Morreu a coreógrafa das emoções absolutas

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A Pina Bausch devemos alguns dos momentos mais duros - e mais belos - da dança. Tinha 68 anos

Há pouco mais de uma semana, Pina Bausch ainda subiu ao palco do Teatro de Wuppertal, cuja companhia de dança dirigia desde 1973. Há cinco dias tinha sabido que sofria de cancro. Morreu ontem, aos 68 anos. Poucas obras terão alargado tanto os horizontes da dança.

Filha do proprietário de um restaurante e hospedaria na pequena cidade alemã de Solingen, onde nasceu em 1940, Philippine Bausch, começou a ter aulas de ballet ainda em criança. Mas não é certo que, para o que veio a ser o seu percurso artístico, esses anos em que aprendeu a dançar em pontas tenham sido mais relevantes do que as muitas horas diárias que passava a observar os fregueses da pensão paterna. "O que faço não é uma arte nem uma ciência, é a vida", disse a coreógrafa, quando o seu trabalho já era admirado em todo o mundo e ela própria tinha recebido todos os prémios possíveis.

Aos 15 anos, Bausch vai estudar dança na escola Folkwang, do coreógrafo Kurt Joos, que irá ser o seu grande mentor. Terminado o curso, segue para os EUA e para a prestigiada Juilliard School of Music, em Nova Iorque, onde terá como professores José Limón e Antony Tudor. A pedido de Kurt Joos, regressa à Alemanha em 1962 para dançar como solista no grupo de dança da Folkwang que o coreógrafo acabara de criar. Nos anos seguintes será sobretudo bailarina, mas, em 1968, estreia-se como coreógrafa com Fragment, assumindo pouco depois as funções de directora artística e coreógrafa da companhia.

Um momento decisivo da sua carreira chega em 1973, quando é convidada a dirigir a Companhia do Teatro de Wuppertal. Foram anos cruciais, mas também difíceis. Pina Bausch chocou o público, a crítica, e até os intérpretes, com peças onde os bailarinos podiam correr pelo palco, falar, gritar, ou repetir até à exaustão o mesmo movimento. Os espectadores deixavam a sala e a crítica vociferava que aquilo não era dança.

Para o coreógrafo português Paulo Ribeiro, um dos aspectos mais admiráveis da coreógrafa é a sua "determinação", que a levou a nunca desistir da sua linguagem, mesmo quando esta foi quase unanimemente rejeitada. E essa coragem e integridade acabaram por ser recompensadas. Bausch tornou-se um dos nomes mais respeitados da dança contemporânea, e também uma artista de grande público.

Uma santa com patins Pina Bausch fazia muitas digressões, mas nunca abandonou Wuppertal, uma pequena cidade na região mais industrializada da Alemanha. Essa sua vida rotineira, a par da extrema timidez que a caracterizava, leva Paulo Ribeiro a pensar em Fernando Pessoa. Mas, ao contrário do poeta, Bausch ainda viveu para ver reconhecida a qualidade do seu trabalho.

Nos coreógrafos da geração de Pina Bausch, Ribeiro não vê ninguém que tenha operado uma ruptura tão forte. No entanto, se os incómodos trabalhos de Bausch chocaram um mundo que, nos anos 70, vivia uma época de razoável optimismo, já a sua obra mais recente - produzida num tempo francamente depressivo - mostra uma coreógrafa mais suavizada, autora de peças de grande beleza e dimensão lírica. "E até mais convencionais", sugere Paulo Ribeiro, notando que Bausch "trabalhou sempre em contraciclo". Sabia mostrar a violência e o confl ito com o mesmo rigor e intensidade com que dava a ver um gesto terno e subtil. Era sempre de emoções absolutas.

Em Portugal, apresentou-se pela primeira vez em 1989, nos Encontros Acarte, com Auf dem Gebirge hat man ein Geschrei gehört (Ouviu-se um grito vindo dos montes). Regressou em 1994, quando Lisboa foi Capital da Cultura, com Café Müller, A Sagração da Primavera, Kontakthof, 1980 e Viktor.

Na Expo-98, Mega Ferreira convidou- a para uma residência artística que culminaria com a criação de uma peça sobre Lisboa, Masurca Fogo (ver texto ao lado). Voltou ainda várias vezes a Portugal: em 2003 trouxe Água, em 2005 apresentou Nelken e Ten Chi, e em 2007 levou ao Teatro Camões a peça For the Children of Yesterday and Tomorrow. A atenção que a coreógrafa sempre dispensou ao público português foi retribuída em 2008 com um Festival Pina Bausch, co-organizado pelo Centro Cultural de Belém e pelo Teatro S. Luiz, que deu a ver Nefés e permitiu rever Masurca Fogo e Café Müller.

Como todas as fi guras absolutamente singulares, Pina Bausch resiste às defi nições. Mas Fellini, que lhe deu um papel em O Navio, deixou-nos uma bela tentativa: "Uma monja com um gelado, uma santa com patins, um rosto de rainha no exílio, de fundadora de ordem religiosa, de juíza de um tribunal metafísico, que de repente nos pisca o olho..."