Crítica

Virgem Suta

Boa estreia, futuro ainda melhor em aberto

Os Virgem Suta são de Beja e isso está-lhes inscrito na música. Está nas tascas e nas ressacas, está num olhar optimista que nasce do espaço livre que vêem em volta: uma sensação de tranquilidade que é atravessada por episódios de burlesco "patusco" ou de comentário (nunca declaradamente) social. Mas a música dos Virgem Suta, neste que é o seu álbum de estreia, é também outras coisas. Fanfarra e melodia mediterrânica na dança de "Tomo conta desta casa" e um pedaço do Nordeste brasileiro atirado para um coreto no centro do parque ("Vovó Joaquina", uma das melhores do álbum). Porém, entre o tom introspectivo das letras de Nuno Figueiredo e as personagens cantadas por Jorge Benvinda, algo sobressai.

A produção foi assegurada por Hélder Gonçalves e o toque do guitarrista e compositor dos Clã atravessa o disco: os teclados "brincalhões" de "Não sou deste lugar", a pop como fantasia blues em "Anjo em descensão", o ritmo preciso de "Linhas cruzadas", com voz levemente distorcida e mil teclados recheando a canção, ou essa "Homem no mundo" que nos recorda algo do Sérgio Godinho mais declaradamente pop de "Lupa" - álbum produzido, precisamente, por Hélder Gonçalves e Nuno Rafael. Isso é uma virtude: é inatacável o bom gosto do que aqui ouvimos.

Contudo, ficamos a espaços com a sensação que, apesar da característica voz de Jorge Benvinda, apesar deste universo personalizado de "Danças de balcão" e "Mulas da agonia", há muito do universo sónico dos Clã do Porto nestes Virgem Suta de Beja - o que, sendo um óptimo ponto de partida, não deverá transformar-se em ponto de chegada. Resumindo: boa estreia, futuro ainda melhor em aberto.

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