Crítica

Se a minha casa voasse

"Up" é mais adulto - e emocionalmente mais sincero, genuíno e maduro - do que muita coisa que por aí anda, em "live action", a ser vendida aos adultos.

Já foi dito milhentas vezes que a Pixar está na posse do segredo que durante décadas foi da Disney. Mas bom, perante "Up" só nos ocorre exclamá-lo mais uma vez. Não é só a tecnologia, não são só as histórias, os argumentos e os diálogos, não é só o trabalho na construção das personagens. É o doseamento pouco menos do que perfeito de todos estes elementos, o equilíbrio atingido com uma graça e uma leveza, uma inteligência e uma imaginação, que parecem naturais e evidentes, dir-se-ia mesmo, tocando no coração do território Disney, "clássicas"... Este novo filme da Pixar, assinado por dois veteranos da casa, Pete Docter e Bob Petersen, que numa função ou noutra estiveram envolvidos em praticamente toda a produção da Pixar desde o "seminal" "Toy Story", tem todos esses atributos para dar e vender. Não é tão surpreendente como "Wall E", que tinha aquela inesperadíssima espécie de profundidade "teórica" (o analógico e o digital), uma cobertura suave mas acutilantemente "política", e sobretudo aqueles primeiros quarenta e cinco minutos com "música do ruído" no lugar dos diálogos. Mas tem, e torna-o logo claro, semelhante capacidade para enganchar o espectador, pequeno ou grande, jovem ou adulto.


É "para todos" sem que isso implique - como no segredo da Disney - qualquer infantilismo. Pelo contrário, e não nos ocorre melhor elogio a "Up", é mais adulto - e emocionalmente mais sincero, mais genuíno e mais maduro - do que muita coisa que por aí anda, em "live action", a ser vendida aos adultos.É o que lhe permite, por exemplo, começar o filme praticamente com uma morte. Um dos protagonistas é um velhote recém-enviuvado, e uma notável sequência introdutória apanha-o ainda em criança, acompanha-o pelos anos do casamento (há um plano extraordinário e totalmente inesperado, com Ellie, a mulher, no hospital, e sem palavras percebemos que o casal não pode ter filhos) e deposita-o no que afinal será o tempo da "acção". Meia-dúzia de minutos e o que parecia que ia ser a história afinal não é.

O procedimento surpreende por várias razões, mas a principal é a delicadeza com que introduz e trata esses temas, o envelhecimento e a morte, tão pouco vistos em filmes deste género. O velhote (que se chama Carl, parece ter sido ligeiramente inspirado em Spencer Tracy, e na versão original tem a voz de Edward Asner) recebe depois a visita de um escuteiro, um miúdo rechonchudo e desajeitado mas dotado de intermináveis entusiasmo e boa-vontade. Por motivos demasiado complicados de explicar, ver-se-ão a bordo de uma casa voadora (o estratagema dos balões coloridos fornece uma das sequências mais "líricas" do filme, plena de invenção visual) rumo à América do Sul. Encontram animais exóticos, animais comuns (cães de todo o tipo), um vilão que é a cara chapada de Christopher Plummer (o que não admira porque a voz é dele na versão original).

Estamos perto de um "Salteadores da Arca Perdida" com um velhote e um garoto - e se alguém achar exagerado falar em "fusão de imaginários" é porque ainda não lhe contámos do Zeppelin, do cão muito Disney e do cão um bocado Miyazaki, do toque "retro" de alguns adereços e porções da história, da mensagem vagamente ecológica. Lição de vida, claro, para o velhote como para o miúdo. Mexendo nuns pormenores aqui e ali, não ficávamos longe de um "Gran Torino" em desenho animado. Exagero? Um bocadinho. Mas a justeza e a autenticidade do "trânsito" emocional entre aquelas duas personagens pedem que se exagere esse bocadinho.

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