Veneza

Experiências efluvianas, paramagnetismos, abissologistas e glaciologistas, homens-tocha, tábuas humanas, ventríloquos, eclipses e olhos ciclópicos: João Maria Gusmão, de 30 anos, e Pedro Paiva, de 32, são os mais jovens artistas de sempre a representar Portugal na Bienal de Veneza, a mais importante bienal de arte contemporânea do mundo. A exposição inaugura hoje. Nem mais nem menos do que 17 filmes. Atenção: It's a kind of magic. Por Vanessa Rato

a Uma coisa foi o processo de escolha - talvez o mais polémico de sempre, até hoje -, outra coisa, bem distinta, foi a escolha, em si - infinitamente mais consensual e geradora de expectativas. Hoje à noite, com a inauguração da exposição com que Portugal participa na edição de 2009 da Bienal de Veneza, fica definitivamente para trás o arrastar de meses e meses de penosos impasses e braços-de-ferro políticos marcados, por exemplo, pelas negociações falhadas com o cineasta Pedro Costa. Acabou. Hoje os artistas plásticos João Maria Gusmão e Pedro Paiva apresentam-se a milhares de visitantes, incluindo os maiores decisores internacionais da área, como os mais jovens representantes oficiais portugueses de sempre naquela que é a mais antiga e importante bienal de arte contemporânea do mundo.Nenhuma fotografia. Nenhuma escultura. Apenas filmes: 17, no total, organizados num percurso circular dentro do Fondaco Marcello, rebaptizado como Fondaco dell'Arte - o edifício que serve de Pavilhão Nacional português.
Depois do projecto escultórico e fotográfico Maison Tropicale, da representação oficial de 2007, em que Ângela Ferreira desdobrou a história do protótipo de uma casa concebida nos anos 1940 pelo arquitecto e designer francês Jean Prouvé para África, o open space deste antigo armazém setecentista foi reformulado. Para Experiências e Observações em Diferentes Tipos de Ar, com comissariado de Natxo Checa, da Galeria Zé dos Bois, que tem vindo a apresentar o trabalho da dupla desde o momento zero, os 360 metros quadrados do Fondaco Marcello, localizado no Grande Canal, entre as pontes de Academia e Rialto, ganhou uma sala ao centro, o espaço de projecção para o único dos filmes da exposição mostrado à velocidade standard de 24 frames por segundo - no corredor à volta, os restantes 16 filmes propõem um mundo em câmara lenta.
Na conferência que há semanas, em Lisboa, antecedeu a ida para Itália, João Maria Gusmão e Pedro Paiva mostraram um desses pequenos filmes: o registo da propagação de ondas resultante do impacto de uma pedra sobre um espelho de água; o ralenti a oferecer a um fugaz microfenómeno o fulgor e tempo de um ensaio poético; o tipo de narrativa económica, enigmática e sedutora, visual e conceptualmente desarmante a que esta dupla nos tem vindo a habituar por entre uma nebulosa de referências teóricas em que a filosofia se traveste de arqueologia e o absurdo é proposto como ciência.
Outro paradigma
Nascidos respectivamente em 1979 e 1977, formados em Pintura e a trabalhar em dupla desde o início do seu percurso artístico, em 2001, João Maria Gusmão e Pedro Paiva são o símbolo de uma mudança de paradigma que há muito devia ter acontecido, defende a Direcção-Geral das Artes (DGA), um dos mais importantes braços operativos do Ministério da Cultura e actual responsável pelo financiamento e organização da deslocação a Itália.
Voz naturalmente suspeita, esta - a do advogado em causa própria -, mas secundada por muitos agentes do terreno, para quem Veneza devia há muito ter deixado de ser tratada como uma espécie de prémio de carreira para artistas consagrados nacionalmente, nomes como Helena Almeida (2005), Pedro Cabrita Reis (2003), João Penalva (2001), Jorge Molder (1999) e Julião Sarmento (1997).
"Ninguém vai rever a História para fazer entrar mais um artista português. O maior défice de Portugal é andar permanentemente a fazer exposições de artistas já consagrados", diz Pedro Lapa, director do Museu do Chiado, que defende que é por esse tipo de opção, geradora de poucas sinergias, que este ano não há um único português em Veneza para além de Gusmão e Paiva, tal como não houve em eventos de consagração e emergência como a Documenta, de Kassel, o Skulptur Projeckte de Münster ou a bienal de Istambul.
Em 2005, e apenas três anos depois de João Maria Gusmão e Pedro Paiva terem começado a expor em Lisboa, Pedro Lapa convidou a dupla para uma exposição no museu: a mostra Intrusão: The Red Square. O insólito - de resultados por vezes humorísticos - que marca grande parte do seu trabalho, até hoje, estava já nas fotografias, filmes e diapositivos que apresentaram nessa altura. Decorrente de um confronto calculado entre o real e o virtual, o documental e a ficção, era o tipo de humor que estava já também nos trabalhos com que um ano antes tinham concorrido à edição do Prémio EDP Novos Artistas, que acabaram por vencer.
João Pinharanda, director da Fundação EDP e presidente do júri de selecção, fala num reconhecimento fortíssimo e imediato da energia e capacidade desta dupla que aponta como herdeira, mas também já informadora, de uma geração anterior de artistas como João Tabarra, João Louro ou Miguel Palma: "Tinham já um trabalho em que a efabulação teórica e suas possíveis leituras políticas - no sentido mais vasto do termo, de um questionamento do lugar das pessoas no mundo - se ancorava num entendimento profundo do mundo visual."
