Por amor em Foros do Arrão

Augusta era mulher do Gil Mário e amante do "Preguiça". Para ficar com ela, o "Preguiça" matou o Gil Mário. Na prisão, subornou dois guardas, para que Augusta pudesse ir dormir com ele. Depois de uma noite de sexo, Augusta trocou-o por outro. Do calabouço, o "Preguiça" ainda clamou: foi ela que mandou matar o Gil Mário! Mas ninguém o ouviu. Uma história de amor, sexo, traição, morte e desnorteio, no Portugal interior. Este texto foi publicado a 21 de Março de 2009

a Personagens: Gil Mário, empresário do entretenimento hoteleiro, diurno e nocturno. Hoje falecido, vítima de homicídio.Augusta, a esposa do Gil Mário. Considerada por unanimidade uma das mais belas mulheres de Foros do Arrão e arredores. Bela e selvagem como a flor do eucalipto.
Carlos "Preguiça", negociante de pinhas. Garanhão de créditos reconhecidos em todas as povoações da estrada que vai do Couço a Foros do Arrão. Amigo de Gil Mário e amante de Augusta.
Paulo Jorge e Luís Pedro, os irmãos mais novos do Gil Mário. Cresceram sob a sua sombra.
Os pais do Gil Mário, do Paulo Jorge e do Luís Pedro. Morreram quando os três irmãos eram muito novos, ela de cancro da mama, ele por ter caído a um poço.
A mãe de Augusta, que só tem um olho, desde os 16 anos, mas deu de comer ao Gil Mário e aos irmãos, depois de eles terem ficado órfãos.
João, o futuro amante de Augusta, depois de o "Preguiça" ter sido preso por assassínio do Gil Mário.
Cenário: o café Vitago, no centro da aldeia de Foros do Arrão, logo a seguir ao Centro Desportivo e Cultural.
Cena 1 A inocência
Augusta, deslumbrante e provocadora, serve ao balcão, como de costume. Gil Mário está de passagem, porque tem outras casas para gerir: o restaurante Charrua e o bar de alterne na Golegã. Subiu a pulso na vida. Tem um princípio: não paga impostos. É uma posição quase ideológica. Ninguém o poderia obrigar a partilhar o dinheiro que ninguém o ajudou a ganhar. Mas foi uma vantagem competitiva. Quem sobe a pulso sobe mais alto se estiver mais leve.
É verdade que o dono desta mente pragmática não pode passar cheques, nem depositar dinheiro no banco, ou ter algum bem registado em seu nome. Mas isso que lhe importa? Os carros estão em nome do irmão e os negócios fá-los em contado, como aliás é o costume da região.
O restaurante está sempre cheio, a boîte destrói (ou salva) famílias em todo o Ribatejo, o café, aberto até altas horas, atrai grupos não só de Foros do Arrão, mas de Ponte de Sor e de todas as aldeias de Abrantes a Montargil. Principalmente quando há karaoke.
Gil Mário vai facturando. Com muito trabalho, mas iguais doses de farra. As meninas do alterne são a alegria do patrão e respectivos amigos. Mas também da própria Augusta, que sempre achou graça àquele lado menos convencional e mais picante dos negócios do marido.
Os dias (e as noites) são gloriosos no café Vitago, e quando isso acontece ninguém pensa na natureza efémera e periclitante da felicidade. É a época da inocência, e tudo corre bem na existência do casal e do seu filho, de 11 anos.
Já quanto à vida de Carlos "Preguiça", dificilmente alguém veria ali um modelo de boa gestão.
O negócio das pinhas é rentável. Um quilo de pinhão vale sempre 40 ou 50 euros. Mas "Preguiça", diz-se, o que ganha de dia gasta de noite. Conta-se também que derreteu uma herança de 100 mil contos em poucos meses.
"Preguiça" vive no Couço, um histórico bastião do PCP, com a mulher e os dois filhos, mas, mal sai de lá, por força dos seus negócios, transforma-se num sedutor. Teve um caso com uma mulher casada, na Foz do Mocho, após o que foi corrido a tiro, mas agora está obcecado com Augusta. Toda a gente desconfia que tem um caso com ela, e tem mesmo. Nos últimos meses, passa a vida no café Vitago. Em vez de disfarçar, senta-se ao balcão em pose de galo.
E até faz cenas de ciúmes. Uma vez, ao achar que um determinado cliente se esganiçava demasiado no karaoke só para chamar a atenção da patroa, avançou para ele em fúria e arrancou-lhe uma orelha.
