Crítica

A vida, num só dia

Menos um filme que conta a história de uma família, "Andando" deixa-se habitar pelos fantasmas de uma família

Uma sinopse de "Andando", como seria? A história de....? Uma hipótese: é um dia de Verão na vida de uma família de Yokohama, no Japão. É um dia especial porque essa família homenageia - não de forma silenciosa; de forma surda... - o desaparecimento, anos antes, do filho mais velho. Morreu na praia quando tentava salvar alguém de afogamento. A casa é a dos pais, idosos, e é ali que chegam, de comboio, o filho mais novo com a nova família (a mulher, viúva de um anterior casamento, e o filho dela), a irmã e o marido.


Rituais da comida - e das escovas de dentes.

Silêncios, censuras, ressentimentos, embaraços, falhanço - em doses diferentes para cada um: o filho mais novo, por exemplo, não aguenta as comparações, a expectativa falhada dos pais pela morte do primogénito; já a irmã autonomizou-se emocionalmente do trauma familiar (será a sua forma positiva de alienação?)

E às tantas uma borboleta entra dentro de casa, e por momentos a tensão explode... é o filho morto...?Não adianta continuar por aqui... "Andando", de Hirokazu Kore-eda (o realizador de "Ninguém Sabe"), não se deixa conter nesta sinopse. Nem nesta nem em outra, este filme nunca será "a história de..". Talvez possamos dizer desta forma: "Andando" não é um filme que conta, é um filme que se deixa habitar. É um filme onde todos têm medo daquilo que neles é marca, sinal, da presença dos outros - quer estejam mortos, quer estejam vivos, os outros são sempre os fantasmas em nós, e isso mete medo, diz alguém em "Andando".

Filme de um só espaço e de um só dia, "Andando" é, pois, receptáculo para todas as ocupações - se olharmos para os actores, então, vemos neles menos uma relação, ainda que minimal que seja, com um formato pré-estabelecido, a personagem, do que uma disponibilidade aberta, como se eles fossem um veículo para a ocupação...

Fantasmas, então. Do presente, do passado e do futuro. É que "Andando" (e por isso as sinopses correm o risco de não conterem nelas este filme) nem sequer é "um dia na vida de" uma família. É mais "toda a vida num dia de" uma família. A "mise-en-scène" de Kore-eda, cineasta formado pelo documentário, consegue uma coisa prodigiosa, e prodigiosamente tão discreta como a aragem de Verão, ou não fosse ele um cineasta japonês: filmar o tempo em expansão. Àquela casa em Yokohama, naquele dia de Verão, ocorrem o passado, o presente e o futuro de uma família. É toda a vida num só dia.

Dessa possibilidade dos planos estarem ocupados por outros, terem as marcas e a respiração de outro(s) tempo(s), serem capazes de anunciar, por exemplo, o futuro, veja-se a sequência em que os velhos pais sobem as escadas... E a propósito: falando em fantasmas, temos de identificar no cinema de Kore-eda as "presenças" de Ozu e Mikio Naruse - referências que Kore-eda assume tão frontalmente, que até chegou, durante uma entrevista, a explicar, desenhando num papel, o que é o quê, ou de quem é o quê, nos planos de "Andando" - mas também do taiwanês Hou Hsiao-Hsien.

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