Crítica

A coleccionadora

O que é maravilhoso em "As Praias de Agnès" é a maneira como o filme mergulha na evocação e na nostalgia sem ficar cativo delas, permanecendo sempre vitalista.

Há já algum tempo que Agnès Varda se fez protagonista do seu próprio cinema. Nos "Respigadores e a Respigadora", o seu último filme estreado em Portugal, havia uma sequência onde realçava a continuidade entre as suas mãos e a pequena câmara digital que lhe permitia fazer o filme da maneira como o fez - uma espécie de reinvenção da "camera-stylo", onde o acto de filmar se torna verdadeiramente indissociável do sujeito que filma e existe uma relação física semelhante à do escritor com a sua caneta ou à do arquitecto com a sua lapiseira. Nesse sentido, "Os Respigadores e a Respigadora" lançava um dilema parecido com o do ovo e da galinha: Varda centrava o filme em si própria porque a relação com a câmara a impelia a fazê-lo ou usava aquela câmara porque ela lhe respondia à necessidade de se voltar sobre si própria?


Um pouco das coisas, com certeza, se nos lembrarmos que a dimensão pessoal (num sentido "patrimonial" e emocional) é uma constante da obra de Varda desde há perto de vinte anos, quando filmou, em 1991, "Jacquot de Nantes", a história da vida de Jacques Demy (1931-1990), seu marido e parceiro de muitos anos. No cinema a fronteira entre o "auto-retrato" e a "autobiografia" é quase sempre turva, mas nos "Respigadores", e exactamente pelas razões apontadas, pressentia-se que a autobiografia de Varda estava perto. Autobiografia em sentido literário, como a do escritor que relata a sua vida, sem máscaras nem projecções de ordem ficcional, servindo-se do seu próprio punho.

Ei-la, a autobiografia de Agnès Varda, relato da sua vida, em seu nome e feita pelo seu próprio punho. Varda, que se estreou como realizadora há cinquenta e cinco anos, tem agora oitenta e um anos cheios de energia e de memórias. A primeira coisa maravilhosa de "As Praias de Agnès" é a maneira como ela põe a energia ao serviço das memórias, a maneira como o filme mergulha na evocação e na nostalgia sem ficar cativo delas, permanecendo sempre vitalista.

Evidentemente, preservando o direito à emoção - o equilíbrio do filme também se joga assim, naqueles "buracos" por onde subitamente Varda se parece afundar (como numa sequência numa exposição de fotografias em que a realizadora parece ficar esmagada pelas imagens de tantos amigos mortos) para logo a seguir reemergir nalgum "sketch" burlesco (a cena com os escritórios da sua produtora, a Cine-Tamariz, "transplantados" para o meio da rua, por exemplo). Ao mesmo tempo, e se é de "emoção" que se trata, o centramento de "As Praias" na primeira pessoa não impede que o filme - e que "a primeira pessoa" - esteja permanentemente voltada para os outros, numa saudação, melancólica, algumas vezes elegíaca, aos lugares que lhe foram caros, aos amigos e aos amores (especialmente tocante, por todas as razões, o segmento que evoca e, para todos os efeitos, visita Jacques Demy).

Filmar uma vida é filmar um património, não é outro o credo de Agnès Varda. Um património onde cabem, quase num mesmo plano, memórias, objectos, lugares, e ainda "memórias de memórias" ou memórias transformadas em "objectos" - todas as fotografias, todos os excertos dos seus próprios filmes antigos que Varda que vai incluindo. Mais do que o filme de "bricoleuse" que obviamente é, pegando em múltiplos registos e em múltiplos materiais de natureza diferente, "As Praias de Agnès" é um filme de "coleccionadora". O filme em que ela abre as portas do seu museu privado conduzindo o espectador numa visita guiada, por entre peças que valem tanto por si mesmas como pelos fios que as ligam a outras peças. De vez em quando, um "intermezzo" ligeiro, anódino, gratuito, vem pontuar a visita - sem momentos destes, parece dizer Varda, a vida não tinha graça nenhuma. E é preciso guardá-los, talvez porque nunca se saiba quando chega o "corte" derradeiro: o abrupto final de "As Praias" é uma espécie de prenúncio, de despedida discreta, majestosa e enxuta. Mas enquanto não chega o fim da história, celebrem-se as alegrias e as tristezas, os amores perdidos e os amores eternos. Chamem-lhe uma "lição de vida".

Em preambulo a "As Praias de Agnès" exibe-se "A Felicidade", uma curta-metragem muito curta (7 minutos) de Jorge Silva Melo. Um pai e um filho de automóvel a caminho do hospital. O pai é Fernando Lopes, um "natural". É a história de uma despedida em "fundido a negro" e durante o caminho aprendemos que a felicidade é um (belo) travelling lateral sobre o mar, estranhamente parecido com aqueles filmes italianos de antanho onde havia praias, "Vespas", cançonetas e grupos de miúdos a ver se agarravam o Verão.

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