Sobre o impacto que têm em território nacional Pinharanda refere uma conversa recente com um dos professores das Belas-Artes de Lisboa segundo o qual os estudantes terão neste momento duas grandes referências entre jovens artistas: Joana Vasconcelos e eles, "conforme os alunos mais expansivos e pop e os mais reflexivos".
Mas há também o impacto internacional: Pedro Lapa refere outra conversa recente, no caso com Carolyn Christov-Bakargiev, ex-curadora sénior do centro de arte contemporânea PS1, do MoMA, em Nova Iorque, agora no museu de arte contemporânea do Castello di Rivolli, em Milão, e responsável pela próxima edição da mítica Documenta, de Kassel. "É um trabalho para que olho, de que gosto e que não percebo", terá dito entusiasmada e vagamente perplexa perante a singularidade da obra desta dupla. "O trabalho deles não reitera conhecimentos prévios, estabilizados, e, por isso, resiste a um modelo de interpretação que despeje sobre ele uma data de lugares comuns formatados por modelos da indústria cultural": é um dos aspectos fortes do percurso que têm vindo a traçar, resume Pedro Lapa.
Na altura da exposição do Museu do Chiado, Lapa lançava uma pergunta: "Depois de tantos trabalhos de luto dominando até ao limite o contexto artístico, seremos capazes de descobrir no riso e no jogo um acto de vontade e afirmação estética?" A resposta aparente: sim. Ou como escrevia Christopher Sharp numa crítica na revista Frieze: "Se o trabalho da dupla portuguesa João Maria Gusmão e Pedro Paiva pudesse deturpar um clássico, seria certamente O Feiticeiro de Oz (1939). 'Por favor', diria, "prestem atenção ao homem por detrás da cortina", escreveu Sharp depois de ver o portento de 20 filmes mais fotografia e esculturas que foi Abissologia, a exposição do ano passado na Cordoaria Nacional.
Magia e decepção
O homem por detrás da cortina, pois: é o mesmo que falar em experiências efluvianas, paramagnetismos, abissologistas e glaciologistas, é o mesmo que falar em homens-tocha, tábuas humanas, iniciados, ventríloquos, eclipses oculares e olhos ciclópicos: o trabalho de João Maria Gusmão e Pedro Paiva está cheio de fenómenos e personagens tão desconcertantes quanto estes, cheio de abismos e alçapões em que a realidade mergulha na ficção; nós vamos atrás, engolidos por logro atrás de logro.
"Há uns tempos, uma das responsáveis pela Cabinet disse-me que a revista está pensada por temas para fazer com que as diferentes disciplinas confessem as suas ligações umas com as outras. Atrai-me um tipo de prática em que essa abertura, em que essas ligações são o terreno de que o conhecimento se faz", diz Jonathan Allen, artista e escritor inglês actualmente a comissariar uma exposição colectiva para a Hayward Gallery sobre magia e que incluirá trabalhos da dupla portuguesa.
Allen, cuja pesquisa se centra precisamente na magia enquanto gesto de encenação e decepção, fala no trabalho de Gusmão e Paiva como transmitindo a suposta "veracidade antropológica de uma era passada, sendo que cada ponto é encenado e transmite informação suspeita e questionável": "Na história da magia, desde o século XVIII, muitos mágicos encontraram personagens que sustentam espectáculos próximos do que poderia ser uma demonstração laboratorial. As personagens deles também parecem perdidas num mundo de performance acidental."
Acidental, ma non troppo: tão pouco acidental quanto a estreita ligação referencial ao momento de fixação do artifício cinematográfico de um Méliès ou ao experimentalismo de um Buster Keaton. "Talvez a escolha em Portugal possa parecer precipitada, mas eles são extremamente profissionais e a sua obra tem um peso conceptual muito amadurecido, muito coerente", diz Agustín Pérez Rubio, curador principal do Museu de Arte Contemporânea de Castela e Leão (MUSAC).
Com uma importante colecção de arte contemporânea internacional, há dois anos o MUSAC inaugurou uma pequena exposição da dupla ao mesmo que uma grande exposição do conhecido artista francês Pierre Huyghe. "A primeira vez que vi o trabalho deles pensei que era o trabalho de uma dupla de cerca de 40 anos", diz Pérez Rubio. "Nem tudo têm que ser grandes estrelas de 60 anos. Num só país fazem-se muitas coisas e tem que se abraçar essa diversidade. É claro que eles não são o [Pedro] Cabrita Reis nem o [Rui] Chafes, nem o Vasco [Araújo] nem a Joana [Vasconcelos], mas começam a ter uma boa plataforma internacional para subir."
Assim, Portugal pode ficar muito bem na fotografia da família Veneza 2009, mesmo num ano em que a seis meses da inauguração ainda não estavam apontados artistas - o mesmo que dizer que não se tinha começado a desenvolver um projecto nem a anunciá-lo internacionalmente - e em que o Estado acabou por disponibilizar um orçamento de apenas 350 mil euros (menos 25 mil euros do que na edição anterior e numa altura em que, apesar da crise, um país como os Estados Unidos conta investir na sua representação cerca de 1,8 milhões de dólares - 1,3 milhões de euros).
João Maria Gusmão e Pedro Paiva ao lado de nomes tão internacionalmente reconhecidos como Bruce Nauman (EUA), Steve McQueen (Grã-Bretanha) ou Liam Gillick (pela Alemanha).