Lee Fields

My World

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Por mais que queiram, não é verdade que "My World" seja um disco exclusivamente retro, com aquele som sujo e repleto de suor da soul muito antiga. "My World" é quase, quase, quase um disco retro, mas limado com uma precisão cirúrgica de modo a encantar não apenas duas dezenas de velhinhos melómanos rabugentos (como nós) mas também as jovenzinhas que apreciam Duffy (Não por acaso, Fields é fã de Duffy).

Mais que aproximar-se do funk que o senhor Fields tanto preza, "My World" é um exemplo de melodia e arranjo, de "sweet soul music" (Curiosidade soul: o grande Arthur Conley tem um tema chamado "Sweet soul music"). Tem os metais cheios de mel, os coros devotos, os órgãos cool, as cordas delicadas que povoaram os discos da Stax e de milhentas subsidiárias e editoras minúsculas dos anos 60, mas nunca se explode: antes se pega no ouvinte pela mãozinha e, quando ele repara, está viciado nos órgãos, na batidazinha ligeira, nos metais de sopro de Verão. E na voz, a voz de "soul man" de Lee Fields. "My World" tem uma produção cheia de cetim (Al Green ia adorar cantar num disco assim), mas acima de tudo tem canções. Logo à cabeça o tema-título, cujos órgãos e cordas recordam o Marvin Gaye de "What's Going On", é um supremo single, recheado de detalhes: os metais em contra-ponto a um pizzicato de (parece ser) xilofone, a linha de guitarra, etc. As cordas de "Ladies" vêm com unhas pintadas, a guitarra wah-wah rebola as ancas, aqueles metais são uma homenagem aos decotes pronunciados. E devia inventar-se um prémio para os coros de "My world is empty without you": a linha melódica é definida por sinos, cordas volteiam torno da guitarra, a voz é plena de um qualquer sofrimento que só vale a pena em canção. Do princípio ao fim é assim: canções extraordinárias, arranjos imaculados, uma voz tremenda. Isto não é retro. Isto é grande música.