Charles Lloyd, em grande

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Charles Lloyd dr

A noite de domingo, último dia do Festival Internacional de Jazz de Angra do Heroísmo, irá ficar decerto na memória de muitos dos que tiveram a oportunidade de testemunhar o extraordinário concerto do Charles Lloyd New Quartet. Embora já tenha visto diversos concertos do saxofonista, este foi certamente aquele que mais me impressionou, pela entrega, imaginação e energia de todo o grupo, durante quase duas horas. Jason Moran, no piano, esteve mais descontraído do que em ocasiões anteriores, improvisando com uma intensidade e elegância únicas, num estilo impressionista que fez um perfeito contraponto à abordagem mais linear de Lloyd. Nasheet Waits mostrou porque é considerado por muitos o maior baterista da sua geração, e formou com Reuben Rogers uma secção rítmica poderosa, subtil quando necessário, explosiva por vezes, mas sempre relevante. Lloyd, 71 anos, exibiu toda a categoria que lhe é reconhecida, funcionando como catalisador do grupo, com improvisações incendiárias. Música com a estrutura e sentido do jazz mais clássico, bem como a urgência e intensidade do jazz mais livre.

No concerto de abertura, a Orquestra AngraJazz mostrou uma evolução notável ao nível da coesão orquestral, interpretando com assinalável desenvoltura um repertório exigente composto exclusivamente por composições de Miles Davis. Um desempenho cuja responsabilidade cabe igualmente à excelente condução de Pedro Moreira - e aos seus solos no sax tenor -, Claus Nymark no trombone e Hugo Alves no trompete. Fica por concretizar um maior envolvimento dos músicos locais na componente improvisada da música, factor crucial para um eficaz desenvolvimento do jazz na ilha.

Na segunda parte, a escolha do quarteto de Jane Monheit revelou-se um verdadeiro erro de casting. Os músicos que a acompanhavam eram fracos, particularmente o pianista, e a abordagem da cantora bem mais característica do ambiente de um bar de hotel. No segundo dia, foi com grande prazer que vimos subir ao palco, integrado no quarteto de Mário Laginha, o guitarrista Sérgio Pelágio, nome incontornável do jazz nacional dos anos 80 que regressou às actividades jazzísticas após alguns anos dedicados ao teatro e à dança. Mário Laginha, Bernardo Moreira e Alexandre Frazão tocaram com a habitual segurança e excelência instrumental que lhes é característica, tendo, no entanto, revelado algumas fragilidades na dinâmica de grupo. Fragilidades a que não será estranha a adaptação de Pelágio ao lugar que é habitualmente de André Fernandes. O guitarrista entrou com força, construindo uma imaginativa e bem pessoal improvisação, logo no primeiro tema do concerto, tendo posteriormente revelado alguma repetição de ideias musicais.

Seguiu-se aquele que foi outro dos momentos altos do festival, a actuação do projecto Strada de Henri Texier, num concerto que revelou o seu invulgar talento para arranjar e sequenciar os temas. Os músicos, com destaque para François Corneloup no sax barítono e Manu Codjia na guitarra, estiveram em grande nível, realizando improvisações impactantes e interpretando os arranjos com naturalidade. Apenas o baterista, Cristophe Marguet, pareceu um pouco rígido no início. Texier, vibrante no contrabaixo, revelou a sua enorme classe, conduzindo a música como se de um filme se tratasse.

No domingo, a anteceder a estrondosa actuação de Charles Lloyd, apresentou-se o trio de Chano Dominguez, músico de grande autenticidade mas cuja ligação ao jazz se revelou demasiado frágil. Interpretou uma música de cariz ligeiro, procurando fundir os universos do flamenco e do jazz, mas demasiado melancólica e fechada. Destacou-se uma belíssima balada,Alma de Mujer, evocadora do mais profundo espírito do Tango.

Rodrigo Amado