Trabalho assinado pelo famoso cientista pode ser uma fraude

Ética e veracidade de artigo deixam Jared Diamond e New Yorker em apuros

O facto de Jared Diamond ser um cientista tão conhecido faz com que este artigo da "New Yorker" tenha mais impacto
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O facto de Jared Diamond ser um cientista tão conhecido faz com que este artigo da "New Yorker" tenha mais impacto DR

É um dos cientistas mais conhecidos do mundo, tanto pela investigação original que faz, como pelos livros que escreve (até já ganhou um Prémio Pulitzer). E a revista onde Jared Diamond escreveu o artigo que pode ser a sua queda em desgraça é uma das mais conceituadas do mundo, onde escrevem os jornalistas e escritores mais bem cotados: a "New Yorker". Autor e revista estão agora a ser processados por dois cidadãos da Papuásia-Nova Guiné, que pedem uma indemnização de dez milhões de dólares por difamação.

O processo foi iniciado num tribunal de Nova Iorque este mês, mas refere-se a um artigo publicado na "New Yorker" de 21 de Abril de 2008, com o título "A vingança é nossa - o que as sociedades tribais nos podem ensinar sobre a nossa necessidade de vingança".

Diamond é zoólogo de formação, especialista em aves e, nos últimos anos, praticante de uma área a que chama "biogeografia", em que tenta explicar a evolução das sociedades através de condicionantes biológicas e evolutivas, como os recursos agrícolas disponíveis, por exemplo. E é também autor de livros como Armas, Germes e Aço (Relógio d'Água) e Colapso (Gradiva), em que fala dos factores que levaram ao sucesso histórico das sociedades (no primeiro) e os que podem levar ao seu fracasso (o segundo).

Voltando ao artigo da "New Yorker", o que Diamond relatava era algo de espantar: uma guerra entre duas tribos das terras altas da Papuásia-Nova-Guiné (uma nação de ilhas no oceano Pacífico), há menos de dez anos, em que o líder de uma das facções tinha sido o seu motorista, quando por lá andou, nos anos de 2001-2002, num projecto do Fundo Mundial para a Conservação da Natureza (do qual Diamond é conselheiro) e da petrolífera norte-americana Chevron.

Tudo começa com um porco

Relatava o cientista da Universidade da Califórnia que o seu motorista, Daniel Wemp, tinha sido o "dono da guerra" pelo lado do clã Handa, quando o seu tio Soll foi morto numa batalha com os Ombal - numa guerra iniciada quando um porco entrou numa horta que não era do seu dono e a destruiu.

Para vingar o tio paterno Soll, Wemp empenhou-se numa longa e sangrenta guerra de três anos, em que morreram 29 pessoas, várias mulheres foram violadas e 300 porcos sacrificados. Só terminou quando um homem dos Ombal, o dono da luta neste clã (chamado Henep Isum Mandingo) ficou paralítico, confinado a uma cadeira de rodas, quando uma seta disparada pelo clã de Wemp lhe cortou a espinal medula.

Ora o relato é tão incrível, e as citações atribuídas a Wemp, um homem sem grandes estudos, surgem num inglês tão elaborado, que cheiraram a esturro a Rhonda Roland Shearer, directora do Art Research Laboratory, em Nova Iorque (uma organização sem fins lucrativos que fundou, com o seu falecido marido, o especialista em evolução e história das ciências Stephen Jay Gould). Shearer é a impulsionadora do site Stinkyjournalism.org, que pretende utilizar o método científico para promover a ética nos media.

Mexendo cordelinhos e contactos científicos, Shearer recrutou a ajuda de cientistas na Papuásia-Nova Guiné para verificar a história de Diamond, relata a própria num artigo colocado on-line a 21 de Abril, intitulado "O colapso factual de Jared Diamond". O que descobriu foi um admiradíssimo Daniel Wemp, que nunca pensou que as histórias que contou ao cientista fossem parar a uma revista americana, e até encontrou o homem que Diamond dizia que tinha ficado confinado a uma cadeira de rodas, Mandingo, a andar pelo seu pé com considerável vigor.

