José Eduardo Agualusa e a amável ditadura de Angola

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Daniel Rocha

Os escritores têm que vencer o medo. Agualusa espera ler dos mais velhos o que não viveu. E dá um passo em frente para olhar Luanda agora, a correr para o desastre. "Barroco Tropical" é talvez o primeiro livro que retrata o absurdo do pós-guerra

Entrar na política? "Deus me livre e guarde." José Eduardo Agualusa acha-se muito bem onde está, a escrever sobre o absurdo. Nascido no Huambo há 48 anos, publica romances, contos e crónicas há 20. Vive em Luanda e em Lisboa, com idas ao Rio de Janeiro. As suas edições têm crescido sistematicamente em Portugal, está a crescer no Brasil, e desde 2007 - quando ganhou o prémio do diário britânico "The Independent" para melhor romance estrangeiro - as traduções europeias explodiram. Esta popularidade permitiu-lhe recentemente negociar bem com a Dom Quixote/Leya, quando a Quetzal lhe fez uma proposta. Agualusa não se queixa da vida.

Mas em Angola é polémico volta e meia. Antes das eleições de 2008 atacaram-no por ter dito que Agostinho Neto - primeiro presidente de Angola - era um "poeta medíocre". Chegaram a pedir que fosse processado por ultraje à moral. Recebeu ameaças. E teve medo, diz nesta entrevista feita ao princípio da semana no seu apartamento de Lisboa, que é onde tem a biblioteca.

No seu novo livro, "Barroco Tropical" - talvez o primeiro que retrata a loucura de Luanda pós-guerra - há uma Presidente em vez de um Presidente. O protagonista escreve. Tem uma amante cantora, a mulher está a separar-se dele e ainda lhe aparece uma modelo que o vê como Salvador. Essa mulher sabe coisas sobre o poder e é morta. A partir daqui, é um cortejo de personagens, dos céus ao submundo.

O livro passa-se em 2020, o que não chega para ser um futuro de ficção científica. Estes 10 anos de distância permitem o quê?

Pensar Angola de outra maneira, fugir a interpretações mais óbvias, imaginar um futuro que espero não venha a acontecer. Mas se continuarem a ser cometidos erros e distorções...

Este futuro já é presente em muito.

Sim, em muito, mas ainda há muita coisa que se pode evitar. Um livro como este, uma distopia, pode servir para alertar para determinadas políticas e acontecimentos que se podem complicar se nada for feito.

Mas há aqui alguma coisa que não esteja a acontecer agora?

A acontecer está, mas no princípio. No livro, já tomou uma dimensão maior.

No livro diz-se que Luanda corre a toda a velocidade para o desastre, e a grande diferença em 2020 é que acabou o petróleo, então o cenário de euforia económica está em queda, e o prédio em que vive o protagonista - a Termiteira - é uma metáfora disto. Pode-se dizer que Luanda já está a correr para o desastre agora?

De certa forma já é um desastre em execução. É uma cidade quase inviável, onde as pessoas têm muita dificuldade em viver. Nesse sentido já é um desastre. Penso que ainda pode ser possível recuperar a cidade e pensá-la de outra forma, mas aparentemente isso não está a ser feito.

Não quer dizer que não haja pessoas a compreender que isso é preciso. Há essa discussão. Mas continuam a ser construídos grandes prédios no centro.

Há mesmo a discussão de mudar a capital.

Encontrei o arquitecto Troufa Real em Luanda e ele disse-me que tem projectos para três novas cidades, uma das quais deveria ser a nova capital. Faz algum sentido, embora me pareça que seria mais fácil transferir a capital para o Huambo, por exemplo. Um pouco à semelhança do que se fez no Brasil, com Brasília, mas sem construir uma nova capital, o que implica custos muitos grandes. Não tenho a certeza se neste momento existirá dinheiro para isso. Mas faz algum sentido na medida em que Luanda chegou a um ponto que não se consegue viver lá. Não se consegue simplesmente transitar, o trânsito é infernal, os carros não avançam. 

Quantos milhões tem agora? Alguém sabe?

Ninguém sabe. Fala-se em quatro, cinco milhões. Continua a afluir gente, embora o facto de o resto do país finalmente se ter começado a desenvolver vá acabar com esse afluxo, espero. Era uma coisa que já deveria ter sido feita. 

A capital é só parte do problema, depois há o regime. Este retrato de Luanda também é um retrato do regime.

Sim, e o livro fala de muitos outros problemas.

O livro diz que num regime assim há duas alternativas, medo ou raiva. Como é que defines este regime?

