Na berma do progresso

Eis um filme que tem tudo para ser bem recebido em Portugal, país onde o "progresso" tem tendência a ser medido em quilómetros de auto-estrada. Enfim, não será só em Portugal, mas aqui a fúria auto-estradista é recente e ainda não totalmente desvanecida. Se o leitor, ao cavalgar pela A1 ou pela A2 ou por outra A-qualquer, alguma vez deu por si a interrogar-se sobre se aquelas casitas que vai encontrando nas imediações já lá estavam antes ou se são dalgum louco que resolveu ir viver com vista para a auto-estrada, este filme dirige-se à sua curiosidade. Porque, pondo-o simplesmente, é um filme sobre o que existia antes da auto-estrada, e sobre como o que existia antes passou a viver com a auto-estrada.


Explicando melhor a situação - quase minimalista - de "Home - Lar Doce Lar", primeira longa-metragem da suíça Ursula Meier, temos uma família que escolheu ir viver para o campo, numa vivenda isolada de tudo. A mãe é Isabelle Huppert, o pai é Olivier Gourmet (que conhecerão dos filmes dos Dardenne), e têm três filhos, duas raparigas e um rapaz, adolescentes. O sossego é total, a família é feliz e unida. Até ao dia em que é construída uma auto-estrada que passa mesmo à porta daquela vivenda. E pior, chega o dia em que a auto-estrada é inaugurada, e a família ouve, com resignado desconsolo, a euforia de uma rádio local que anuncia que agora sim, a vida vai-se tornar mais fácil para toda a gente.

Numa entrevista, Ursula Meier descreveu o seu filme como um "road movie em reverso". Faz sentido, se entendermos por tal um "movie" que não saia da berma da "road". É aí que estamos desde o momento em que o filme arranca, na berma da auto-estrada, na berma do "progresso", numa espécie de fábula absurda sobre a inevitabilidade da "vida moderna" - estejas onde estiveres, ela vai ter contigo, já não se pode ser eremita em paz. Já não se pode ser eremita, ponto. Mas pode-se insistir, pode-se "resistir". Com ironia e um sentido de humor angustiante, Meier descreve a "resistência" daquela família, que não abdica assim tão facilmente do seu bucólico isolamento e tenta, com estoicismo, continuar a viver como se a auto-estrada fosse uma casualidade, um leve estorvo que deixa de existir se se fingir que não existe. É por aí que o filme acaba por fugir um bocadinho a estas premissas, e como que acompanhando o fingimento das personagens acaba por se centrar na família e nos sinais da loucura (emparedam-se...) em que a sua resistência se vai tornando, como se a auto-estrada se convertesse em metáfora, em elemento perturbador que vem desequilibrar o que dantes parecia unido e harmonioso. Até uma conclusão lógica, e por isso "perfeita", ou "redonda", conforme se prefira salientar a virtude ou o vício de uma estrutura circular.

De qualquer modo, o mais entusiasmante está no modo notável como Meier filma a proximidade entre aquelas personagens e a violência física, visual e sonora da auto-estrada e do incessante fluxo de tráfego. Auto-estradas e automóveis: coisa corriqueira da vida moderna de todos os dias. Nalgumas cenas, nalguns planos, nalguns "gags", numa banda de som carregadíssima (mas sempre estranhamente "realista"), o filme de Meier evoca, sem necessariamente ficar a perder, alguns filmes célebres que usaram o automóvel como maneira de destapar o "corriqueiro" da vida moderna para criar uma luz que ilumina a violência que sob ele se esconde. Os automóveis-besouro do "Crash" de Cronenberg, os engarrafamentos-instalação do "Weekend" de Godard ou do "Playtime" de Tati. O "progresso" medido em quilómetros de auto-estrada, em toda a sua insidiosa inescapabilidade.

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