A minha dor de corno é melhor que a tua

"The First Days of Spring" tem sido recebido em glória um pouco por todo o lado
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"The First Days of Spring" tem sido recebido em glória um pouco por todo o lado

"The First Days of Spring" é obra sinfónica e despedaçada sobre o fim de um amor: o do compositor e vocalista Charlie Fink com a ex-membro dos Noah and The Whale Laura Marning. É um dos grandes discos de dor de corno dos últimos dez anos

Algures no ano passado uma revista perguntou a Charlie Fink, vocalista e principal compositor dos Noah and The Whale, o que ele achava do disco a solo de Laura Marling. Laura era, na altura, um dos elementos da banda, embora começasse a só estar presente concerto sim concerto não. Fink respondeu: "Acho que é brilhante. Mas também, foi eu quem o produziu".

A entrevista, à revista online Noise Makes Enemies, seguia com o jornalista a perguntar se ela continuaria a fazer parte da banda. Resposta de Charlie: "Espero que sim. Se tudo correr bem, quando começarmos a fazer o segundo disco ela vai aparecer e juntar-se a nós".
Aqui vem a ironia: "Alas, I Cannot Swim" (2008), o disco de Laura, acabou nomeado para um Mercury Prize, o que a tornou bem mais conhecida que os Noah and the Whale - que então abandonou, não estando, portanto, presente na feitura do segundo disco da banda. Mas Laura não se limitou a largar o barco: pelo caminho também deixou de partilhar a vida com o comandante, Charlie Fink.

Esta é a segunda ironia: mais de um ano depois a história tornou-se pública, graças a "The First Days of Spring", o mencionado segundo disco dos Noah.
Há duas razões para se falar tanto da ruptura entre Fink e Marling: a primeira é que "The First Days of Spring", não sendo "o melhor disco de dor de corno desde ‘Sea Change' de Beck", como afirmou o crítico João Lisboa do "Expresso", é ainda melhor: luxuosamente orquestrado por cordas e os ocasionais metais, servido por uma voz que coloca a precisa dose de melancolia em cada sílaba, é um cruzamento entre "The Gospel of Progress", de Micah P. Hinson, e "The Opiates", dos Anywhen. É um disco magnífico.
A segunda razão para se falar tanto da ruptura entre Marling e Fink é simples: de acordo com a imprensa - e com o que o homem canta desesperadamente ao longo do disco - o assunto do segundo álbum dos Noah é só um: Laura.

Discrição vs. honestidade

Ou nem tanto. Ao telefone do autocarro em que a banda seguia para um concerto em Cambridge (Reino Unido), Fink, sem se exaltar e de forma educada, não nega que as canções se reportem a ele e Laura, mas vê certo exagero nas leituras que se fazem a partir do disco.
"A imprensa tem escrito muito sobre isso, mas o que se escreve é a partir de especulação. Porque eu nunca falei sobre o assunto".

Para Fink, um interlocutor não só interessante como interessado, a questão da autobiografia, tanto no seu trabalho como no de qualquer outro cançonetista, não é óbvia: "A minha liberdade enquanto compositor é fazer o que quero com a minha vida ou a dos outros - e não me vou negar esse poder", diz, sem que, ao contrário do que as palavras escritas possam dar a parecer, haja qualquer resquício de assertividade no timbre da voz. Mais parecia que Fink estava a pensar alto do que a proclamar um libelo artístico.

Ainda assim admite que, sendo "uma pessoa muito resguardada em relação à [sua] vida privada", sente que há em si "uma batalha privada" entre manter-se "discreto e fazer arte honesta". Porque Fink sente "culpa" se lhe cheirar que a sua arte não está a ser honesta.
Homem que não gosta de soluções fáceis, prontamente se apressa a complexificar a equação: "É difícil dizer como isto funciona, porque na arte estamos sempre a projectar-nos, quer seja no nosso trabalho quer seja no dos outros. Mesmo que a história de uma canção seja verdadeira eu posso estar a projectar-me noutra personagem, noutro modo de olhar a história; mesmo que ouça uma canção estrangeira cujo sentido não percebo, projecto na canção o que acho que está ali".

Em favor das dúvidas de Fink em relação à exposição pública, diga-se que "The First Days of Spring", por muitas declarações de arrependimento ou culpa que faça ou por mais portas abertas que deixe ao regresso do ente amado, não é uma narrativa comum em que cada canção narra parte da ruptura de um casal - como, por exemplo, "Blood on the Tracks", de Bob Dylan, era.

