“Sempre senti que o processo Polanski era como um filme de Roman Polanski”

Marina Zenovich
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Marina Zenovich

É este o Polanski de Marina Zenovich: tocado pelo Mal. Em Cracóvia, em Los Angeles, em Zurique. O túnel sempre ao fundo da luz. "Sempre senti que o processo Polanski era como um filme de Roman Polanski", diz a realizadora ao Ípsilon

Imagens lá para o fim de "Roman Polanski: Procurado e Desejado": uma entrevista feita pelo apresentador de TV Clive James ao cineasta, em 1984, em que conversam à mesa de um restaurante sobre a predilecção de Polanski por "raparigas jovens". O entrevistado acaba a interpelar o entrevistador: quer mesmo continuar a insistir nesse assunto - raparigas jovens -,não há mais nada na sua vida que lhe interesse, a ele, entrevistador...?

"E há de facto mais na vida de Polanski do que esse assunto", atira a realizadora Marina Zenovich.

Tínhamos-lhe feito notar (ao telefone, ela está em Paris), que o seu documentário não questiona o comportamento de Polanski, a (i)moralidade dos seus actos, concentra-se, antes, no processo judicial, na forma como a suposta manipulação de um juiz, Laurence Rittenband, terá justificado a fuga do realizador mais célebre do seu tempo (o único, alguém disse, que faria parar o tráfego na 5ª Avenida) de Los Angeles para Paris.

O excerto da entrevista feita pelo australiano Clive James é um sinal da realizadora sobre o lugar onde se quer colocar. Quer dizer: ela simpatiza com Polanski. (Mas também está com Samantha Gailey, a vítima; considera que ambos "já sofreram o suficiente" no processo e isso deveria, na sua opinião, levar o Promotor Público a arquivar o caso - "infelizmente", remata, o facto de Samantha ter perdoado ao agressor não basta).

Mas Marina quer mais: quer que o espectador se sinta, de alguma forma, atingido pela observação de Polanski ("quero perguntar-lhe se existe alguma coisa mais na minha vida para além das mulheres jovens...", dz Polanski a Clive James, com ironia, até com um seco sarcasmo, quando os caracóis chegaram à mesa de um almoço que se tornava quase jantar). É um sinal da realizadora às "muitas pessoas que parecem ter muitas opiniões seguras sobre o assunto e na verdade não sabem o que se passou."

"Era importante contar o que aconteceu [no processo]. Quando o meu filme foi tornado público, o ano passado, toda a gente ficou à espera que o caso fosse arquivado. De repente acontece isto [a prisão na Suíça]. Não consigo explicar. Estou na Europa a tentar perceber o que é que aconteceu. Ele [Polanski] foi para a prisão em Chino [hospital-prisão], sujeitou-se a testes psiquiátricos [que concluiram que não era predador sexual, recomendando-se a liberdade condicional] mas a meio do processo um juiz mudou de opinião, pressionado pela imprensa... Sim, há mais na vida das pessoas do que apenas um acontecimento - por mais horrível que ele seja".O túnel ao fundo da luzMarina assume-se como documentarista, não jornalista. Trabalhou com material de arquivo, entrevistou algumas das "personagens" principais do caso - e Polanski? "Mandei-lhe um ‘fax' a pedir uma entrevista, nunca tive resposta, embora tenha tido mais tarde a garantia de que me respondeu, só que nunca recebi a resposta". Mas quis ir ao encontro "de um certo lirismo" ao contar esta história. É o que responde quando lhe perguntamos porque é que também utiliza "clips" de filmes do realizador, concretamente "A Semente do Diabo" (1968), "Chinatown" (1974), "O Inquilino" (1976) ou a curta "Le Gros et Le Maigre" (1961) em que Polanski aparece como bobo/escravo obrigado a dançar ao som da música do seu amo... Foi uma pergunta retórica: é óbvio que Marina quer fazer uma aproximação à personagem-Polanski e quer dizer-nos o que pensa do processo judicial.

"Descobrir essa curta ["Le Gros et le Maigre"] foi o momento Eureka para mim. Polanski [interpreta uma personagem que] é obrigado a dançar por alguém mais velho que achámos parecido com o juiz [Laurence Rittenband]. Se repararem, vê-se Paris em fundo, Paris, a cidade onde Polanski nasceu, a cidade para onde fugiu e onde refez a sua vida. Sempre senti que o processo Polanski era como um filme de Roman Polanski realizado pelo juiz. Agora parece um filme de Roman Polanski realizado pela Suíça".

Pesadelo "kafkiano": é o ponto de vista do documentário, tal como na vida do inquilino Trelkovski (Polanski em "O Inquilino"), o imigrante polaco que alugou um apartamento em Paris, cuja anterior inquilina se atirara janela abaixo, e que mergulha na sua loucura de estrangeiro. (Foi Polanski que um dia disse, e citamos uma biografia escrita por Christopher Sandford, "em Paris, lembram-nos sempre que somos estrangeiros"). Ou seja: Polanski como o irremediável "alien", condição para onde o atirou a infância no gueto de Cracóvia, a sobrevivência, a culpa.

E lá vem "Chinatown", o filme para o qual Polanski reescreveu a cena final que Robert Towne escrevera, porque queria convocar a "tragédia necessária" para a personagem de Faye Dunaway em vez do "happy end". O que levou Towne a caracterizar a visão existencial do realizador como um "túnel ao fundo da luz", acrescentando: "Para Roman a vida era assim - as loiras bonitas acabam por morrer em LA. É o que tinha acontecido a Sharon [Tate] anos antes".

E foi de propósito que em "Chinatown" Polanski se filmou - é o pedaço que Marina escolheu - vestido de branco, faca em riste a cortar a narina de Jack Nicholson. Roman mostrou-se assim para desafiar os que viam no "anão polaco" uma figura do demo, quiçá até ligado ao assassínio da mulher, com quem teria participado em sessões de magia negra, de quem tinha bebido o sangue, a quem... etc, etc. Como um esgar de um pessimista, do seu sentimento de culpa, da convicção de que qualquer experiência feliz tem um preço...

É este o Polanski de Marina: tocado pelo Mal. Cracóvia, Los Angeles, Zurique. O túnel, sempre ao fundo da luz. Ou como alguém diz a Jack Nicholson, no final de "Chinatown". "Forget it Jake, it's Chinatown".