Crítica

Ele é o rei deste Verão

O mais surpreendente compositor, cançonetista, humorista e anti-ícone pop nascido nesta desamada pátria nos últimos muitos anos

O segundo disco de João Coração é um tratado pop onde cabem Talking Heads, Gainsbourg, palmas, coros desbragados, órgãos "kitsch", westerns, luso-honky-tonks e as canções que vão ganhar o Festival da Eurovisão. É o rei do charme tuga, é o disco pop deste Verão.

E o génio anuncia-se assim: uma caixa de ritmos de som parolo em compasso latino, uma slide-guitar nos agudos a traçar gestos de melancolia crepuscular, um órgão retro a ecoar nostalgias, a voz quase sussurrada cheia da patine dos grandes sedutores, uma linha de baixo que insidiosamente faz baloiçar os ombros, um segundo órgão retro tão cheio de adiposidades "kitsch" que quase parece saído de um porno sueco dos anos 70, e no fim um enternecedor solo de órgão desvairado que consegue errar 25 por cento das notas. Isto é "Canção para ficar", a extraordinária canção de fim de amor, fim de Verão, fim de qualquer coisa que abre "Muda que Muda", segundo disco de João Coração. E basta este exemplar do melhor do Festival da Eurovisão ou da Feira da Brandoa para sabermos que já não pode haver mais espaço para as dúvidas aborrecidas que gente cheia de poeira na cabeça tem em relação ao mais surpreendente compositor, cançonetista, humorista e anti-ícone pop nascido nesta desamada pátria nos últimos muitos anos.

Se não estiveram atentos, fazemos o resumo: de entre a fornada de discos que a FlorCaveira (a editora que é uma espécie de Belém da pop portuguesa, tantos são os marginais abençoados que faz nascer) editou no último ano e picos, "Nº1. Sessão de Cezimbra", o disco de estreia de João Coração, era o mais estranho e mais ambíguo. Apresentava um rapaz de barba longa, criador de baladas vagabundas e românticas, rodeado de vibrafones, trompetes, harmónicas, melódicas, acordeão, braguesas. Era um disco de fumos e fundos de poço e foi recebido com a) entusiasmo (por parte de gente boa e que sabe o que é bom); b) sarcasmo (por parte de miudagem alérgica a portugueses que não são humildezinhos e bem comportados); c) condescendência (por parte daquela elite de intelectuais sempre pronta a fazer um sorriso complacente com tudo o que não compreende, de modo a não se comprometer com nada). "Nº1. Sessão de Cezimbra" tinha muitas qualidades (uma escrita no fio da navalha, pose, melodias, arranjos) e um ou outro defeito (alguma indulgência numa mão cheia de canções), mas revelava um autor com uma ideia de canção em que a melodia é rainha mas só se estiver bem acompanhada pelas aias da harmonia, um autor clássico com um fétiche por sons retro e instrumentos alheios à história do rock, um autor capaz de caminhar aquela linha entre o glorioso e o ridículo, a mesma que Tom Waits e Gainsbourg percorreram vezes sem conta. Não usamos a comparação de forma gratuita (mesmo sabendo que os cínicos se entregarão à sua habitual e castiça zombaria): o Waits do início parecia ser a sombra tutelar de "Nº1. Sessão de Cezimbra", da mesma forma que Gainsbourg surge como totem sem tabu em "Muda que Muda".

Tal como "Nº 1", "Muda que Muda" tem duas ou três canções que ainda não estão acabadas. Tal como "Nº 1", "Muda que Muda" tem uma mão cheia de grandes canções, só que com uma diferença: enquanto as do primeiro disco demoravam a desvelar-se na sua imensa tristeza, estas são imediatas e compulsivas.

Mas "Muda que Muda" tem mais que isso, a começar por um humor muito próprio, ambíguo, visível logo na capa, uma espécie de gozo aos Michaeis Carreiras e Julios Iglesias. (E é por coisas destas, por este humor que não se esforça minimamente por mostrar aos outros que é efectivamente humor, que Coração perde muitos ouvintes dentro daquela classe de aspirantes a intelectuais de alpaca que ainda tem algumas dificuldades de interpretação. Pura e simplesmente essa gente não sabe onde encaixar Coração.) O humor continua na foto do libreto que apresenta Coração de calções de banho betos, tronco nu peludo e guitarra acústica, e vai ao ponto de roubar o ícone do casalinho dançante dos discos de Leonard Cohen, passando pelos falsetes e uhs e ahs que povoam este disco estival. Mas o que importa são as canções e cinco em nove são extraordinárias - sendo que quatro estão logo a abrir. A "Canção para ficar" segue-se "Passo a passo", que é Gainsbourg lo-fi: uma guitarra acústica, um órgãozinho ié-ié, aquela vozinha melosa a anunciar que "Vai ser um dia de calor", e depois o genial truque: piano, órgãos (Moog e Hammond) e uma voz desafinada de menininha coquete e virginal. Aquela voz feminina no refrão é uma lição pop: menos é mais, mal feito é bem feito, no erro é que se acerta. Canção pop perfeita em qualquer parte do mundo civilizado, e até mesmo em sítios suspeitos, como Lisboa.

Canção 3, homónima ao disco: abre com guitarrinha picada, percussão ao trambolhão e uma óptima melodia de harmónica no refrão. Depois há trompetes e coros e uma bela melodia em ascensão. João canta: "A pior raça é de quem vive atrás da coerência/ vê na verdade matemática e no céu ciência". E depois a charanga torna-se por quatro compassos homenagem ao "Road to Nowhere" dos Talking Heads e - guitarras, harmónica, coros, palmas, gritos de "hey", trompete melosa, tudo e todos numa festa magnífica - canta-se "Vou a caminho de nada, entrem comigo".

"Abalada Farewell" é o fim de quarteto de ouro, uma balada folk com Fender Rhodes que se alteia num belíssimo refrão debruado a guitarra slide. A partir daqui o disco só volta a este nível magnífico em "Cadeiras ocidentais", luso-honky-tonk servido por banjo, mais órgãos retro e uma grande interpretação de voz que depois abre num estupendo refrão cheio de coros e mudanças de ritmo. De entre as canções que não são singles óbvios, destaque para "O avesso do começo", espécie de western para assobio, harmónico e falsete. A "Sofia" falta definição melódica e a muito, muito bela "Istambul ou Budapeste" (que lembra Chico Buarque) tem o defeito de arrancar abaixo do que o resto da canção vem a ser. Mas o que interessa é que neste disco com cheiro a maresia, para ser ouvido com Martinis numa mão e uma garota na outra, entre meloas e marisco, descobrimos um Gainsbourg da Arrábida, a resposta portuguesa ao tédio burguês à francesa, as canções que vão ganhar os próximos Festivais da Eurovisão ou a banda-sonora do próximo Wes Anderson. Ao leitor pede-se pouca poeira na cabeça. A João Coração peçam-lhe tudo.