Para uma parte dos angolanos foi uma desilusão quando constatámos que o fim da guerra não conduzia rapidamente à democratização. Muita gente acreditou que seria possível. Para desenvolver de forma articulada, saudável, justa, é preciso democratizar ao mesmo tempo, se não primeiro. Isso não está a ser feito, com estes erros todos. Não há uma preocupação com o bem estar da população.

E depois a explosão económica leva a que o discurso oficial nas relações com o Estado angolano fique refém, não esteja livre para dizer o que pensa do regime.

Internacionalmente?

Internacionalmente e o discurso do Estado português.

É isso mesmo. Nas primeiras eleições em 1992 era mais fácil para os partidos independentes, não beligerantes, conseguirem apoio internacional. Hoje é mais difícil. Porque da direita à esquerda - excepto a extrema-esquerda em Portugal, e no resto do mundo nem isso - há interesses em Angola. Todos os partidos portugueses têm interesses em Angola, portanto há convergência. Há uma unanimidade em relação ao presidente José Eduardo dos Santos, como se viu quando visitou Portugal. Isso é novo, de facto. Escrevi um artigo de opinião no PÚBLICO a chamar a atenção para isto: se a Europa já não discute os direitos humanos já não discute a democracia, então, o que a diferencia da China? 

Há famílias portuguesas a viver do que lhes mandam de Angola, há zonas desertificadas pela emigração para Angola. Isso sente-se lá?

Que está a entrar gente, está, de todo o mundo. Mas Angola continua a ter uma política muito fechada, que não facilita a entrada de imigrantes, pelo contrário. As grandes empresas, as petrolíferas resolvem isso, mas as pequenas empresas têm dificuldade em contratar, porque Angola dá poucos vistos de trabalho e leva imenso tempo. As pessoas vão com vistos de turismo, não podem trabalhar, mas vão, trabalham um mês ou dois, voltam a Portugal para renovar o visto. Tudo isso prejudica o andamento dos projectos, é um absurdo. Acontece a todo o tipo de imigrantes, dos mais pobres, de outros sítios de África. Há uma perseguição a esses emigrantes.

E eu tenho a impressão - aliás, tenho quase a certeza - de que é uma política apoiada pela população. É uma política popular, infelizmente.

O que é que a Europa, e concretamente Portugal, precisava de dizer para que a oposição angolana não sentisse dificuldade em ter apoio?

Isso não vai acontecer. Não vai.

Portanto tornou-se impossível dizer o que se acha sobre Angola. 

É. Estou um pouco pessimista quanto a isso. Os interesses são de tal forma vultuosos e intricados, que me custa a crer que vá mudar nos próximos anos. A menos que esta crise económica tome outras proporções e se reflicta em Angola. A menos que surjam divisões no partido do poder, o que pode acontecer. Se não, não creio que vá mudar. A nível internacional, as pessoas preferem manter o actual estado. Apoiarem as forças que estão no poder, que lhes dão garantia de que é possível continuar a fazer dinheiro. Até porque, não sendo uma democracia, Angola também não é uma ditadura sangrenta. Não estão sendo presas pessoas, não é o Zimbabwe, não tem aquele gosto feroz. É uma ditadura amável, vamos dizer assim. 

Dentro do MPLA encontraste gente que te apoiou na polémica sobre Agostinho Neto ser "um poeta medíocre". Vês sinais de que o MPLA se possa renovar por dentro, ou de que o poder se possa renovar por dentro a partir do MPLA?

Há linhas de fracturas no MPLA, inclusive correntes que não me agradam nada. Há muitas linhas, sempre houve. Algumas estão a expressar-se agora mais. Por exemplo, há uma corrente ligada ao 27 de Maio [de 1977, quando o MPLA reprimiu violentamente uma tentativa de golpe] que está a tentar ter expressão, e a reivindicar uma presença dentro do partido. 

O que defende?

Não sei, para falar com franqueza. Tirando o facto de defender algo que me parece absolutamente justo, que é investigar o que aconteceu em 1977.

No sentido de assumir as próprias responsabilidades? 

De assumir responsabilidades, de saber quantas pessoas morreram, o que lhes aconteceu. Até agora os familiares das vítimas não sabem o que aconteceu. Oficialmente não estão mortos, vivem numa espécie de limbo. O que essa corrente começa por defender é isso. O que defende a seguir, politicamente, não sei. 