Mais: nenhum deles tinha sido contactado pela equipa de verificadores de factos da "New Yorker" (algo de que a revista se orgulha, como forma de garantir a veracidade dos artigos que publica). "Fomos nós a dar a notícia a Wemp, e só depois de muita insistência um fact-checker da "New Yorker" falou com Wemp", contou Rhonda Shearer ao PÚBLICO, por telefone, a partir de Nova Iorque.

Ludibriado?

"Daniel Wemp apenas contou a Diamond coisas que se ouviam dizer, como eu lhe posso contar que ouvi dizer que esfaquearam uma mulher em Central Park", diz Rhonda Shearer. A velha máxima que diz que "quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto", em especial enaltecendo a sua própria participação na história, é muito comum na Papuásia-Nova Guiné, relatam os antropólogos que conhecem o país.

Diamond foi ludibriado, ou caiu na esparrela de uma dessas histórias quase lendárias que se contam, disse à revista Science a antropóloga Pauline Wiessner, da Universidade do Utah (EUA), especialista em guerras tribais naquele país. "Podia ter-lhe dito imediatamente que era uma história exagerada, engrandecedora. Ouço muitas histórias deste género, mas não as publico porque não são verdade."

Estas características das histórias tribais na Papuásia-Nova Guiné são bem conhecidas dos antropólogos. "Daniel Wemp contou uma história sobre uma luta em que o seu clã esteve envolvido, mas provavelmente exagerou as suas proezas. Mas as verdades sobre estas lutas tribais são relativas, porque cada clã tem o direito de contar a sua própria variante", explicou ao PÚBLICO, por e-mail, Nancy Sullivan, antropóloga que há muitos anos vive naquele país. Sullivan é também uma das autoras que contribuiu com artigos sobre o caso Diamond/"New Yorker" que estão a ser disponibilizados no site Stinkyjournalism.org, sob o título geral "Pig in the Garden".

Mas Diamond usou os nomes de Daniel Wemp e Henep Isum Mandingo (que nem sequer se conheciam), num artigo que acusa Wemp de vários crimes. Isto trouxe sérios problemas a Wemp - com a lei, possivelmente, mas já de certeza com a comunidade local. "Ele neste momento anda escondido, não pode aparecer em público, porque as pessoas do seu clã estão muito aborrecidas com ele, e querem pedir satisfações", conta Shearer. Por isso é que ela o ajudou a lançar o processo num tribunal de Nova Iorque, em conjunto com Henep Isum Mandingo, pedindo uma indemnização à revista e ao cientista no valor de dez milhões de dólares.

"Por ora, não foi preciso gastar dinheiro, toda a gente está a trabalhar nisto pro bono. Mas como é que podia abandonar Daniel Wemp? Não tenho culpa nenhuma, mas sinto-me responsável, e felizmente posso-me dar ao luxo de tentar obter justiça, nem que tenha de hipotecar a casa", diz Rhonda Shearer. "Afinal, sou da geração do caso Watergate, acredito nos jornalistas e nos media como veículos da verdade."

"Diamond ficou como que cego - o que até engraçado, se virmos isto pelo prisma do humor negro", comenta Shearer. "Não é difícil misturar as coisas. Um missionário na Papuásia uma vez contou-me que viu uma pessoa a correr e a dizer 'Mako morreu' e pouco depois apareceu o Mako, a andar. Quando o missionário foi pedir explicações, percebeu que Mako tinha simplesmente desmaiado", conta.

Ser jornalista é desculpa?

Jared Diamond tem-se mantido calado sobre o assunto. E a revista "New Yorker" também tem sido parca em comentários - tem dito apenas que não renega a história que publicou, na secção Anais da Antropologia. Mas aceitou retirar o artigo da Internet - agora só está disponível para assinantes -, no que classificou como "uma prova de boa vontade".

