A segunda vida de Roberto Bolaño

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Depois do assombro causado entre críticos e leitores de língua inglesa, é amanhã posto à venda em Portugal o romance "2666", do chileno Roberto Bolaño. Para muitos, uma obra-prima ao nível da melhor literatura do século XX. Há quem já fale em "Bolañomania".

Quando nos últimos meses do ano passado os suplementos literários dos jornais de referência americanos - e no início deste ano, também os dos periódicos ingleses - começaram a dar destaque a uma obra com cerca de mil páginas acabada de publicar, com um título enigmático - "2666" -, de um escritor chileno praticamente desconhecido, o público leitor ficou curioso e as vendas excederam em muito as melhores expectativas.

O "The New York Times Book Review" fez capa com uma foto de Roberto Bolaño (1953-2003) e abria com um extenso artigo sobre o malogrado autor e uma análise crítica ao monumental romance que havia pouco tempo chegara às livrarias.

O "Washington Post", por sua vez, compara "2666" às obras mais ambiciosas do século XX, saídas do génio de Proust, Musil ou Joyce. Diz ainda que com este livro Bolaño se "juntou aos imortais". Daí até que tivesse sido considerado o "livro do ano" por várias publicações (para algumas mesmo até "livro da década", ou então "o primeiro grande romance do século XXI"), não passou muito tempo. E o novo ano começou com a atribuição a "2666" do prestigiado "National Book Critics Circle Award".

Menos de quatro por cento da literatura publicada em língua inglesa é traduzida. Para um livro originalmente escrito em castelhano, um sucesso desta dimensão - o "The Economist" publicou um texto intitulado "Bolaño-Mania" - é capaz de trazer de novo à vida, e isto um pouco por todo o mundo, a obra de qualquer autor ("2666" fora publicado por uma editorial de Barcelona havia quatro anos). É o que está a acontecer e, provavelmente, assim continuará com os manuscritos de romances que só muito recentemente foram encontrados pelo agente e pela viúva no espólio deixado pelo escritor aquando da sua morte em 2003, em Barcelona, por falência hepática - quando o seu nome quase chegava ao topo da lista de espera para se sujeitar a um transplante de fígado.

A vida aventurosa

Mas quem foi e o que fez este chileno genial que só começou a publicar prosa aos 40 anos de idade? Nascido em Santiago do Chile, filho de um camionista (antigo campeão de boxe amador - são várias as referências ao boxe nos livros de Bolaño) e de uma professora, passou a infância e a adolescência assombrado pelo tormento da dislexia, o que o levou a isolar-se e a ler tudo o que lhe vinha parar às mãos, com um apetite especial pela poesia.

Aos 15 anos emigrou com os pais para a Cidade do México, e segundo o que o próprio contava, voltou ao Chile poucos dias antes do golpe que depôs Salvador Allende e esteve preso durante uma semana pelos militares, tendo sido libertado porque dois guardas tinham sido seus companheiros de escola. (Aqui a sua biografia turva-se, pois são vários os colegas e amigos mexicanos que dizem que nessa altura ele se encontrava no México, que nunca mais voltou ao Chile. Uma amiga, escritora e crítica, diz que esse episódio fora inventado por ele por sentir vergonha de não ter estado lá. O pai confirma a versão de Roberto.)

No México fundou o "Infrarrealismo", movimento poético punk-surrealista cujo manifesto dizia ser pela provocação e pelo "apelo às armas" contra as grandes figuras da literatura latino-americana, com algumas excepções que não eram referidas: Borges, Bioy Casares e Córtazar. (De García Marquez, por exemplo, diz que é "um homem deslumbrado por ter conhecido tantos presidentes e arcebispos".) No final dos anos 70, a caminho de uma promessa de emprego na Suécia, passou por Espanha para visitar a mãe doente e acabou por ficar. Subsistiu com trabalhos mal remunerados mas que lhe deixavam algum tempo para a literatura, sobretudo poesia: lavou pratos em restaurantes, guarda-nocturno num parque de campismo, apanhador de lixo. Levou uma vida de vagabundagem.

Em 1990, com o nascimento do primeiro filho, instalou-se com a família numa localidade da Costa Brava e escreveu apenas prosa para poder concorrer a prémios literários regionais com o fim de ganhar dinheiro. Depois de algumas recusas por parte das editoras, conseguiu publicar os primeiros livros de ficção. Durante os últimos dez anos de vida escreveu febrilmente como se soubesse que não chegaria a velho. À data da morte, em Julho de 2003, tinha quase pronta a sua obra-prima, "2666", na qual trabalhara arduamente para a deixar pronta. Contrariando o que dissera durante anos, expressou então a vontade de que esse livro fosse transformado em cinco, as suas partes publicadas de maneira independente. Os herdeiros, o editor e o executor testamentário não o fizeram pois sabiam não ter sido essa a sua vontade inicial, e que apenas a alterara por recear pelo futuro económico dos filhos.

