Crítica

O Irão de Shirin Ebadi

Por que é que os iranianos saíram à rua numa "revolução verde"? A resposta está em "A Gaiola de Ouro", da advogada que em 2003 ganhou o Nobel da Paz

Esta é a história de Abbas, de Javad e de Ali, mas é também a história da "nobre Pérsia e do desventurado Irão". Esta é a história de uma família e de uma nação "desfeitas, dilaceradas, destruídas pelo ódio político trazido como um vento maléfico pela revolução islâmica".

Depois de lerem "A Gaiola de Ouro", disse ao PÚBLICO a autora, Shirin Ebadi, "vão compreender as razões por detrás da fúria do povo contra o governo, e porque milhões de iranianos foram para as ruas protestar". A ira popular "não foi motivada apenas pelas eleições mas pelo que se passa neste país nos últimos 30 anos", acrescentou a advogada que recebeu o Nobel da Paz em 2003.

O livro de Shirin Ebadi, proibido no Irão, só podia começar no cemitério de Kharavan, onde o regime dos "mullahs" enterra os seus "traidores". Não é difícil de imaginar que as valas comuns neste lugar onde os mortos não têm nomes, nem campas nem flores tenham voltado a encher-se nos últimos dias de repressão. Assim como se voltaram a encher as prisões e as celas de isolamento ou de "tortura branca".

Os relatórios e imagens mais recentes divulgados pela Amnistia Internacional e pela Human Rights Watch não são muito diferentes da descrição que Ebadi - a primeira mulher juíza no Irão mas impedida de exercer o cargo - faz da sua própria detenção. "A porta fecha-se atrás de mim com um clique seco", escreveu. "Encontro-me num compartimento de três metros por dois. Quatro paredes cinzentas e lisas, sem escritos. Do tecto pende uma lâmpada de luz fraca. Não há janela. O pavimento está coberto por uma alcatifa impregnada de pó e excrementos. (...) Não há nenhum ruído à minha volta, nenhum lamento, nenhuma respiração." (Pp 61-64)

Os destinos de Abbas, de Javad e de Ali foram mais funestos. Javad, por exemplo, saiu da infame prisão de Evin para o cemitério de Kharavan. Queriam forçá-lo à humilhação de passar pela "rampa do arrependimnento", mas ele manteve-se fiel às suas convicções. Militante do Tudeh, o partido comunista que ajudou Khomeini a derrubar o Xá Mohammed Reza Pahlavi para depois ser aniquilado pela revolução islâmica, Javad é uma das "personagens" mais tocantes do livro de Ebadi.

Ninguém ficará também indiferente ao fim trágico de Abbas, um general tão leal ao imperador que, quando este se exilou, tudo à sua volta ruiu. A viver nos EUA sem poder regressar, perdeu os bens, confiscados no Irão, perdeu a mulher, que morreu de cancro, e perdeu a vida, quando se suicidou ao descobrir o segredo do seu filho mais querido.

Inesquecível é igualmente a figura de Ali, o irmão mais novo de Abbas e de Javad. Fiel devoto de Khomeini, apercebe-se de como o regime traiu as suas promessas, quando vai trabalhar para os serviços de segurança depois de a sua mulher e único filho terem sido mortos durante a guerra com o Iraque. Tal como o "ayatollah" seu mentor, Ali pediu asilo político à França, mas como ele próprio dissera quando era um "revolucionário", para justificar os condenados e os executados em nome de Deus: "A República Islâmica não faz nada sem uma razão". A brutalidade com que o mataram impressiona.

Finalmente, temos Pari, a irmã de Abbas, de Javad e de Ali. Médica e professora universitária, resistiu a não deixar o país, mas que podia fazer depois de ter sido despedida e de o seu consultório ter sido completamente vandalizado (em cima da secretária colocaram a cabeça cortada de um cão, estilhaçaram vidros, rasgaram cortinas, danificaram instrumentos, pisaram comprimidos, espremeram tubos de pomada pelos móveis e pelo cão, queimaram o certificado de licenciatura? (pp 207 e 208).

Foi Pari, destroçada com o seu drama familiar, que pediu à melhor amiga, Shrin Ebadi, um livro em memória dos três homens para quem a "gaiola de ouro" nunca se abriu.

Observações:1) De onde veio a ideia de traduzir "mullah" por "mulla", quando se optou por "ayatollah" em vez de "ayatolla"? Ou se uniformizavam ambas as expressões com "h" ou se adoptava "mulá" e "aiatolá".
2) E onde está a lógica de colocar o título imperial no final dos nomes próprios? Será Mozaffar-addin Xá, Ahmad Xá e Reza Xá Pahlavi? Ou Xá Mozaffar-addin, Xá Ahmad e Xá Reza Pahlavi?
3) O tradutor perdeu a oportunidade de enriquecer este livro com notas de rodapé, uma vez que nem sempre a autora descodifica os termos persas usados. Logo de início, quando ela fala nos "golpes dos pasdaran" o leitor deveria ser informado que se trata dos Guardas da Revolução porque só páginas à frente será elucidado. Nas referências à culinária iraniana, seria interessante conhecer mais detalhes. Que o "falude" ou "faloodeh", por exemplo, é um gelado persa que remonta ao ano 400 a.C. Ou que o "sumac" é um pó vermelho e ácido que no Ocidente serve de ornamento mas no Médio Oriente faz as delícias dos cozinheiros devido ao seu gosto ácido de fruta silvestre.