Crítica

Sobre cães e homens

Um livro surpreendente e poderoso, uma tragédia clássica, com fontes gregas e shakespereanas, a primeira obra de uma autora que escreve com mestria

A acção deste romance inicia-se nas "Ilhas", às quais nunca é dado um nome, mas que tanto podem ser os Açores de Vitorino Nemésio, Natália Correia ou João de Melo, como as "Ilhas Encantadas" de Herman Melville. Zarina ("nojenta, imunda") está presa em casa e escuta os ecos da caçada ao seu amante, Rafael. O fiel cão, de nome Tristão, o mesmo que os protegia quando se encontravam em segredo, acabou, inocentemente, por os denunciar. Rafael e Zarina cometeram um crime de acordo com as leis da terra e, tal como Romeu e Julieta, foram apanhados na teia de antiquíssimos ódios, ao ousarem desafiar as barreiras entre o servo e a dona, entre a menina resguardada e o selvagem que, como é dito no livro, "vem de uma longa linha de escravidão - servir, calar, dar graças por ter um tecto" (pág. 23).

A roda da história desta vendetta já está a girar, foi iniciada há muito, a tradição do "mau sangue" perde-se no tempo, como entre os Monteccio e os Capuleto.

Quando o livro principia, o leitor é imediatamente lançado no vórtice da acção, num mundo sem piedade, feroz e caótico, onde se ouve o lamento desesperado de Zarina, o ladrar dos cães, os gritos e o arfar de Rafael, acossado por uma matilha de homens violentos e predadores. Nesse lugar claustrofóbico, simultaneamente paradisíaco e tóxico, onde a consanguinidade cria monstros (a natureza é descrita com uma espécie de intensidade bíblica), a sanha com que perseguem Rafael pode indiciar a quebra de um tabu atávico, o do incesto.

Ferido e escorraçado, Rafael consegue escapar no bojo de um barco, deixa para trás o sortilégio da ilha, torna-se uma espécie de Eneias, empurrado pelos deuses e pelo destino. É um herói peculiar, meio demónio meio anjo, arrastado pelas vagas, um homem sem papéis de identidade que finalmente desembarca no Havre e se mistura com a fauna do porto, o tempo suficiente para recuperar e se fazer à estrada, solitário, orgulhoso e vulnerável.

A parte substancial do livro é centrada na sua errância, contada pelo próprio e por aquelas de quem se aproxima, isto é, as mulheres que passam a fazer parte da sua vida. Como qualquer rafeiro segue à deriva, procurando o essencial: abrigo, alimento, coito. Rafael é voraz, aproxima-se e ronda cautelosamente as suas presas, sabe como seduzi-las e possuí-las. Em Paris conquista Pilar, instala-se em sua casa, toma-a para ele. Mas Rafael não é aprisionável, com o seu jeito sedutor de vagabundo, belo e hierático como uma estátua. É homem de uma só paixão, deixada para trás e aprisionada nas ilhas, um artista naturalmente dotado, todo ele nervos e instinto na sua forma de proceder.

É através do sexo que ele seduz, que se exprime e se revela, é pelo sexo que possui, que domina e sobrevive, é com o sexo que constrói, não um jogo mas sim um método. (Nas suas magníficas descrições de um erotismo gráfico, a autora está mais perto de Sade do que de Casanova). A autora não lhe confere profundidade psicológica nem dimensão social ou política - recebe a notícia da Revolução em Portugal mas permanece indiferente perante a excitação geral - mas aproxima-o de nós através da ressonância da sua voz interior e do efeito que esta tem sobre aqueles que ele atrai para o seu círculo.

"O Cão das Ilhas" é um livro surpreendente e poderoso, uma tragédia clássica, com fontes gregas e shakespereanas, a primeira obra de uma autora que escreve com segurança e mestria. A construção da narrativa, a utilização de uma voz (principal) masculina e de três vozes femininas, a passagem de umas para as outras com agilidade e autoridade, a beleza quase onírica de certas imagens fazem deste livro uma obra excepcional, com ecos do Antigo Testamento, da tragédia grega, de Ovídio e de George Bataille. Caleiro tanto descreve cenas prosaicas como outras de uma enorme intensidade erótica e dramática, conjugando o carácter realista e os aspectos simbólicos com extraordinária habilidade e dando espaço para um realismo cruel aliado a um ritmo poético encantatório.

No final, a linguagem adquire um tom de urgência, em "staccatto", que marca uma aceleração de um tempo que transmite angústia e crueldade, um certo tom misterioso que paira até ao final, numa atmosfera de catástrofe e condenação. Romance sobre a escravidão feminina física, emocional e moral - Zarina é Czarina, a imperatriz do coração de Rafael, Pilar representa o sustento, o apoio, a segurança e Melina, o mel, não suficientemente doce para a salvação - é, também, uma história sobre a repressão e o medo, sobre o exílio e a solidão, acompanhando o ritmo de Rafael, esse "cão das ilhas", leal, bravio e livre.