Good morning, this is Karlheinz Stockhausen!

Stockhausen ficou fascinado com os DJs que faziam misturas com os discos de vinil. Convidou uns quantos para irem a sua casa. Dizia, encantado: “não há nada assim na tradição erudita ocidental, a sonoridade é única”
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Stockhausen ficou fascinado com os DJs que faziam misturas com os discos de vinil. Convidou uns quantos para irem a sua casa. Dizia, encantado: “não há nada assim na tradição erudita ocidental, a sonoridade é única”

Num dia de Natal um português recebeu um telefonema: "Good morning, this is Karlheinz Stockhausen!" Pedro Amaral recorda a personalidade de um gigante do século XX. A Gulbenkian dá a ouvir peças do ciclo "Klang", última obra do alemão

Depois de concluir o monumental ciclo "Licht" (Luz) em 2004, com as suas sete óperas dedicadas aos dias da semana, Stockhausen iniciou o ciclo "Klang" (palavra que designa som, mas à qual se liga a ideia de timbre) dedicado às 24 horas do dia, que ficaria incompleto devido à sua morte em Dezembro de 2007. A Fundação Gulbenkian foi responsável pela encomenda da 6.ª hora, intitulada "Schönheit" (Beleza), que terá a sua estréia mundial em Lisboa no dia 5 no âmbito de uma série de concertos dedicados ao compositor, onde se incluem também algumas das restantes Horas em primeira audição em Portugal. Esta ocasião única para mergulhar no sempre surpreendente mundo criativo e inesperado de Stockhausen será acompanhada por alguns filmes e por uma conferência pelo compositor e maestro Pedro Amaral (dia 5, às 18h), que tem dedicado parte dos seus trabalhos teóricos à obra de Stockhausen e que o conheceu de perto na qualidade de assistente na edição da partitura de "Momente".

Pedro Amaral (n. 1972) já  não se recorda bem da primeira vez que ouviu música de Stockhausen, mas ela fez parte da sua vida desde muito cedo. "Aos 15 ou 16 anos comecei a dar aulas de iniciação musical - ainda estava no liceu mas isso ajudava-me a ter uma espécie de semanada - e nessa altura costumava levar música das óperas de Stockhausen para as aulas e fazia com as crianças uma espécie de dramatização", contou ao Ípsilon. "A reacção das crianças era fantástica, elas são muito mais abertas, pois não têm preconceitos e ainda não têm a audição formatada."

A música do compositor alemão depressa invadiu também os programas de Pedro Amaral na RDP - Antena 2 e viria a tornar-se objecto dos seus trabalhos de investigação e análise no mestrado e num doutoramento, que dedicou a duas obras maiores: respectivamente, "Gruppen" e  "Momente".
Curiosamente, essa escolha foi feita mais por oposição do que por afinidade no modo de encarar o acto criativo: "Fui aluno de Emmanuel Nunes no Conservatório Superior de Paris, que por sua vez tinha sido aluno do Stockhausen. Uma grande parte da técnica do Nunes provém do Stockhausen, mas acabei por construir a minha técnica por oposição à do Nunes, como um filho cuja personalidade se vai fazendo por oposição à dos pais. Se a minha maneira de trabalhar fosse mais próxima do Stockhausen teria feito a tese sobre o Boulez!", diz.

Mas quais são as grandes diferenças entre estes dois gigantes do século XX? "Stockhausen partia sempre de uma postura extremamente racionalizada. Tal como um arquitecto, descrevia a obra inteiramente antes de começar a compor e descrevia-a como se se tratasse de uma entidade divina. Era uma visão quase demiúrgica. O mais fascinante é que usava sempre um esquema diferente. Eram normas muito impositivos mas ele tinha a capacidade de encontrar uma liberdade espantosa dentro desse colete de forças."

A abordagem de Boulez é um bocadinho a antítese pois não usa propriamente um esquema mas sim um conjunto de materiais, acordes e entidades rítmicas. "A partir daí vai construindo, vai tecendo a sua obra como uma tapete", explica Pedro Amaral. A relação com a história também é diferente para os dois compositores pois Boulez "sempre viu a sua obra como uma continuação perfeitamente lógica da genealogia histórica", enquanto Stockhausen parecia não ter a história em conta. "Ele que no fim dos anos 40 admirava Hindemith e Frank Martin chegou rapidamente a um ponto, no final dos anos 50, em que estava completamente sozinho, no sentido em que era uma voz única. Olhava para cada projecto novo com uma atitude quase infantil, como se fosse a primeira vez que estava a compor."

