Woody Allen volta a Nova Iorque (e aos seus judeus-tipo) com a ajuda de Larry David

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O protagonista de “Whatever Works”, novo fi lme de Allen, parece ser uma síntese do realizador e David: um cínico, um céptico, um auto-alienado

Larry David garante que é um homem tão azedo quanto aquilo que mostra na série "Calma, Larry". E também é frontal quanto às reservas que tinha em relação a participar no novo filme de Woody Allen, que marca o regresso a Nova Iorque do argumentista/realizador. "Achei o argumento brilhante", explica ao "Los Angeles Times" em vésperas da estreia de "Whatever Works" nos EUA. "Mas tinha as minhas dúvidas sobre se conseguia ou não fazê-lo. Porque não é o tipo de coisa que normalmente faço. Geralmente, faço de mim mesmo", constata.

Mas o protagonista de "Whatever Works" parece ser uma síntese de Allen e David: um cínico, um céptico, um auto-alienado. "Whatever Works" é a história de um cientista outrora candidato ao Nobel, Boris Yellnikoff, que vive alegremente só em Nova Iorque após um divórcio e que despreza quase tudo e todos, convencido que só a sua mente iluminada conhece o sentido da vida, da mecânica quântica e da importância de viver na sua bolha organizada, meticulosa e pouco sociável. Eis que entra em cena uma jovem, interpretada por Evan Rachel Wood, e tudo muda.

A colaboração David/Allen é uma nova investida americana na Nova Iorque pelo periscópio do judeu. Mas a cultura judaica americana mudou. Os judeus agora dão cartas, são "insiders" e fazem a sua própria comédia. As personagens-tipo de Allen eram "outsiders", frutos de uma cultura focadíssima no pós-Holocausto, no seu iídiche e numa vida "kosher". Agora há o Judd Apatow "boy" Seth Rogen, que está em quase todos os filmes de comédia recentes, Ben Stiller ganhou há um par de semanas o Prémio Gerações da MTV e Sarah Silverman é a rainha da comédia viral "online". O guião de "Whatever Works" tem 40 anos e hoje, com toda uma fornada de comediantes de origem e "praxis" judaica na primeira linha do entretenimento (Jon Stewart, Jerry Seinfeld, Larry David), o filme e as suas temáticas do judeu neurótico arrisca-se a parecer... de época. Woody Allen "está a ficar velho. Está a ficar nostálgico. Está preso numa dada época", comenta no "Guardian" Al Nigrin, professor de Cinema na Universidade Rutgers. "Em breve surgirá uma geração de judeus cujas mães cresceram a ver a MTV", comenta Robert Thompson, director do Centro Bleier para a Cultura Popular, no "Guardian". "Whatever Works" ainda não tem data de estreia em Portugal.