Em "Barroco Tropical" há este momento, durante um jantar: "A senhora Presidente não mata ninguém. Não odeia ninguém. Para odiar faz-se necessário um coração. Espero que gostes de arroz de pato." Estamos em 2020, temos uma Presidente, um traficante de armas que a influencia, um ambiente com orgias, corrupção, cocaína, a imprensa ao serviço do poder, um hospício para os contestários. Tudo isto é futuro ou presente?

É futuro, assim como está.

Sendo que este hospício existe. 

Não posso dizer dessa maneira. Existe uma instituição na qual se inspira esse hospício ficcional.

Uma instituição que amarra os doentes a peças de automóveis.

Sim, onde os doentes estão presos, ou estavam. Visitei essa instituição com um fotógrafo do PÚBLICO, há uns anos. 

O que é que aqui não é presente? Há uma Presidente e não um Presidente, mas não é difícil imaginar a filha do Presidente. 

Não pensei nisso. Não acredito... Já não sei, porque entretanto uma das filhas do Presidente foi eleita deputada, e a gente já não sabe o que vai acontecer. Mas não pensei nisso.

Então o que é que aqui não é presente?

Eu acho que é o grau. 

Portanto, o livro é um superlativo da realidade.

Sim. 

Conheces o Grande Hotel da Beira? Pensei nele ao ler a descrição da Termiteira. O Grande Hotel da Beira, em Moçambique, ia ser o grande hotel de África no tempo colonial e agora está ocupado com os restos do desastre, da guerra, que vivem ali no meio do lixo e dos ratos.

Temos isso em Angola com vários edifícios que não chegaram a ser concluídos na era colonial e depois foram ocupados pela população. Transformaram-se em musseques [bairros pobres de Luanda]. São musseques ainda hoje. Alguns estão em transição para o capitalismo mas outros são irrecuperáveis. 

A Termiteira é um microcosmos. Os ricos, os mais ou menos ricos, e, à medida que se desce, o submundo com crianças a serem queimadas por feitiçaria. Na nota final dizes que isto está mesmo a acontecer em Angola, portanto também isto é presente.

Também. Não da maneira que descrevo, evidentemente, que é um espectáculo, mas os jornais angolanos dão notícia de acontecimentos desse tipo. Não se fala muito disso. Para fora não passa informação. 

É uma coisa nova?

Não, mas está a ser noticiada. Dificilmente passa um mês sem notícia de acontecimentos desse tipo. Há uma violência muito grande. Violência doméstica, também.

Mas ligas isso à explosão de religiões e de seitas em Angola, o que pode ter a ver com o desamparo, com uma falência do Estado?

Não sei até que ponto já acontecia, mas tem a ver com esse enorme desamparo. Com o facto de as pessoas estarem entregues a si próprias, com a ausência de Estado em grande parte, com a miséria, com a ignorância, tudo somado. 

A literatura, por ser aquilo a que se chama ficção, é um bom meio para fazer este retrato? 

Alcançam-se públicos diferentes. Eu poderia fazer uma reportagem sobre isto, as crianças que são queimadas. A sensação que tenho é que o livro dura mais tempo, portanto pode prolongar essa discussão, e envolver outro tipo de pessoas.

Acho que este livro não vai ser muito lido pelas pessoas no poder em Angola, porque há poucas pessoas no poder que realmente lêem. E as que lêem, porque lêem, têm outra mentalidade, provavelmente acharão importante que o livro tenha sido publicado. O ideal é que consiga provocar algum debate. Provocar, irritar, eventualmente apaixonar as pessoas. 

E os autores angolanos estão a olhar para o seu país?

Alguns sim, outros não. Alguns de forma mais tímida, alguns de forma mais corajosa.

Este é o livro em que vais mais longe em relação ao que é Angola?

Não, é um outro olhar.

Quanto ao presente?

"Estação das Chuvas" tratou de um certo presente. Tal como "O Ano em que Zumbi Tomou o Rio"...

Um presente que já tinha acontecido. Aqui pões-te no futuro para olhar para o que está a acontecer agora. É o primeiro livro com este tempo.

Depois da guerra? Acho que sim.

Há algo na literatura angolana que se possa aproximar?

O Pepetela fez um pouco isso com os "Predadores" [Dom Quixote, 2005]. Podia ir mais longe porque tem um conhecimento íntimo de uma realidade que eu não tenho. Podia ir buscar inspiração aos seus abismos mais profundos, e se o fizesse escreveria um livro muito mais perturbador do que qualquer livro que eu poderia escrever. Porque tem uma experiêncai que eu não tenho. 

Mas essa experiência ao mesmo tempo fê-lo refém?

