Crítica

É bonita a festa, pá

O álbum klezmer dos Melech Mechaya cria pontes que a música portuguesa já não fazia desde os tempos de D. Manuel

Que sentido poderá fazer uma japonesa cantar fado ou um quinteto de portugueses gravar música de judeus? Se a música for boa, todo. Se assim não fosse não haveria a soul que os escravos levaram para os EUA, e se assim não fosse não haveria o afro-beat que Fela Kuti e Tony Allen criaram na Nigéria depois do primeiro ter visto James Brown na América... Tudo isto por causa dos Melech Mechaya, cinco portugueses educados no conservatório que, em "Budja Ba", se estreiam no registo longa-duração com uma dezena de temas "klezmer", isto é, música judia secular, propícia a casamentos e bar-mitzvahs.

Nenhum dos tugas é judeu, o que torna o caso mais curioso: o que os move é o simples amor a esta música. Munidos de clarinete (fundamental no "klezmer"), violino (idem), guitarra acústica, percussões e contra-baixo, interpretam temas tradicionais e conseguem captar a essência festiva do "klezmer", que provém da tensão entre as melodias nos agudos e as brutais acelerações rítmicas (para tirar teimas ouçam o tema-título). Mas aqui e ali os Melech Mechaya arriscam temas seus e é aí que dão um salto, ou seja, que constroem uma linguagem sua. E isto faz-se apenas com pequenos truques.

Em "Dança do desprazer" começa-se de forma inusitada no "klezmer": inicialmente há apenas uma linha de baixo e um prato-de-choques, no que podia muito bem ser um loop de hip-hop. Depois há palmas e uma melodia judaica de violino. Pequenos nadas vão sendo adicionados antes de o mercúrio derreter quando o clarinete toma a dianteira e mete a quinta. Na óptima "Bulgar de Almada" afadalha-se, por via do contrabaixo e da guitarra, uma melodia judia, e ainda se juntam os coros das Tucanas, assim criando pontes que não existem desde os tempos de D. Manuel.

Por enquanto "Budja Ba" é uma bela festa, mas deixa uma ameaça: no disco seguinte estes moços podem muito bem tornar-se um caso muito sério, e isto apesar do humor que marca os seus óptimos concertos.

Budja Ba (ao vivo em Lisboa), Melech Mecha