É a época da inocência, e em toda a sua inocência o "Preguiça" anda a dormir com a mulher do Gil Mário.
Cena 2 A traição
Luís Pedro tinha 6 anos, Paulo Jorge 11 e Gil Mário 17, quando a mãe morreu. O pai caíra a um poço cinco anos antes. Os três irmãos ficaram sozinhos. O mais novo foi entregue a uns tios, mas os outros tiveram de ir trabalhar. Isto passou-se há menos de 30 anos, mas não havia água nem electricidade em Foros do Arrão. Não havia nenhuma actividade económica para além das hortas, e os dois miúdos arranjaram emprego nas obras em Alter do Chão, em Fernão Ferro, e depois em Lisboa. Iam num camião de um empresário local e passavam lá a semana, a ajudar à construção de um hotel de luxo, na Avenida 5 de Outubro. Trabalhavam de manhã à noite e dormiam debaixo de um toldo, ao lado da obra. Ninguém lhes dava comida. Levavam, preparados pela avó ou a tia, uma marmita e alguns legumes para cozinharem a semana toda.
"Sofremos muito, nós os dois", diz Paulo Jorge, que hoje tem 40 anos e na altura tinha 12. Eram inseparáveis. Quando o Gil Mário começou a prosperar, Paulo Jorge trabalhava para ele. E viviam na mesma casa, que pertencera aos pais, mesmo quando Gil Mário e Augusta já estavam juntos. Partilharam os momentos bons e os maus. Nestes, Augusta chegava a ir a casa da mãe, Beatriz, pedir comida para os irmãos do companheiro. "Tratei-os como filhos", diz hoje Beatriz, de 75 anos.
Paulo Jorge era o braço-direito e testa-de-ferro de Gil Mário. O homem de confiança. Demasiada: era empregado do café e do restaurante e não recebia salário. O irmão mais velho dava-lhe algum dinheiro, quando calhava. Nunca lhe pagou Segurança Social. Um dia irritou-se e enxovalhou-o diante dos clientes. Paulo Jorge saiu porta fora e nunca mais falou ao irmão.
Isto foi mais ou menos na altura em que Gil Mário descobriu que a mulher lhe era infiel. Chamou-a à cozinha, que ficava num anexo - os habitantes de Foros do Arrão, quando têm êxito na vida, constroem um anexo na casa, onde instalam uma cozinha para as farras e uma garagem e confrontou-a com a realidade. Se não desistia do "Preguiça", Augusta teria de sair de casa, exortou Gil Mário, acompanhando os argumentos com uma sequência de bofetadas. Mas não levaria o filho.
Augusta disse que ficava. Prometeu que se emendava, mas não emendou, e na mente pragmática de Gil Mário instalou-se a convicção de que algo mau lhe ia acontecer.
Cena 3 O destino
Quando perdeu um olho, Beatriz viu finalmente Santarém. Tinha 16 anos. Estava a cavar a terra, como fazia todos os dias, desde muito nova. Não trabalhava até ao pôr do sol, mas muito para lá dele, por imposição do pai. E foi numa dessas noites, em que já não via onde lançava a enxada, que a partiu ao dar com ela numa pedra. Um aguçado fragmento de aço voou-lhe directo ao olho.
Beatriz sangrava abundantemente e o pai trouxe-a para casa, no carro de bois. Chegaram a altas horas da noite. Mas tiveram de esperar pela primeira camioneta da manhã, para irem ao hospital a Santarém, que fica a uns 60 quilómetros. Era a primeira vez que Beatriz saía de Foros do Arrão. Estava cheia de medo. Não só de perder o olho, mas também da grande cidade. Enquanto recuperava do tratamento, ficou hospedada numa pequena pensão, paga do bolso do próprio médico, que teve pena dela. Mas passara demasiado tempo desde o acidente. Beatriz ficou mesmo sem o olho.
Isto passou-se em 1950, sete anos antes de ter sido construída a primeira escola na localidade, 13 anos antes de haver um cemitério e 30 antes do saneamento básico: uma época em que os habitantes de Foros do Arrão já tinham percebido que não havia qualquer esperança para as suas vidas e começaram a emigrar. Fizeram-no quase todos para o mesmo local, a ilha de Jersey, um território de 116 quilómetros quadrados no Canal da Mancha, um paraíso fiscal semi-independente e com 80 mil habitantes, 10 por cento dos quais são portugueses.