Acho que sim, de certa forma. O Pepetela tem vindo a soltar-se e acredito que vá conseguir, mas também não é fácil. Implica romper com lealdades antigas, partidárias, e isso ele já fez. Implica romper com amizades, com relações familares. É muito complicado num país como Angola. 

Na entrevista à "LER" [Maio] dizes que Ruy Duarte de Carvalho é um homem íntegro que tem medo de ofender. Que como antropólogo e escritor podia ir mais longe. Mas o projecto dele pode ser simplesmente diferente.

Pode sim. E faz o seu trabalho muito bem. Não é apenas um grande escritor angolano, é um grande escritor. É mais como sociólogo [que podia ir mais longe]. É uma pessoa que viveu tanto que às vezes tenho a sensação de que está a fugir a certas discussões, que podia enfrentar mais. 

O que é que gostavas de ler de alguém como Luandino Vieira?

Conheces Rian Malan? Escreveu "My Traitor's Heart?" É da família do Magnus Malan [general sul-africano do regime "apartheid"]. O livro é impressionante. Porque ele enfrenta tudo. Todos os seus pesadelos, todo o seu passado, as ligações da família ao "apartheid", expõe-se completamente. Isto é o que um escritor deve fazer. Quando começas a ter receio de falar não podes ser escritor. Tens que ter a coragem de te expor. Era isso que eu esperava dos escritores angolanos que estiveram por dentro desses processos históricos, complexos, violentos, que sabem coisas que eu não sei, que viveram emoções que eu não vivi. Que fossem capazes de se entregar. Estou a falar de todos.

Ainda vai acontecer?

A alguns sim. O Pepetela vai acabar por se soltar completamente. 

E o Luandino?

Não sei.

Dizes que o escritor não pode ter receio de falar. Ao mesmo tempo a tua família está em Luanda, os teus filhos. Esses laços não te constrangem?

Constrangem.

A família é um escudo ou um limite?

Num país como Angola, todo o tipo de ligações pode dificultar a tarefa de um escritor. Pode facilitar, porque são esses laços que permitem compreender. Não são um escudo, mas uma forma de alcançar determinadas histórias, de chegar ao coração das pessoas. E ao mesmo tempo são perturbadores e inibidores. 

Já se te colocou essa questão? A liberdade como escritor fazer-te sair de Angola?

Mas já estou fora de Angola. Estou dentro e fora. Se estivesse completamente mergulhado teria muito mais dificuldade em escrever. O regime angolano não tem nenhuma forma de me limitar do ponto de vista económico. O meu dinheiro não é ganho em Angola. Vivo dos meus direitos de autor, dos livros que vendo no mundo. Nesse sentido já vivo fora. O que me dá grande liberdade. Por outro lado, o facto de viajar muito dá-me distanciamento. De cada vez que volto sou capaz de ver coisas que talvez não visse.

O que me interessa é retratar o absurdo. Quando a gente convive quotidianamente com o absurdo acaba por o achar normal. É algo que sinto quando estou em Luanda sempre. As pessoas deixaram de ver. Eu vejo porque venho de fora. Acho que não conseguiria escrever se não fosse isso. 

Quanto tempo passas em Angola? É a maior parte do tempo?

Não sei, mas gostaria de passar mais. Estou a viajar demais. 

O protagonista de "Barroco Tropical" apesar de não ter um olho, o que lhe dá logo a cara do [lendário general israelita] Moshe Dayan...

Pensei nele, pensei.

... e de ser realizador de documentários além de romancista, tem muitas coincidências biográficas contigo. 

Isso agrada-me. Que as pessoas construam essa imagem. Sobretudo o episódio do Agostinho Neto ["poeta medíocre"]. Era quase impossível não aproveitar esse episódio porque é revelador de como o aburdo se instala na realidade.

Tiveste medo, aí?

Tive, muito. Claro que tive. Eu estava em Luanda e precisava de sair, já não sei para onde. E tive aquele medo óbvio de não conseguir sair.

Tiveste medo de ser morto?

Não. 

Medo pelos teus filhos, existe esse medo?

Um pouco. 

Depois desse episódio diluiu-se?

Diluiu. Acho que o episódio se entende no contexto em que foi produzido, poucas semanas antes das eleições [em Setembro de 2008]. Era um período em que havia intenção do regime de tentar silenciar todas as vozes críticas. De uma maneira ou de outra, é claro que comigo foi um pretexto. Foi uma campanha desencadeada pelo "Jornal de Angola", presumo que pelo regime, e depois as mesmas pessoas do regime que a desencadearam decidiram parar com ela porque perceberam que estava a ir longe demais.

