Muitos revolucionários da Nicarágua sentem-se traídos pela revolução

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OSWALDO RIVAS/REUTERS

Daniel Ortega liderou a revolta contra a ditadura de Somoza e foi o rosto da esquerda na América Latina no final da Guerra Fria. Voltou ao poder e hoje alia-se aos conservadores

A Ele tem a idade da Revolução Sandinista, 30 anos. O pai acreditava tanto na revolução que lhe deu o nome de um herói comunista - a dobrar. "O meu pai ainda acredita", diz Marx Lenin Martinez, que estuda Informática. "Admiro os princípios da revolução, mas hoje os sandinistas são políticos como os outros."A 19 de Julho de 1979, um jovem comandante da guerrilha nicaraguense, idealista e com um farfalhudo bigode negro, ajudou a derrubar uma ditadura cruel e captou a imaginação do mundo. Três décadas depois, mais velho e não necessariamente mais sensato, o Presidente Daniel Ortega repele muitos dos que o seguiram e deixa outros sem saber o que pensar. Embora ainda abundem fiéis da revolução como Mario, o pai de Martinez, é comum encontrar desiludidos da revolução - que consideram o sandinismo actual uma má cópia da revolução. "Uma farsa", nas palavras da escritora Gioconda Belli.
Os antigos líderes da revolução sandinista acusam Ortega de estar a voltar atrás em muitas conquistas da revolução, e a usar a presidência para expandir as suas finanças e a sua influência. Os críticos dizem que Ortega e as suas forças têm perseguido políticos da oposição, dissidentes e jornalistas independentes, enquanto o líder faz acordos com antigos inimigos.
Ortega criou uma espécie de "co-governação" com a sua mulher, Rosario Murillo, que nunca foi eleita. Ele tem beneficiado dos milhões de petrodólares do Presidente venezuelano Hugo Chávez. Algum desse dinheiro é usado para programas sociais populistas, mas perde-se o rasto à forma como é gasto. As eleições municipais do ano passado, ganhas pelos apoiantes de Ortega, foram consideradas fraudulentas. E ele começou a explorar maneiras de modificar a lei de forma a suceder a si próprio em 2011.
"A revolução está morta e enterrada", diz a activista veterana Sofia Montenegro. "Tanto esforço, tantas vidas sacrificadas para criar a democracia, uma Constituição, eleições... uma herança que estão a destruir."
A revolução terá sempre o seu lugar na história. Transformou a Nicarágua na maior oposição a Washington na América Latina, durante a Administração Reagan. E trouxe mudanças fundamentais num país onde os cidadãos deixaram de ser tímidos a reclamar os seus direitos. Mas muitos temem que Ortega faça mergulhar o país numa pobreza profunda e imponha uma agenda divisiva que leve à violência.
Dora Maria Tellez, que foi comandante do dissidente Movimento de Renovação Sandinista, ataca o Orteguismo, as pessoas que mantêm o poder nas mãos do Presidente e da sua família. Ortega usa retórica anti-imperialista para dar uma patina de esquerda ao Governo, enquanto faz cedências aos sectores mais conservadores. Exemplo: Ortega forjou uma aliança improvável com a Igreja Católica, com o cardeal Miguel Obando y Bravo, antes um feroz crítico dos sandinistas. O Presidente, que antes era um campeão dos direitos das mulheres, mostrou-se a favor de tornar ainda mais dura a lei sobre o aborto.
Revolta popular
Em Julho de 1979, Ortega e os sandinistas lideraram uma revolta popular contra o ditador Anastasio Somoza. Era a primeira vez, desde a revolução cubana, que um povo das Américas se levantava para derrubar uma ditadura. Os sandinistas governaram o país durante a década seguinte, e lutando contra os rebeles apoiados pelos Estados Unidos, durante a última década da Guerra Fria.
Ortega convocou eleições em 1990 e, surpreendentemente, perdeu-as. E em tentativas sucessivas, falhou em regressar à presidência. Em 2006, ganhou, mas apenas com 38 por cento. O seu regresso ao poder envolveu um acordo com o antigo Presidente Arnoldo Alemán, condenado a 20 anos de prisão por fraude e lavagem de dinheiro. Ortega terá prometido o perdão a Alemán, se este apoiasse os sandinistas.
Até sandinistas do coração, como o pai de Marx Lenin, se sentiram desconfortáveis com El Pacto. Mas acabaram por aceitá-lo. "A alternativa seria a direita continuar no poder", diz Mario Martinez, de 50 anos, na casa de três assoalhadas em que vive há 25 anos. Filho de um vendedor ambulante, conta que os seus filhos puderam chegar a engenheiros graças à revolução.
Já para Marx, as memórias da revolução têm mais a ver com as roupas que não podia comprar e o serviço militar obrigatório que fez com que o seu pai estivesse ausente de casa quando ele era criança.
Na década de 1980, Manágua era uma cidade que parecia apenas casca: o miolo tinha sido destruído por um sismo. Erros de gestão dos sandinistas e o embargo americano faziam que com que as lojas tivessem apenas prateleiras vazias e houvesse longas filas nas bombas de gasolina. Hoje, o centro da capital afastou-se uns quilómetros mais para Norte, ao longo de uma avenida ladeada de restaurantes, estações de serviço ao estilo americano e centros comerciais. Os cruzamentos estão ancorados em casinos. Mas a Nicarágua continua a ser um dos países mais pobres da América Latina.
Os sandinistas abandonaram a sua bandeira negra e rubra por algo que só se pode descrever chamando-se um rosa fúcsia. Cartazes rosa vivo com o retrato de Ortega mostram que El Presidente é o mesmo que El Pueblo. Mas nem todos concordam.
"Andámos para trás", diz Ana Quiros, sandinista de há muito e activista pelo direito ao aborto. "Estão a tirar-nos direitos e liberdades. Fizémos um círculo completo, de volta à ditadura", acrescentou Montenegro. "Estamos a lutar pelas mesmas coisas que lutávamos há 30 anos." Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post