Raul Solnado "fica no nosso coração"

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À saída do cortejo bateram-se palmas ao actor Enric Vives-Rubio

"Isto parece um jardim. Meu Deus!", dizia uma senhora surpreendida ao entrar na sala da biblioteca do Palácio Galveias, em Lisboa, onde ontem, perto das 18h, decorria o velório do actor Raul Solnado (1929-2009).
A rodear o caixão, coberto com um pano dourado e negro, estantes envidraçadas até ao tecto cheias de livros e coroas de flores em todos os sítios.

"Dos seus amigos Gato Fedorento", lia-se na fita pendurada entre flores brancas. Ao fundo, destacava-se uma gigantesca coroa enviada pelo Presidente da República e sua mulher. Os olhos perdiam-se nas flores espalhadas pelo chão. Eram tantas que encheram três carros funerários.
Ao aproximarem-se do caixão para se despedir, algumas pessoas tocavam na madeira, outras rezavam, outras lamentavam não ter os óculos para ler o texto emoldurado em cima do caixão. Tinha por título Um Vazio no Tempo, não tinha data e foi escrito por Raul Solnado.

Neste texto, o actor conta que durante uma visita à Expo de Lisboa descobriu uma pequena sala despojada, onde não existia qualquer sinal religioso, só meia dúzia de bancos corridos. Foi aí que, "quase como um espanto", sentiu uma sensação que nunca sentira antes: "Uma enorme vontade de rezar não sei a quê ou a quem." Fechou os olhos, apertou as mãos, entrelaçou os dedos e sentiu "uma emoção rara, um silêncio absoluto e tudo o que pensava só podia ser trazido por um Deus que ali deveria viver e que me ia envolvendo no meu corpo amolecido". Mas quando os seus olhos se abriram, aquele seu Deus tinha desaparecido. "Aquela vírgula no tempo foi o mais belo minuto de silêncio que iluminou a minha vida, que me fez reencontrar, e que me deu a esperança de que num tempo que seja breve me volte a acontecer. Que esse Deus assim queira", escreveu Solnado e lia-se em cima do seu caixão.

"Testemunho indelével"

Já fora daquela sala, no pátio, o realizador António-Pedro Vasconcelos lembrou o amigo e o texto "extraordinário" que acabara de ler. Um texto sobre um momento de emoção, sobre um encontro com Deus. Um texto de um homem que tinha "a noção da sua infinitude" e deixou um "testemunho indelével".
Entretanto, os populares abriam alas para deixar passar o ex-Presidente da República Ramalho Eanes e a sua mulher; o ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado; a secretária de Estado da Cultura, Maria Paula Fernandes dos Santos; o político Santana Lopes; o fadista Carlos do Carmo; o realizador José Fonseca e Costa; a atleta Rosa Mota; o escritor Fernando Dacosta; o apresentador Eládio Clímaco; o actor Óscar Branco, o produtor André Cerqueira e muitos outros. O pátio era o local onde os jornalistas das televisões interrogavam as figuras públicas para as emissões em directo, e onde se era surpreendido por populares a receberem telefonemas de alguém que os estava a ver na televisão.
"Olha aquele, está velhote", ouvia-se na confusão. "Olha aquela, como é que ela se chama?" As centenas de pessoas que ali se deslocaram não resistiam a fazer apreciações a quem passava. Mais tarde, no pátio só ficaram jornalistas e repórteres de imagem. Na rua a polícia organizava a multidão para a saída do cortejo.
"É aqui a guerra de 1908? Não, é mais acima", ouvia-se entre os populares encostados às grades. Umas senhoras pediam ao segurança: "Ó senhor, quando sair diga, que é para a gente começar a bater palmas."

E chegou o momento e as palmas. Agitaram-se lenços brancos. Gritaram "Viva o Solnado! Viva!" e "Raul! Raul!". Acenaram, dizendo adeus. Alguns tentaram acompanhar a pé o cortejo fúnebre, mas os carros avançaram e as ruas foram ficando cada vez mais vazias. E lá no alto, o barulho do helicóptero era constante e ensurdecedor.
Ao Cemitério dos Olivais, onde o corpo de Raul Solnado foi cremado perto das 20h, deslocaram-se pessoas que começaram a ver o funeral na televisão e por isso resolveram ir. Quiseram ir ali dizer adeus porque tudo o que Raul Solnado fazia "era extraordinário". Ou porque a morte dele lhes deixou "o coração dorido". Ou porque "a gente chega a um ponto em que gosta tanto das pessoas que vemos na televisão como se fossem da nossa família". Levaram crianças, alguns estavam de cadeiras de rodas, outros apoiados em bengalas. Misturaram-se com os actores Vítor Norte, Rui Mendes, Eunice Muñoz, Diogo Infante, Bruno Nogueira, com o realizador Lauro António, o compositor José Niza, o encenador João Mota.

Silêncio foi o que mais se pediu, na pequena sala onde decorria o momento mais íntimo da cerimónia. Foi quase impossível. E no fim houve alguém que gritou a plenos pulmões: "Raul fica no nosso coração."