Arguto e infantil

Stockhausen manteve essa atitude até ao fim, incluindo o ciclo "Klang", do qual poderemos ouvir seis peças na Gulbenkian entre os dias 3 e 5. "Além de serem projectos completamente originais ele explorava exaustivamente em cada peça as técnicas que criava, mesmo  que existisse uma família de material constante." Pedro Amaral refere que, por exemplo, a peça para duas harpas - "uma obra fabulosa" - tem um tipo de técnica e de sonoridade muito diferente da peça de percussão ou da peça para órgão, onde existe uma velocidade diferente para a mão direita e para a mão esquerda do organista. "Ele reinventava-se constantemente. O que permanecia era o gesto composicional, essa dualidade entre o circunscrever racionalmente um território e depois ser completamente aventuroso na maneira de o percorrer"
Stockhausen morreu antes de terminar o ciclo "Klang", mas teria deixado instruções para deduzir algumas das peças que faltam a partir das que deixou inteiramente compostas, sobretudo a partir das diferentes camadas rítmicas e de acumulação polifónica de "Cosmic Pulses" e do Trio para clarinete, flauta e trompete.

Pedro Amaral conta que o próprio compositor lhe chegou a mostrar o manuscrito de "Schönheit", a peça encomendada pela Gulbenkian. "Inicialmente era uma peça para clarinete solo, mas depois decidiu convertê-la em trio. E dizia-me: ‘ao retrabalhar o texto original encontrei uma maneira de fazer loopings como nunca fiz na vida'. Estava fascinado como uma criança! Ele tinha esse inverosímil equilíbrio entre uma inteligência arguta e uma candura infantil."

O primeiro encontro pessoal com Stockhausen ocorreu em Amesterdão num seminário com Peter Eotvos com quem Pedro Amaral estudou direcção de orquestra. "Conversámos um bocadinho e ele falou-me dos seus projectos, acabámos por permanecer em contacto e começámos a trocar correspondência. Mais tarde, quando estava a fazer a minha tese de doutoramento, ele abriu-me gentilmente o seu arquivo. Ele escrevia muito, tenho várias cartas manuscritas."

Num dia de Natal, em 2003 ou 2004, o português recebeu um telefonema: "Good morning, this is Karlheinz Stockhausen!" Foi uma surpresa pois além de dos votos de bom Natal, Stockhausen convidou Pedro Amaral a trabalhar com ele. "Na altura era complicado porque eu tinha recebido um prémio de composição e ía passar um ano em Itália, mas ele esperou".
A proposta era a edição de "Momente". "Esta portentosa obra aberta dos anos 60 devia ter sido editada pela Universal, mas como o tipo de fomato da partitura coloca problemas tremendos a editora acabou por a devolver", conta Pedro Amaral. "São páginas A2 onde há aquilo a que Stockhausen chamava fendas. Nestas deveriam ser introduzidas pelo intérprete partes que aparecem noutras folhas da partitura. O meu trabalho foi ler os manuscritos todos, e eram muitos, centenas!, assimilar tudo o que nas várias versões tinha sido alterado e depois editar uma versão que foi a realizada em 1972 e a mesma que foi gravada em disco."

Pedro Amaral recorda que Stockhausen considerava "Momente" a sua obra máxima. "Dormia com o manuscrito numa gaveta debaixo da cama e não queria morrer sem ver a edição terminada. De facto ele recebeu a partitura que nós fizemos no dia em que faleceu. É curioso porque se fecha um ciclo. O meu professor, Emmanuel Nunes foi aluno de Stockhausen quando ele estava a compor os ‘Momente' e eu fechei o ciclo com a concretização da edição." 

Durante o trabalho, Pedro Amaral instalou-se algum tempo em Kürten, numa das casas do compositor e a relação sempre foi de cordialidade. "Muitas vezes telefonava-me extravagantemente às 7h30 ou 8h da manhã. Recordo que um dia estava em sobressalto porque descobriu que um harpista não consegue tocar com as duas mãos na oitava mais grave da harpa - uma das mãos não chega lá porque a harpa fica ligeiramente de lado  - e dizia: ‘tenho 77 anos, passei a minha vida a compor e ignorava completamente isto, não vem em nenhum tratado!' Mas depois acrescentou com uma calma admirável: ‘Ainda bem que e aconteceu, com esta idade continuo a aprender."

Stockhausen marcou profundamente a atitude de uma época. "Nos anos 50 era o grande senhor da tecnologia. Essa dimensão de descobridor e de aventureiro valeu-lhe a fama mundial e converteu-o numa referencia absoluta mesmo em meios como os da música pop. Berio orquestrou canções do John Lennon mas os Beatles queriam que Stockhausen aparecesse com eles num cartaz. Havia ali um namoro consentido de ambas as partes." Contribuiu também para a grande curiosidade pelos sintetizadores. "Não vou dizer que foi por causa do Stockhausen que o sintetizador se desenvolveu tanto, houve outras descobertas importantíssimas, mas a sua atitude ao influenciar músicos que não eram só da vertente erudita contribuiu para esse desenvolvimento."

Pedro Amaral refere que o ciclo se fechou no fim da vida. "Em determinado momento, já no século XXI, Stockhausen ficou fascinado com uns DJs que faziam aquelas misturas com os discos de vinil. Convidou uns quantos para irem a sua casa e dizia-me encantado: ‘não há nada assim na tradição erudita ocidental, a sonoridade é única. O conteúdo não me interessa, mas o que eles fazem com aquele conteúdo, a maneira como o desfazem, como o apresentam, como o reconstroem é extraordinário."