entre os méritos de James Brown consta a influência que o homem mais trabalhador do negócio teve sobre o nigeriano Fela Kuti, que após vê-lo num espectáculo nos EUA quis, no regresso ao seu país, fazer música assim. Felizmente não se limitou a imitar: com a adição de um break de bateria específico criado por Tony Allen e uma tendência para o prolongamento das faixas para lá do que se julgava ser possível, Kuti criou o afro-beat. Este, por sua vez, tem assistido a um ressurgimento, muito por culpa da actividade constante de Allen.

E dos muitos géneros africanos revigorados recentemente, o afro-beat é o último a chegar a Portugal, pela mão dos Cacique 97, banda recheada dos suspeitos do costume: o líder é Milton Gulli, vocalista dos Cool Hipnoise, e a seu lado tem uma data de músicos do mesmo agrupamento. Mas o afro-beat, aqui, é ponto de partida para muitas viagens: está cá a batida Alleniana, quase omnipresente, estão os metais torrenciais, as linhas de baixo roliças e as guitarras picadas, tudo elementos que os Cacique doseiam com mestria impressionante, como é notório no funkzinho de "Jorge de Capadócia" (versão de Jorge Ben, que dá uma tremenda volta ao original), em "Eu quero tudo" ou em "Dragão". Mas a rede que os Cacique usam para pescar influências tem a malha grossa, e em vez do combo avassalador de suor e sexo que Fela Kuti propunha, o disco dos Cacique é uma salgalhada que inclui tiques jazz, declamações, órgãos cheio de cool, guitarras sacadinhas ao highlife do Gana, toda a coisa que faz mexer.

No seu melhor, os Cacique inventam um género ainda sem nome: em "13", cantada em inglês, há uma batida próxima a meio caminho entre o afro-beat e o hip-hop, órgãos lounge, batuque, guitarras wah-wah, criando um funk progressivo suavemente psicadélico, enquanto em "Sr Diplomata", guitarras highlife e um clavichord à Stevie Wonder preparam a teia para grande rapanço de Ikonoclasta (grande, grande rapper) e amigos: um terço rap, um terço Moçambique, um terço funk. Como se isto não bastasse, é um disco chio de detalhes, com um tremendo bom gosto na escolha de cada som de guitarra, de órgão, nos arranjos de metais. Muito bom.

Vídeo: "Eu Quero Tudo", Cacique 97