Crítica

Arena

Em complemento inicial às sessões do "Taking Woodstock" de Ang Lee chega às salas a curta-metragem de João Salaviza que em Maio trouxe uma Palma de Cannes. Coisa rigorosa e cuidada, esta estreia do jovem cineasta português. A partir de uma situação minimal - um rapaz (Carloto Cotta) retido em casa com uma pulseira electrónica, algures num bairro suburbano, que depois sai para a rua à procura dos garotos que lhe roubaram vinte euros - trabalha muito bem o movimento e a "fisicalidade".


Na primeira parte, filmando o "enjaulamento" da personagem, consegue criar uma relação tão forte com aquele espaço delimitado que é um verdadeiro acontecimento o momento em que ele sai para a rua (o tratamento da luz natural, que invade o filme nessa altura, tem algo a ver com isso). E a segunda parte confunde-se com a exploração de um espaço mais vasto (talvez apenas um pouco mais vasto), as imediações do bairro, "não-lugar", ou melhor dizendo, "arena", arena para uma história de perseguição tomada como pretexto para a afirmação de uma masculinidade "adolescente". Há um plano notável (o da bicicleta usada como instrumento de chantagem), pelo aproveitamento das formas arquitectónicas (umas passagens superiores entre prédios), pela maneira como os actores, vistos de longe, as habitam, e ainda pelo modo como o plano se constrói no tempo. E há aquele desenlace surpreendente (ou surpreendentemente simples), depois da cena com o carro, onde Salaviza volta a mostrar um irrepreensível sentido do enquadramento, com a "não-acção" transformada em corolário da "acção", e que deixa o protagonista como um lagarto ao sol. Óptimo filme. A julgar por "Arena", Salaviza tem cabeça de cineasta.

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