Os Smix Smox Smux fazem rock a ver o Portugal no Coração

Smix Smox Smux
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Smix Smox Smux SUSANA JESUS

O álbum de estreia dos bracarenses tem canções que fogem ao politicamente correcto, que exploram o nonsense, que louvam o "Uísqui" e o aquecimento global porque, com ele, "finalmente há praia em Braga". Humor desconcertante, rock empolgante.

O concerto está no "encore" e Palas, o vocalista e guitarrista que aguenta estoicamente a terceira guitarra da noite (na primeira metade da actuação foram-se as cordas de duas), manda toda a gente subir para palco. Toda a gente sobe. Toda? Não. Um par de incautos mantém-se na plateia e Palas exorta: "O que é que estão aí a fazer?! Vamos tocar uma música com tudo cá em cima, ninguém em baixo". O par de incautos acede. Toca-se a canção, o pessoal salta, a banda toca, o pessoal rodeia Palas, abraça Palas e a terceira guitarra da noite, por momentos, deixa de se ouvir. Rock'n'roll, pois claro.

É certo que o espaço, o Santiago Alquimista, em Lisboa, esteve longe de esgotar - fosse em Braga e a história seria outra -, mas o cenário tinha o seu quê de bizarro. E emblemático. Festa em palco, plateia vazia. Todos do mesmo lado. Faz sentido: os Smix Smox Smux têm essa coisa punk de falarem das coisas de forma directa e inteligível, têm esse lado mui rock'n'roll de fazer música que pede dança acelerada (e individual, que isto não dá para pares enrolados).

Este trio que edita agora o seu primeiro álbum, "Eles São os Smix Smox Smux", cria música eléctrica que entusiasma e põe lá dentro histórias e personagens contadas e tratadas com humor desconcertante - nunca nos tínhamos lembrado disto assim, mas todos reconhecemos o que passa: de telemóveis modernaços ao aquecimento global, das Famel Zundapp dos subúrbios ao revivalismo urbano dos anos 1980. E então, no Santiago Alquimista, dia 19 de Junho, lá estava a banda a cantar "eles são os Smix Smox Smux" e o pessoal a repetir "eles são os Smix Smox Smux". Tudo no palco. Ninguém na plateia. A música é deles, mas estamos todos juntos nisto. Uma festa.

Na casa de banho com...

Horas antes, entrávamos nos bastidores da sala para entrevistar o trio. Espaço devidamente caótico, ou não fosse partilhado por três bandas - os Smix Smox Smux e também os Deserto BrancoA Armada, que asseguraram a primeira parte do concerto. A entrevista, numa decisão sensata, decorreu então no único espaço onde imperava algum silêncio. Esse: a casa de banho. E é ali, entre a aparição de um amigo da banda, armado com um "bongo" imponente, e de um dos Dirty Two, a dupla de DJs bracarense que, naquela noite, se ocupou dos pratos, que ouviremos o baixista José Figueiredo (o Smix) definir a música de "Eles São os Smix Smox Smux". Coisa séria: "um grito sarcástico em relação à sociedade de consumo". "Mas feita por alguém que está por dentro. Também a aproveitamos, também somos vítimas dela", apressa-se a acrescentar Filipe Palas (o Smox). Certamente. Ouça-se "Animal vegetal". Vozes em falsete pós-punk e bateria em modo dançante: "Não faço nada / Às quatro da madrugada / Não faço nenhum / Ao meio dia e cinquenta e um / Fico no sofá / A ver televisão / Crio raízes / Enquanto vejo o Portugal no Coração". A classificação de José Figueiredo é, claro, uma análise a posteriori. Como nos diz o baterista Miguel Macieira (o Smux), "isto é música para fugir ao aborrecimento do nosso dia-a-dia". São, dizemos nós, canções que fogem ao politicamente correcto, que exploram o nonsense, que louvam o "Uísqui" ("quanto mais velho melhor, quanto mais cedo melhor") e o aquecimento global porque, com ele, "finalmente há praia em Braga": canções que abordam "temas estúpidos que estão à nossa frente e de que ninguém fala" - a eloquência é de Filipe Palas, ele que recusará qualquer referência específica para aquilo que cantam. Resume-o assim: "tradição oral e o sotaque de Braga".

A tentação é concentrarmo-nos no humor, no sarcasmo e nas referências das letras, e esquecermo-nos do resto. Esquecermo-nos que, como testemunhámos no concerto no Santiago Alquimista, os Smix Smox Smux são um portento rock'n'roll de riffs empolgantes e secção rítmica certeira. O som é cru, mas cabem ali os crescendos sónicos dos Pavement ou o gingar do funk (via pós-punk, entenda-se), numa dinâmica de power-trio que, ao vivo, se torna irresistível - os longos discursos de Palas, extensão improvisada daquilo que canta no álbum, são um extra.

"As pessoas têm na cabeça o mito que, tocando apenas com um baixo, uma bateria e uma guitarra, é simples fazer canções. Completamente mentira", acentua José Figueiredo. "Quanto menos dispositivos estão disponíveis, mais temos que fazer com cada um para que se integrem e funcionem uns com os outros". O baixista saberá do que fala. Toca também nos Peixe:Avião, banda de uma sensibilidade absolutamente diferente - tem órgãos e sintetizadores, tem vários elementos contribuindo para uma massa sonora cuidadosamente texturada. Aliás, os Smix Smox Smux tocam muito há muito tempo, ponto. Estiveram no passado em várias bandas e até se encontravam como membros de algumas delas. Há alguns anos, reuniram-se em trio. Clandestinamente, o que soa adequado: "O Zé tinha as chaves de uma escola de música e íamos para lá tocar às duas da manhã", conta Miguel Macieira. Nessa altura, eram uma banda substancialmente diferente. A abordagem era a mesma, mas tocavam com guitarra acústica, bateria com vassouras e contrabaixo. Deixaram-se disso. Electrificaram-se e deixaram a clandestinidade.

Observam a rua, observam os outros e a si próprios e cantam-nos tudo o que isso lhes diz - de forma inesperada, que nunca nos lembrámos de dizê-lo assim. Naturalmente. Afinal, nós somos nós. Eles são os Smix Smox Smux.