Ciudad Juárez

As cinco partes em que "2666" está dividido têm dois pontos em comum: um homem e um lugar. O homem é um escritor alemão recluso que nunca ninguém viu, apenas se lhe conhecem os livros. O lugar é a cidade ficcional de Santa Teresa - no deserto mexicano de Sonora, na fronteira com os Estados Unidos -, onde centenas de corpos de mulheres de todas as idades, barbaramente violentadas e assassinadas, são encontrados ao longo de anos nas lixeiras e nos campos baldios em redor das fábricas de montagem de componentes, conhecidas como "maquiladoras". A quarta parte do romance, a mais longa e a mais descritiva, intitulada "a parte dos crimes", dá conta desse horror.

Santa Teresa é na realidade Ciudad Juárez, onde nos anos 90 estes estranhos homicídios começaram a ocorrer. (O jornal "El Mundo", na edição de dia 15 deste mês, dá conta de que os crimes ainda não terminaram.) Logo a partir dessa altura, Roberto Bolaño interessou-se por eles, queria muito entender as circunstâncias do que acontecera, e com todos os pormenores. Mas durante algum tempo o seu conhecimento resumia-se ao que os jornais publicavam. Entretanto, um dos vários amigos mexicanos a quem começou a escrever para pedir pormenores deu-lhe o contacto de um jornalista do "Reforma", Sérgio González Rodriguéz, que tinha começado a investigar os macabros acontecimentos. Rodriguéz publicara já artigos em que afirmava que polícias, políticos e narcotraficantes estavam juntos para proteger os assassinos. E contava várias histórias, entre as quais a da prisão de um "bode expiatório", um tal Sharif, árabe-americano, que estava no México havia menos de um ano e que nem tão-pouco falava castelhano. Em 1999, na Cidade do México, o jornalista foi raptado, assaltado e espancado por desconhecidos quando apanhava um táxi. Escapou à morte anunciada por ter sido atirado para fora de um táxi quando um carro-patrulha se aproximava do veículo que o transportava. (Este jornalista é uma das muitas personagens de "2666", mas é morto pelos raptores.) Na correspondência trocada entre ambos, Bolaño inquiria-o sobre tipos de armas utilizadas, modelos, calibres dos projécteis, marcas de carros suspeitos, descrições físicas de presumíveis implicados, tudo o que pudesse caracterizar os crimes.

Em 2002, aquando do lançamento em Espanha do livro de González Rodriguéz, "Huesos en el Desierto" (Anagrama), em que o jornalista dá conta de todo o seu trabalho sobre o caso, os dois homens encontraram-se frente a frente pela primeira vez. Rodriguéz visitou Bolaño na sua casa em Blanes - isto conta Marcela Valdés num ensaio sobre "2666" - e sabendo que devido à doença o escritor não podia beber álcool, levou-lhe um pacote de meio-quilo de café da casa "La Habana", na Cidade do México, tantas vezes referida no romance "Detectives Selvagens". Mas o fígado de Bolaño também já não suportava o café, de maneira que apenas pode enfiar o nariz dentro do pacote e aspirar o aroma. Meses depois, Roberto Bolaño publicou um ensaio intitulado "Sérgio Rodriguéz debaixo do tornado" em que lhe agradecia a ajuda dada e a informação sobre os atrozes crimes de Ciudad Juárez e dizia que o livro do jornalista "não é apenas uma fotografia do mal e da corrupção; transforma-se numa metáfora do México e de um futuro incerto para a América Latina".

"2666" permanecerá um título obscuro, a menos que entre os muitos apontamentos de Bolaño ainda por classificar, se encontre uma explicação. O executor testamentário e amigo do escritor, Ignacio Echevarría, assinala numa nota à edição do livro uma referência encontrada num anterior livro de Bolaño a uma avenida que se assemelha a um "cemitério de 2666". Outros referem incorrectamente o número apocalíptico da Besta, mas esse é apenas "666". 2666 é, segundo a tradição e calendário judaico, o ano do Êxodo, quando os judeus deixaram de estar sob o jugo do faraó. E um novo tempo iria começar.