Crítica

A obra em negro

Uma belíssima contribuição para entender um grande cineasta, a revelar aos mais novos uma obra-prima absoluta, "O Sangue".

No momento em que o nome de Pedro Costa aparece, no contexto internacional como uma das referências maiores da "escola portuguesa", provavelmente o mais visível e prestigiado a seguir aos de Manoel de Oliveira e de João César Monteiro (embora num outro patamar, de glorificação universal e de diferente abrangência), e em que o seu cinema se estende do circuito dos festivais a uma extensa retrospectiva na Tate International, em Londres, parece chegado o tempo da indispensável visão de conjunto. E o DVD pode cumprir essa primeira abordagem, para dar conta de uma coerência exemplar e de uma "verdade" ascética predominante em toda a sua obra. Já existiam boas cópias de "A Casa de Lava" (1994) e de "Ossos" (1997), por exemplo, bem como uma edição especial, em cuidada caixa cartonada, incluindo um livro com os diálogos e numerosos depoimentos críticos, de "Onde Jaz o Teu Sorriso?" (2001), apresentado no Festival de Veneza e que merecera de Jean-Luc Godard o sempre polémico ditirambo: "O melhor filme que alguma vez se fez acerca do cinema e da montagem".

Falta "No Quarto da Vanda" (2002) e "Juventude em Marcha" (2006), de certo modo formando com "Ossos" uma trilogia essencial (e desgarradamente impossível), e faltava "O Sangue" (1990), o "opus 1", fulcral para entender todo o seu percurso posterior, clamorosa lacuna que esta edição da Midas vem finalmente colmatar. Ver hoje "O Sangue" constitui não só um forte soco no estômago, mas também uma incrível redescoberta: um pesadelo acordado, um filme de mortos que respiram sob a terra, sob a humidade dos escombros de personagens lunáticas, jogando com as sombras, a convocação herética de uma herança cinéfila, para a transfigurar (a matar, como se "a morte do pai" se tornasse urgente), num lirismo convulso de contornos oníricos. O que fica, desde logo, na retina é abertura, um longo plano a negro, desembocando num grande plano desafiador de Pedro Hestnes, um herói em carne viva, cortado por uma bofetada: estranho modo de iniciar uma via sem princípio nem fim, num preto-e-branco de tonalidades expressionistas.

No entanto, muitas outras maravilhas nos estão reservadas, desde as cenas de interior, com as crianças numa "mise-en-scène" rigorosíssima (a lembrar Bresson) e o plano que se fecha sobre o par (Hestnes e uma fabulosa Inês de Medeiros, que diz "pede-me coisas") e se vai fragmentando em sombras e luzes, reminiscentes da "Aurora" de Murnau, com laivos de "A Noite do Caçador" de Charles Laughton e das ficções "exóticas" de Jacques Tourneur, tudo banhado numa neblina freudiana, com as árvores tornadas monstros e as ruas metamorfoseadas em estradas de quimera.

O delírio atinge talvez o ponto culminante na sequência em que uma geométrica construção esfacela o diálogo entre Rosa e Nino, a criança arrancada à infância, crescendo perante os espectadores, numa dolorosa mudança de rosto. Sobretudo, nunca ninguém, em Portugal filmara assim, as luzes feéricas e fantasmáticas de uma feira de Inverno, ninguém arrancara ao real tão poderoso simulacro de vida em pedaços.

Os extras não são muitos, mas revelam-se milimetricamente certeiros: a leitura pungente de Bénard da Costa lembra o Nick Ray de "Fúria de Viver"; a análise de Philippe Azoury encaixa numa selecção perfeita de imagens; as fotos de Paulo Nozolino rimam com a ambiência magoada do filme; as canções de Jeanne Balibar abrem para a última obra de Costa, "Ne Change Rien".

"Onde Jaz o Teu Sorriso?" (reedição, sem livro, da anteriormente mencionada) joga num diferente tabuleiro: fala do rigor das formas, das texturas fílmicas, da ideia do cinema sobre o cinema. Esta dimensão metafílmica encontra o seu lugar num olhar sobre Jean Marie Straub e Danièlle Huillet na sala de montagem, falando de Buñuel, de Eisenstein, Tati, Mizoguchi, Chaplin ou Hitchcock (incorporando até a ousadia de descartar Cassavetes do cinema moderno), da sua própria visão sobre a atracção entre as imagens, o corte da película, os nexos significativos que se geram, a música das palavras. O que em "O Sangue" passava pelo lirismo controlado, ganha neste filme outras cambiantes: uma distância conivente, um fascínio que, se nunca se reduz a um mero seguidismo metodológico, também não critica claramente: o que interessa Pedro Costa passa por uma intervenção pessoal no modo de reflectir sobre o processo de escolher planos, de manter uma luz quase invisível num rosto, de evitar toda e qualquer demagogia psicologista, embora nunca resulte num verdadeiro palimpsesto sobre o universo de Straub/Huillet, do qual parece "depender".

Os extras são interessantes, mas giram sempre em torno do mesmo "material": uma versão reduzida, remontada e com ligeiras variações do "filme principal", para uma série "biográfica" de televisão; "6 Bagatelas", com cenas inéditas; ou duas "novas" curtas de Straub/ Huillet, com excertos excluídos do filme em montagem, "Sicília". Tudo contabilizado, uma belíssima contribuição para entender um grande cineasta, a revelar aos mais novos uma obraprima absoluta, "O Sangue".