Foi como se, apesar de obrigados a abandonar a sua terra, os forenses se recusassem a dispersar-se pelo mundo, e transferissem a aldeia para uma zona de ninguém, suspendendo o seu destino colectivo, numa inexplicável convicção de que tinham um.
E no entanto a aventura desta comunidade é recente e fortuita. Até 1912, o que havia aqui era uma herdade, chamada "do Arrão", propriedade de um tal Pedro Aleixó Falcão, que, farto de ver a sua terra ser pasto de rebanhos de passagem, a dividiu em talhões, que entregou a famílias de foreiros.
Não havia agricultura e estes primeiros habitantes, provindos da Chamusca, Mação e Abrantes, viviam exclusivamente da caça brava. A posse de armas sempre foi, por isso, característica local. Bem como o seu uso para resolver querelas.
No início, estes caçadores-recolectores habitavam cabanas feitas de mato. Só quando, mais tarde, começaram a semear trigo e centeio, construíram casas com fardos de palha, e, mais tarde ainda, paredes de terra batida e telhados de junco.
Hoje, o parque habitacional de Foros do Arrão é de grande nível. Os emigrantes de Jersey construíram os seus palacetes de tons claros e linhas clássicas - e respectivos anexos de cozinha e garagem - ao longo da estrada que liga Foros do Arrão de Cima a Foros do Arrão de Baixo. Mas há qualquer coisa de agreste que perdura, e se sente, mal se transpõe o arvoredo que, em redor da Nacional 243, antecede a povoação.
Parecem furiosos os eucaliptos, esganados pela ventania. Pinheiros e sobreiros são mais circunspectos, tranquilos na sua função de fornecer cortiça e pinhões. São eles que cortam o vento, protegendo toda a área habitada. Exaurindo-a, também. Um moinho de vento, construído em 1933, única pérola de património da aldeia, deixou de funcionar, quando cresceram os primeiros pinhais.
Os eucaliptos não aplacam as tempestades. Agitam-se e chocalham num pânico inútil, como se, através deles, vibrasse toda a demência que anda no ar.
Cena 4 O crime
Os assassinos estão atrás dos eucaliptos. O "Preguiça" tomou uma atitude: contratou três ciganos de um acampamento que há muito existe na Azervadinha, na estrada de Couço para Coruche. Pai e dois filhos receberam 1000 contos num envelope, das mãos de um negociante que, enganado pelo "Preguiça", pensou estar a pagar um carregamento de pinhas. E esconderam-se no pequeno eucaliptal que fica nas traseiras da residência do casal. (Era o dia 5 de Setembro, de 1998, uma semana após terem regressado de Montegordo, de umas reconciliadoras férias em conjunto com Luís Pedro e a namorada dele.)
Gil Mário chega à 1 da manhã, directamente da boîte. Augusta, vinda do café, entrou em casa minutos antes. Ela é que trazia o Audi, um dos carros da família. Não o estacionou ao lado dos eucaliptos, como de costume, mas uns metros à frente, dir-se-ia mais tarde.
"O Jolly ainda não parou de ladrar!", diz Augusta, quando ouve o marido entrar em casa. É um dos rituais que Gil Mário cumpre todos os dias, antes de calçar as pantufas: dar uma volta com o cão. Outro é fumar um último cigarro e ficar uns minutos a tossir o catarro acumulado durante um dia de vários maços de tabaco. Só depois entra em casa.
O Jolly está de facto a ladrar como louco e Gil Mário, antes de sair, pega na caçadeira. Avança para o eucaliptal e dá três tiros para o ar. O "Preguiça" e os ciganos, cuja intenção inicial, explicarão mais tarde no tribunal, era a de pregar um susto ao dono da casa, convencem-se de que estão numa guerra e desatam a disparar contra o Gil Mário. Um dos tiros atinge-o na extremidade externa da região inguinal esquerda. A bala, calibre 6.35, provou-se ter sido disparada por uma pistola propriedade do "Preguiça".
Gil Mário ainda se arrasta até casa, mas é pouco depois transferido para o hospital de Abrantes, e a seguir para Lisboa, onde, dois dias mais tarde, vem a morrer.
