Crítica

Um acto moral

A instalação de João Sousa Cardoso no A Certain Lack of Coherence, no Porto, é uma meditação acerca do corpo plebeu

É com Caravaggio, em finais do século XVI, que o corpo plebeu entra definitivamente na história da pintura. Os ecos desse gesto nunca mais deixaram de se fazer sentir, tornando irreversível a presença dessa carnalidade no campo da cultura. Obras tão distintas como as de Pasolini e de Warhol, as de Costa e de Tillmans, podem ser lidas a partir desse instante em que a arte se tornou, de facto, participada pelo povo, então travestido numa qualquer personagem religiosa, hoje protagonista dos seus próprios instantes de fama, sobretudo associados à mediatização da sua imagem.

A exposição "Os Republicanos", de João Sousa Cardoso (Vila Nova de Famalicão, 1977), constitui uma meditação acerca desse corpo plebeu, colocando em evidência, através do uso de fotocópias a preto-e-branco instaladas nas paredes com recurso a fita-cola castanha, diferentes formas da sua manifestação, sejam elas políticas, históricas ou artísticas. A mostra forma um díptico com "A Terceira República", apresentada, em 2007, num outro espaço gerido por artistas, o Mad Woman in The Attic. Tal como nessa ocasião, a proposta actual pode ser lida a partir de um procedimento cinematográfico, o "travelling", esse acto moral de que falava Jacques Rivette a propósito de um plano de "Kapo", de Gilles Pontecorvo - este problema é também central na obra de Jean-Luc Godard.

A viagem proposta por João Sousa Cardoso através das salas do A Certain Lack of Coherence, numa proposta integrada num programa expositivo delineado por José Maia, é banhada numa intensa luz vermelha, que sublinha a tensão, ou o frágil equilíbrio, entre a libido e o terror, figuras limites de uma exposição onde o desejo se confronta com a morte - veja-se, por exemplo, a imagem do participado funeral do regicida Manuel Buíça, que, a 28 de Janeiro de 1908, quatro dias antes de ter assassinado D. Carlos I, escrevia uma carta-testamento na qual pedia que, caso fosse morto, educassem os seus filhos "nos princípios da liberdade, igualdade e fraternidade" com os quais comungava.

A exposição abre com duas imagens de grandes dimensões, numa espécie de campo/contra-campo, na qual se observam, numa, o corpo de Mussolini, morto e pendurado no Piazzale Loreto, em Milão, e, na parede oposta, um instantâneo tirado durante a rodagem de "Trás-os-Montes", de Margarida Cordeiro e António Reis - nela, observa-se o director de fotografia Acácio de Almeida a realizar um "travelling" em cima de uma bicicleta. Na mesma sala é ainda visível uma fotocópia da pintura "São João Baptista"(1599-1600), de Caravaggio. A queda do fascismo, a reinvenção do cinema, o pós-revolução de Abril, a entrada do corpo plebeu, republicano, no território da arte constituem possíveis pontos de partida para uma mostra que atravessa as diferentes salas do A Certain Lack of Coherence numa montagem inspirada quer nos baixos-relevos dos frisos jónicos e coríntios - as histórias neles contadas podem ser vistas como uma espécie de proto-cinema -, quer no "Mnemosyne-Atlas", concebido por Aby Warburg entre 1924 e 1929.

A sucessão de imagens culmina no primeiro andar do espaço expositivo - limpo e aberto ao público pela primeira vez nesta ocasião -, transformado numa espécie de receptáculo do inconsciente nacional. Esse contínuo de fotocópias, que muitas vezes se sobrepõem, provoca uma tensão quer durante o acto de olhar - há uma clara dificuldade em encontrar um ponto de focagem -, quer no momento de assimilação dos conteúdos, agora homogeneizados pela sua partilha de um lugar comum. Uma mesma fotografia pode também suscitar diferentes graus de leitura, como aquela em que se observa Marilyn de roupão, um momento essencial do filme "Os Inadaptados" (1961), de John Huston, no qual se aborda o tema da liberdade. Há ainda uma forte presença das mulheres na mostra, como se o artista apontasse um possível e desejado devir: Maria de Lourdes Pintasilgo, Adelaide Ferreira, Ana Deus, Hannah Arendt, Judith Butler. Um corpo feminino, filosófico e político, esse contrapondo ao mundo dos homens; uma oposição celebrada por Natália Correia em poema dedicado a Cicciolona, depois da visita desta ao hemiciclo português: "Estava o Parlamento em tédio morno/ Do Processo Penal a lei moendo/ Quando carnal a deputada porno/ Entra em S. Bento. Horror! Caso tremendo!"