A nova primeira-dama do Japão já foi até Vénus num ovni

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Nunca um primeiro-ministro japonês teve uma mulher tão "colorida". Miyuki Hatoyama promete mudar a imagem enfadonha e cinzenta do cargo.

a Diz que a sua alma viajou até Vénus num ovni, que come luz do sol e que na outra encarnação conheceu Tom Cruise. Nada disto seria de esperar de uma primeira-dama, sobretudo num país conservador como o Japão. Mas é assim Miyuki Hatoyama, a mulher do político que há uma semana conseguiu uma vitória histórica no país. Miyuki Hatoyama, 66 anos, não é apenas a futura primeira-dama japonesa. É uma ex-actriz, uma cara conhecida pelos talk-shows em que participou para falar de política ou espiritualidade, e pelos seus conselhos sobre como vestir (que se estendem ao marido), o que comer, como decorar a casa - "compositora da vida", é um resumo que faz do seu próprio trabalho.
Miyuki é o "sol" eterno de Yukio Hatoyama, que no fim do mês tomará em mãos o Governo nipónico. "Não há limites para a sua alegria" e "sinto-me aliviado cada vez que chego a casa", disse ele, quatro anos mais novo que a mulher, que conheceu na prestigiada Stanford University, na Califórnia. Usou uma foto do casal na sua homepage oficial (ambos sorrindo descontraidamente, com ar feliz) e no site fala também de Miyuki e dos livros que ela publicou, a maioria sobre culinária espiritual. Não admira que como líder do Partido Democrata do Japão (centro-esquerda) a tenha levado para comícios e acções de campanha pelo país, oferecendo as suas palavras simpáticas e sorriso amável aos eleitores.
Ninguém vai ao ponto de dizer que a vitória esmagadora do PDJ alguma coisa deve a Miyuki Hatoyama - 54 anos de governação do Partido Liberal Democrata, com o cansaço que daí advém, e a sua incapacidade de enfrentar a crise económica, são factores mais que suficientes para justificar uma viragem.
Obama encarnou a mudança na América; Yukio Hatoyama deseja fazer o mesmo no Japão. Isso mesmo garante a sua mulher. "É impossível fazê-lo em um ou dos dias, mas acho que isso será visível ao longo do tempo", afirmou Miyuki numa entrevista recente à agência japonesa Kyodo. "O público saboreou a excitação destas eleições históricas. Acredito que daqui a uns anos se dirá que estas eleições mudaram a história".
Diz partilhar a "sensibilidade" de Michelle Obama, a primeira-dama dos EUA. Vai poder confirmá-lo no final deste ano, quando o Presidente norte-americano visitar Tóquio. "Acho-a muito natural e tem um tipo de sensibilidade semelhante à minha. Se eu tiver uma oportunidade de a conhecer, gostaria muito".
A "amiga" de Tom Cruise
Dá conta também de uma "curiosidade constante". "Sou uma pessoa que gosta de experimentar tudo", afirmou numa entrevista à televisão, em Maio, adiantando ainda que os seus passatempos actuais são a cerâmica e a confecção de pickles.
Mas as suas principais revelações não foram essas. A futura primeira-dama fez saber ainda que gostaria "ardentemente" de fazer um filme em Hollywood e que o actor seria Tom Cruise, "porque sei que ele era japonês numa vida anterior. [E sorrindo:] Lembro-me que ele e eu estivemos juntos. Acho que ele perceberia se eu lhe dissesse quando nos encontrássemos: 'há muito tempo que não nos víamos!'".
Afirmou na mesma ocasião que todos os dias come luz do sol, que lhe dá "muita energia... o meu marido também começou a fazer isso".
Mais surpreendente ainda foi a afirmação de que a sua alma foi a Vénus. A viagem espacial, feita há 20 anos, foi descrita num livro publicado no ano passado com 26 testemunhos de pessoas que dizem ter vivido experiências bizarras. "Enquanto o meu corpo dormia, acho que o meu espírito voou num ovni triangular até Vénus", cita a Reuters. "Era um sítio extremamente bonito e muito verde". Quando acordou, contou ao seu marido de então o que aconteceu; ele disse-lhe que provavelmente tinha sido apenas um sonho. "O meu actual marido pensa de forma diferente", escreveu. "Ele diria: 'isso é fantástico!'".
O marido "alien"
É uma coincidência que a mulher que diz ter entrado num ovni seja casada com alguém de alcunha "alien". O nome terá sido dado pelos habitantes do distrito de Nagata-cho, em Tóquio. Miyuki Hatoyama acredita que se deve ao facto de os eleitores estarem habituados a um estilo antiquado de políticos. "É difícil entender uma coisa nova. Para muitos dos políticos que pertencem ao 'Partido do Eu'[PLD], o meu marido, que não é movido por interesses pessoais ou ganância, é incompreendido e comparado a um extra-terrestre, suponho eu".
Existem outras explicações para a alcunha, como os seus olhos um pouco saídos e o cabelo mais comprido do que o costume (o corte é agora irrepreensível). Para Miyuki, o marido "é um homem normal no dia-a-dia", embora seja um "milagre" ter escapado à forma que tradicionalmente molda os políticos japoneses.
Miyuki nasceu em Xangai, em 1943, quando a cidade estava sob ocupação japonesa, e cresceu em Kobe, na zona ocidental do Japão, refere a AFP. Actuava, cantava e dançava no grupo Takarazuka, na década de 1960, mas a sua carreira no teatro foi interrompida com a ida para os Estados Unidos, onde conheceu Yukio Hatoyama, neto de um primeiro-ministro e herdeiro de uma dinastia política comparada aos Kennedy.
Casaram em 1975, depois de Myuki se divorciar. Têm um filho de 33 anos, Kiichiro, engenheiro a estudar em Moscovo, mas disposto a um dia seguir as pisadas políticas da família, quando se tornar mais confiante. Para já, os holofotes e as expectativas estão centradas em Yukio Hatoyama, de quem os japoneses esperam que ajude a tirar o país da crise.
"Tento sempre animá-lo dizendo 'vai tudo correr bem'", disse ainda Miyuki na entrevista à Kyodo. "Ele é abençoado pelos seus antepassados e os seus apoiantes e protegido pelo seu poder, por isso, o que quer que aconteça, ele ficará bem".