Li um texto sobre os teus comentários às eleições de 2008 insinuando que te preparavas para entrar na oposição. Alguma vez te passou pela cabeça entrar na política?

Não, Deus me livre e guarde, nem pensar nisso. Nem de longe nem de perto. Não tenho o menor talento, não gosto, não quero.

Outro ponto em que foste atacado foi por teres dito ao "Jornal de Notícias", em 2007: "Conheço alguns torturadores em Angola, pessoas que interrogaram e torturaram presos políticos em 1977, que são recebidos em Portugal como bons escritores." Criticaram o facto de não teres apontado nomes, permitindo que todos pudessem ser suspeitos. Respondeste a isto, na entrevista à "LER", dizendo que esses nomes têm aparecido em livros, que se sabe quem são, mas também dizes que há casos distintos. Se há casos distintos por que não os distingues?

Não é o meu trabalho. Devia ser constituído algo semelhante aos tribunais de reconciliação que existiram na África do Sul para tratar concretamente do 27 de Maio [de 1977]. Depois também, talvez, da guerra civil. Mas do 27 de Maio, que é um processo que inquieta muita gente. A única maneira é abrir todos os arquivos e pôr toda a gente a discutir, a chorar em conjunto.

Mas quando dizes que há torturadores que são recebidos como bons escritores em Portugal...

Isso foi a citação do Queiroz [no "Jornal de Angola"], mas o que está na entrevista...

Eu tirei esta citação da entrevista que deste ao "JN".

Pronto, então não devia ter dito assim.

Nos livros que foram publicados [sobre os acontecimentos do 27 de Maio] há uma série de escritores nomeados erradamente [como interrogadores responsáveis por tortura]. Mas isso eu escrevi no Ípsilon, quando saiu o livro da Dalila [Mateus, "Purga em Angola"]. Escrevi: este livro é importante mas entre os acusados sei que alguns não estiveram presentes nessas comissões [de interrogatório], concretamente o Luandino Vieira. Sei, porque pessoas ligadas ao processo me disseram, mas não vivi o processo. A Dalila coloca outros nomes. Não me considero a pessoa apta para dizer. Na segunda edição ela corrige, retira o nome do Luandino, o nome do Ruy Duarte de Carvalho também tinha sido confundido com o Rui de Carvalho, que foi director da televisão em Angola. Havia pequenos equívocos no livro que lhe retiravam legitimidade. Mas é um livro importante, e é preciso discutir abertamente. São tragédias humanas. Muitos dos filhos dizem que não querem vingança, querem saber o que aconteceu ao pai. Têm esse direito.

Tens dito que "Barroco Tropical" é o livro em que te permites uma exuberância de personagens, e nota-se. Há mil caminhos que o livro podia seguir. O que pode ser visto como um dos excessos do livro.

É um livro de excessos, quis que fosse assim e tentei construir uma estrutura para o sustentar. Mas é de longe o livro mais exuberante.

Mesmo quando é negro há um movimento festivo, de tudo aparecer e irromper.

Isso é Angola. Essa voragem festiva é África. É tropical. É América Latina também. Durante a tragédia há a festa.

O protagonista Bartolomeu Falato diz que tem um imenso talento para a felicidade. E ao "JN" disseste que és uma das pessoas mais felizes que conheces. Não me lembro de ouvir um escritor dizer coisa semelhante. Talvez isso seja parte do teu prazer. Poder dizer isso, porque a imagem mais vulgar de um escritor é mais atormentada. 

Talvez os escritores atormentados sejam mais dos países do Norte. É mais difícil imaginar o García Marquéz atormentado que o Günter Grass. Não consigo ver o Jorge Amado como um escritor atormentado.

Mas na literatura brasileira, se pensarmos em figuras como Raduan Nassar ou Clarice Lispector, há ali um turbilhão. Mesmo o João Cabral...

Por cada uma dessas penso noutras que são o oposto. A imagem do escritor atormentado é mais daqui, dos países frios. O Chico Buarque é um excelente escritor, joga futebol e canta samba. 

Há uma melancolia no Chico.

Também há, mas canta samba e joga futebol, o que na Europa seria mais difícil de conseguir.

Portanto achas que não é uma costela que te falta, a melancolia.

A minha ex-editora angolana é a única do mundo que tem um bloco de Carnaval. Aqui também seria estranho. Esse talento para a felicidade mesmo em situações difíceis é algo que encontras nos países do sul. 

Então isso aconteceu-te porque nasceste em Angola?

Porque também sou uma pessoa com sorte. Tenho uma vida mais feliz do que muitas outras.