O filme dos sonhos de John Woo

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Não deve ser coincidência que, quando Ang Lee e John Woo regressaram de Hollywood à Ásia para fazerem filmes de época pessoais - respectivamente, "Sedução, Conspiração" e "A Batalha de Red Cliff" - ambos tenham ido buscar Tony Leung, de Hong Kong, para intérprete principal. Há algo de magnetizante em Leung: talvez o olhar intenso que aperfeiçoou no seu trabalho com Wong Kar-wai, sobretudo a subtileza que revela no ecrã. Depois de desempenhar homens de modos delicados nos filmes de Wong, Leung gostou da ideia de ser implacável, embora sensível, em "Sedução, Conspiração". E não resistiu ao desafio de ser herói de acção em "A Batalha de Red Cliff" -com um orçamento de 80 milhões de dólares, é o mais caro filme asiático feito até hoje.

"É um grande épico e foi duro de fazer", admite Leung, e dá uma risada. "Estava muito calor, quarenta graus, tínhamos de usar trajes de Inverno e perto de dez quilos de armadura, porque a história se passava no Inverno. Perdi imenso peso. A seguir, veio o Inverno real e ficou muito frio. O filme levou imenso tempo a rodar, as filmagens estavam sempre apinhadas de gente. Fazíamos uma cena e esperávamos uma eternidade para fazer outra, dado haver tanta gente no segundo plano de cada sequência."

Leung trabalhara antes com Woo em "Bullet in the Head" (1990) e "Hard Boiled" (1992), em que contracenava com Chow Yun-fat, o actor-fétiche do cineasta em Hong Kong, em filmes como "A Better Tomorrow" e "The Killer". E foi pouco depois de terminar "Hard Boiled" que Woo partiu para Hollywood. "Mas John não mudou muito", observa Leung. "Continua a ser um tipo simpático e ainda usa muitos pombos nos filmes", ri-se, e olha para o céu, referindo-se a um dos motivos poéticos do cinema de John Woo.

David e Golias

História de David e Golias, "A Batalha de Red Cliff" narra a batalha mais famosa da Ásia, que ocorreu no ano 208 da nossa era e envolveu exércitos enormes em terra e no mar. A história foi popularizada pelo "Romance dos Três Reinos", livro escrito há 700 anos e que deu origem a inúmeros filmes e telefilmes, romances e até videojogos - toda a gente na Ásia conhece a história e tem a sua personagem preferida.

No livro, a personagem de Zhuge Liang, sábio com poderes míticos, emergiu como herói, mas Woo queria manter-se fiel à História e dar o crédito a quem de direito. Isto é, ao vice-rei do reino de Wu, Zhou Yu (o David desta história - Leung), que, com a ajuda de Zhuge (Takeshi Kaneshiro), um inteligente estratego militar, combateu contra o primeiro-ministro e general Cao Cao (Zhang Fengyi¸ actor em "Adeus, Minha Concubina", de Chen Kaige) e o seu exército de 800 mil homens.

Cao Cao queria aniquilar todos os reinos e estabelecer-se como imperador de uma China unificada. Também desejava a mulher de Zhou Yu, Xiao Qiao, considerada a mulher mais bela da China. Contudo, Xiao Qiao não tinha olhos senão para o marido.

Basicamente, dá para todos os gostos, mesmo que a acção seja de primeira importância. Woo, que nunca se distinguiu pela subtileza, não resisitiu a incluir a cena fictícia do livro que descreve uma manobra militar orquestrada por Zhuge em que barcos de palha avançam em direcção aos dois mil barcos inimigos de Cao Cao, os quais disparam centenas de flechas, que são muito necessárias ao muito mais pequeno exército de Zhou.

"Era o projecto dos meus sonhos", admite Woo, 62 anos. "Eu tinha o desejo de fazer este filme há mais de dezoito anos. Tinha lido o livro em criança, por isso conhecia todas as personagens. Este filme é complexo, grande, mas sempre pensei que era capaz de fazê-lo, sobretudo depois de ter aprendido tanto em Hollywood. Nunca digo que alguma coisa é impossível."

Depois de êxitos como "Operação Flecha Quebrada", "A Outra Face", e "Missão Impossível 2", Woo entrou em declínio na América. "Foi bom ter uma experiência tão boa na China", diz ele. "Penso que os chineses têm a capacidade de fazer produções colossais como ‘O Gladiador', ‘Alexandre, o Grande' e ‘Tróia', mas a diferença é que o nosso filme contém igualmente uma mensagem de paz. Creio que há mais pombos aqui do que nos meus filmes anteriores. Apreciei muito o apoio governamental para encontrar locais para as filmagens e soldados; entre setecentos e mil e quinhentos soldados em cena. Além disso, já fazia muito tempo que eu tinha trabalhado com o Tony. Parecia um regresso a casa."

Woo distingue Leung nos elogios porque o actor substituiu Chow Yun-fat, que abandonou a produção. Woo oferecera inicialmente a Leung o papel de Zhuge, que ele recusou, no entanto aceitou ficar com a personagem de Zhou, o romântico homem de acção. Leung e a Kaneshiro, que é um versátil actor bilingue de ascendência taiwanesa e japonesa e também uma estrela pop, acabam por constituir um simpático par.

Leung, 46 anos, conhecia Kaneshiro, de 35, de "Chungking Express" e "Fallen Angels", títulos míticos de Wong Kar-wai. "De facto, nunca nos encontrámos em ‘Chungking Express' e nunca tivemos oportunidade e trabalhar juntos até que, em 2006, representámos dois polícias no filme de Andy Lau ‘Confession of Pain'", explica Leung. "Eu admirava muito o Takeshi como actor e, quando o John não conseguiu encontrar ninguém para a personagem do vilão, resolvi ficar com esse papel e pedi ao Takeshi para ser o bom da fita."

As alterações no elenco foram apenas um dos muitos dramas que dificultaram a produção. E ainda ocorreu uma tragédia quando, na rodagem das cenas da batalha final, vários duplos sofreram graves queimaduras e um deles morreu.

"Quando ateámos o fogo, supostamente contra o vento, de repente o vento virou e empurrou as chamas para o nosso duplo", recorda Woo. "Foi muito, muito triste."