Mas então Jared Diamond, o conceituado cientista e autor popular de livros de divulgação científica, que nos faz pensar sobre os caminhos da evolução das sociedades, mentiu, foi enganado, ou preferiu enganar-nos porque tinha uma história demasiado interessante para se preocupar com os detalhes da realidade? Ele só falou com a revista Science, em meados de Abril, e diz manter tudo o que escreveu. E justifica ter identificado Daniel Wemp pelo nome - coisa que um antropólogo não faria, numa história em que existe apenas uma fonte, que diz coisas graves, que podem levá-lo a ter problemas sérios com a lei - porque estava a trabalhar na condição de jornalista, e os jornalistas identificam as suas fontes.

"Não gosto de adivinhar, mas a minha hipótese é que Diamond está a apresentar-se como jornalista e não como cientista, porque, se assumisse que escreveu o artigo como cientista, isso seria fatal. Se se considerar a peça jornalismo, talvez ache que não é tão grave", comenta Rhonda Shearer.

Mas será menos grave, se olharmos para o artigo de Diamond apenas como jornalismo? Isto será um caso de desleixo jornalístico ou desleixo científico?

"Não tenho a certeza; talvez ambos. A minha especialidade é jornalismo, e não ciência. Mas acho que a obrigação de dizer a verdade é a mesma, em ambas as áreas", comenta, por e-mail, Kelly McBride, especialista em ética nos media no Instituto Poynter (Florida, EUA). "Jared Diamond não é jornalista, mas os editores da "New Yorker" deviam tê-lo editado de forma a garantir a precisão e veracidade do que escrevia. Bolas, mesmo que fosse um jornalista famoso seria editado."

"Como num acidente de avião, juntaram-se vários factores que conduziram ao desastre. Não terá sido apenas uma coisa que falhou", diz Rhonda Shearer. "Mas não acredito que Diamond achasse que o seu motorista era um criminoso, que matou e violou mulheres, e não sentisse o dever de o denunciar às autoridades", acrescenta.

"Parte do problema é que Diamond não actua nem como um jornalista, que se deve conservar céptico face às histórias que lhe contam, e procurar diversificar as fontes, nem mantém os padrões de um cientista. O que o deixa vulnerável é que não mantém nem padrões jornalísticos nem científicos", considera Jane Kirtley, professora de Ética dos Media e Direito na Escola de Jornalismo e Comunicação de Massas da Universidade do Minnesota.

Vingança de antropólogo?

"Isto não quer dizer que um cientista não deva escrever para uma revista de informação geral como a "New Yorker", diz Jane Kirtley, ao telefone. "Por vezes os médicos, e até os advogados, como eu, ficam insatisfeitos com a forma como os jornalistas escrevem sobre os temas em que são especialistas, porque não se pode usar o jargão de uma determinada área para escrever para o grande público. É preciso encontrar um ponto de equilíbrio", explica Kirtley. "Mas o problema é que não é claro o que é facto e o que é ficção no artigo de Diamond."

Outros casos famosos de histórias publicadas na imprensa que se vieram a revelar completamente inventadas - como as reportagens de Jayson Blair no "New York Times" - envolveram jornalistas de facto. O caso de Diamond será muito mais complicado, por ser um cientista famoso - por isso, o peso do que escreve é muito maior, presta-se atenção ao que ele diz precisamente por ser um cientista, conhecido e premiado por escrever sobre a evolução das sociedades.

Mas o que se tornou óbvio com este caso é que os antropólogos não têm muita simpatia por Jared Diamond. Rhonda Shearer não é antropóloga - é especialista em Marcel Duchamp e em história das ciências. Mas poderá o caso denunciado pela sua organização, com processo em tribunal e tudo, e vários comentários de antropólogos publicados no site Stinkyjournalism.org, ser encarado como uma vingança dos antropólogos contra Diamond? "Não, porque ele apresenta dados errados, é um antropólogo desleixado e faz com que o público confunda a sua má metodologia com a nossa", responde a antropóloga Nancy Sullivan. A resposta é negativa, mas deixa-nos a pensar que há mesmo algum grãozinho de vingança no empenho que vários antropólogos estão a pôr na denúncia do caso, seja ou não o artigo de Diamond uma fraude.