Façamos um pequeno à parte, a título contextualizador: se mencionamos Dylan é porque este e os Smiths constituem bandeiras para os Noah and the Whale. Há que tomar em atenção que o nome da banda é inspirado no filme de Noah Baumbach, "The Squid and the Whale". A graça do nome está num pormenor: "The Squid and the Whale" era a história da disrupção de um casal, e o seu efeito nos dois filhos. Ora, o filme era autobiográfico, embora Baumbach tenha tomado certas liberdades, em particular com a personagem do irmão. A graça disto é que, se pensarmos na forma com Dylan e os Smiths construíram o seu universo, vemos que há uma tensão entre extrema reserva e extrema exposição, entre criar uma personagem protectora que no fundo conta factos reais - é isso que o nome Noah and the Whale representa: a tensão entre o criador e a obra.
Isto permite-nos perceber que a ideia de narrativa pessoalizada é importante para Fink, mesmo que ele diga que "o nome da banda é daquelas coisas: escolhemo-lo numa determinada altura, com um significado, e depois mudamos, a banda muda, e o nome deixa de ter algum significado em especial".

Uma história universal

No entanto, a narrativa de "The First Days of Spring" tem. "Não há uma história no sentido de cada canção ser um capítulo e o disco ser um livro", explica, "mas há sem dúvida um sentimento geral que une aquela personagem masculina que fala de uma mulher ausente". Há "uma espécie de conceito".
Esse conceito pode ser visto como todas as reacções possíveis que um homem (e possivelmente uma mulher - dizemos isto à cautela, tendo em conta que nunca fomos uma) tem no momento de uma ruptura: o não querer sair da cama, o achar que (traduzindo em paráfrase) fodeu a vida e (citando do disco) "toda a gente tem o direito de foder uma vez a vida", o ir para a cama com uma desconhecida e depois ficar a olhar para o tecto a pensar "O que raio estou a fazer aqui?", a raiva, a culpa, etc.
Fink tem receio de afirmar "que o disco tenha toda essa abrangência emocional", mas ela está lá, nas letras. Ele prefere ser mais prosaico: "é uma simples história, que toda a gente conhece ou pode conhecer, com as suas múltiplas variações".

Em certa medida é essa a força e a pecha do disco. É uma história com que qualquer ser humano se pode relacionar, mas, apesar de meia-dúzia de frases inspiradas, falta um pouco mais de verve: há uma nítida preocupação em tornar as palavras o mais acessíveis possível.
"Quando se está numa banda", admite Fink, "queremos ser ouvidos pelo maior número de pessoas. A ideia é tornar a história universal".
Mas o que torna de facto a história comunicável é o exímio uso das orquestrações e dos sopros e dos metais, que, canção a canção, criam o ambiente de exacta melancolia antes da explosão.

Fink diz que quando o grupo entrou em estúdio sabia "até ao mínimo pormenor" o que queria do disco. "Os arranjos foram escritos no estúdio, em três semanas, de resto estava tudo escrito, tudo programado e podíamos pôr tudo o que quiséssemos".
Mas não atribui demasiado mérito aos arranjos: "Uma canção tem de ser capaz de se aguentar com guitarra e voz. O arranjo tem de trazer mais alguma coisa, não pode servir para disfarçar as falhas da canção".
Demorou "seis meses a escrever o disco", o que admite ser "um intervalo de tempo bastante alargado" na pop. Culpa pela lentidão uma espécie de "confusão sobre como a criatividade funciona" que o assola de tempos a tempos: "Costumava achar que devia esperar que a criatividade aparecesse. Mas depois comecei a achar que devia persegui-la com um pau", diz, parafraseando Jack London.

Portanto, pôs-se a trabalhar arduamente, de modo que "tudo o que entrasse no disco tivesse uma razão para entrar", de modo a "ser tudo muito preciso, sólido e directo". O tipo que em disco soa esmagado por um peso insuportável apercebeu-se, durante a escrita, "do potencial das canções" e "não quis desperdiçá-las desse por onde desse". Deu por si a ser "um bocadinho obsessivo".
Terceira e final ironia: "The First Days of Spring" tem sido recebido em glória e Fink habilita-se a ser tão ou mais reconhecido que Laura. Pacientes de dor de corno deste mundo, uni-vos e nada temais: a obsessão compensa.