Cena 5 Sentimentos mistos
O período subsequente foi algo esquisito. Augusta assumiu a direcção dos negócios. Conseguiu reunir algum dinheiro, que o marido escondia, em notas, por vários cantos da casa. Só no bolso de um casaco Augusta encontrou 500 contos. O "Preguiça", que tinha deixado de frequentar o café, voltou a aparecer. Durante quatro meses, a animação regressou ao Vitago, ainda que poucos, em Foros do Arrão, duvidassem da implicação do "Preguiça" (que agora voltara ao terno convívio de Augusta) no assassínio de Gil Mário.
Quando foi preso, em Janeiro de 1999, o "Preguiça" alegou em sua defesa que, na noite do crime, esteve a divertir-se numa boîte, o Tramaga. Até gastou 100 contos com as moças da casa, "a comemorar", explicou ele. (Não ficou claro o que estava a comemorar. A morte do Gil Mário?) No tribunal, por amor, a esposa confirmou o álibi.
E os advogados (pagos, diz-se, com o dinheiro que Augusta encontrou nos bolsos do Gil Mário) bem tentaram provar que o "Preguiça" não estava no local do crime. Em vão: a arma era a dele. Apanhou 17 anos.
Mas foi durante a prisão preventiva que as personagens, movidas não se sabe por que espécie de genica petulante, rebentaram com todas as estruturas semiótico-narrativas da tragédia.
Augusta começou a visitar o "Preguiça", no Estabelecimento Prisional de Elvas, de forma cada vez mais regular e menos discreta. Segundo Paulo Jorge, já lhe chamavam a Maria da Estrada, por andar sempre em viagem, na direcção leste. E Luís Pedro garante que viu, por várias vezes, o carro dela estacionado à porta da prisão.
Na sua cabeça, a mistura de sentimentos é complexa e explosiva. Sente pena pela morte do marido, é verdade, e arrepende-se dos devaneios eróticos que levaram àquele desfecho. Mas não é menos verdade que o "Preguiça", por amor dela, desgraçou a sua vida. É demasiado tarde para o trair por fidelidade ao marido, que agora está morto. Em vida deste, foi demasiado cedo para o ter traído. Agora, a única solução é ser fiel ao "Preguiça".
Com estes pensamentos em curto-circuito, Augusta acelera pela Nacional 251 em direcção a Elvas, no Audi do Gil Mário.
Mas a visita é curta e frustrante, e os dois amantes, imaginativos como está provado que são, dão os últimos retoques no seu plano louco: subornar dois guardas, para que Augusta passe uma noite na prisão.
É justo. Ela quer compensar-se das perdas sofridas, e ele rentabilizar o acto criminoso, que tão caro lhe custou. Augusta põe nas mãos do "Preguiça" um cheque de 100 contos, ao portador.
Cena 6 Sexo na prisão
Diz-se em Foros do Arrão que aconteceu no dia do aniversário do "Preguiça", mas o P2 não conseguiu apurar se foi realmente uma comemoração. Que foi uma festa, sim.
Já de madrugada, os guardas, devidamente corrompidos com os 100 contos, abriram a porta à viúva e conduziram-na à sala de visitas da prisão, onde ela e o recluso mantiveram um prolongado "encontro de cariz sexual", segundo o texto do processo que mais tarde foi levantado contra os guardas.
Por terem permitido e facilitado o acto ilícito, seriam condenados a dois e um ano de prisão com penas suspensas, sentença que foi confirmada o mês passado, depois de o Tribunal da Relação de Évora ter ordenado a repetição do julgamento.
Não se sabe se Augusta voltou a pernoitar em Elvas. Sabe-se que das últimas vezes que visitou o "Preguiça" levou um amigo, o João, casado, primo afastado do Gil Mário.
Da sua posição concorrencial desigual, o "Preguiça" desconfiou logo de tanta solicitude da parte do João. Com efeito, o novo amigo tornou-se rapidamente no novo amante, sem que o "Preguiça", na impotência da sua cela, pudesse fazer alguma coisa a não ser tentar incriminar a traidora. Chamou à prisão o irmão mais novo do Gil Mário, para lhe dizer que tinha provas da implicação de Augusta no crime. Foi ela que pagou aos ciganos, jurou o "Preguiça" a Luís Pedro, facultando-lhe diversa documentação probatória. Mas no julgamento, que se realizou pouco depois, Augusta ficou de fora. O "Preguiça" foi condenado, os guardas também o seriam, o Gil Mário morreu deixando um filho órfão. Só Augusta é livre.
Está com o novo namorado, que entretanto se divorciou. Nunca foi acusada. De que poderiam acusá-la? Tudo o que ela fez foi amar.