PPR atrapalham campanha de Louçã

Bloco cobiça o milhão de votos de Manuel Alegre

Pedro Cunha
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Pedro Cunha

O PS tem vindo a ser um dos temas constantes dos discursos de Francisco Louçã. Até aqui, nada de novo. Mas anteontem à noite, num jantar-comício no Porto, o líder bloquista inaugurou uma outra abordagem: o elogio dos socialistas. Ou melhor, de alguns socialistas porque o BE sabe "distinguir" o PS do "PS de José Sócrates".

No Porto, Louçã falou de Alberto Martins para apontar que "há dirigentes socialistas que parecem ter vergonha do seu Governo". E ontem à tarde, num comício com cerca de 500 pessoas no Centro Olga Cadaval, em Sintra, nomeou mais dois socialistas históricos, conotados com a ala esquerda do PS: António Arnaut e Manuel Alegre. Nem de propósito, os mesmo que ontem estiveram ao lado de José Sócrates em Coimbra.

Mas isso não parece incomodar o BE, apostado em conquistar o eleitorado socialista e não só. Porque as referências de louvor a Alegre, a propósito do prefácio que escreveu para o livro SNS - 30 Anos de Resistência, da autoria de Arnaut, parecem cobiçar também o milhão de votos que o candidato a Belém arrecadou em 2006. "Tem razão, tem razão", ia dizendo Louçã, à medida que citava excertos do prefácio. "Vou citar-vos algumas frases: 'O Estado não pode ser privatizado...'. Tem razão", sublinhava.

Momentos antes, e apesar de já ter dito que "não há melhor sondagem" do que o apoio que tem "sentido" em todo o país, fez notar que o Bloco de Esquerda está a crescer. E frisou, num tom de ameaça sobretudo aos socialistas: "Nem imaginam a força que nós temos."

A tarde foi passada em Sintra, mas durante a manhã o bloquista esteve em Alcobaça, naquela que foi a sua primeira incursão num mercado. Contudo, no distrito de Leiria nem tudo correu bem.

Na ronda pelas bancas do mercado municipal, cumprimentou as vendedoras de fruta, de legumes, de pão e de animais de criação. Mas excluiu as peixeiras. A poucos metros da peixaria, e num tom de voz baixo, disse a Adelino Granja, candidato à Câmara de Alcobaça, que não queria ir àquela área. Passou pela entrada da zona de peixe e nem sequer olhou para trás, apesar dos acenos das vendedoras.

Questionado sobre o facto, Louçã foi rápido na resposta: "Nunca vou." Porquê? "Por uma questão de princípio." E argumentou: "Porque cria uma dinâmica de espectáculo. Quero um contacto sério com as pessoas, não quero favorecer nenhuma forma de populismo, nenhuma forma de simplicidade."

Louçã convida "todos e todas" para a criação da "força de esquerda", referindo que "todos os votos contam". As vendedoras de peixe parecem constituir, porém, uma excepção. "Eu escolho as pessoas com quero contactar", afirmou, peremptório.

Ainda à porta do mercado, fez uma outra interpretação da notícia do Expresso, que dava conta de que o líder e vários deputados do BE investiram em Planos Poupança Reforma, contra os quais Louçã se tem manifestado, dizendo que todos colocaram o interesse público acima do interesse privado. "Isto é que é grandeza", afirmou.