Do Império do Meio para o meio de Lisboa

São "indivíduos síntese", jovens que estão entre duas culturas distantes e distintas. Uns fazem a ponte, outros "rasgam" um dos mapas. Não são portugueses nem chineses, são ambas as coisas e isso é bom. Sabem que os europeus ligam muito
a Tiananmen, eles nem por isso.

Das janelas soltam-se músicas africanas. Vinte metros à frente, a banda filarmónica começa a tocar e Nossa Senhora da Saúde põe-se a caminho, com os fiéis a segui-la. As prostitutas continuam a fazer o seu negócio, ramo de rosmaninho numa mão, porque hoje é dia de procissão, chapéu-de-chuva na outra, que o tempo não está de fiar. E da porta número 12 sai uma voz improvável, pousada, quase solene, a espalhar a palavra de Cristo em mandarim. O pecado e a salvação andam juntos na Rua dos Anjos, neste domingo à tarde. E enquanto isso, distraidamente, a cidade vai absorvendo um mundo que começa a deixar de lhe ser estranho. A pequena Ângela está a ficar cansada da missa e por isso Fei Feiren sai por um bocadinho, levando ao colo a filha de 14 meses. Dois elásticos cor-de-rosa tentam prender o seu cabelo liso e preto, que se espeta todo em direcção ao céu. A chucha cai uma vez, e outra e tantas quantas as que ela quiser para obrigar a mãe e a avó a agacharem-se no chão. O objectivo é interromper a história que Fei Feiren tenta contar. Um relato - num português difícil de debitar, primeiro, e com tradução depois - que pode ser igual ao de muitas outras chinesas de 21 anos como ela. Partiu de Zhengjiang, no Leste da China, em 2004, porque a família estava toda em Portugal. Trabalha numa loja de revenda, roupas, bugigangas, objectos mais ou menos úteis. Tudo barato. A esta hora, já Nossa Senhora deu a volta à esquina e desapareceu; uma das prostitutas também. E Fei Feiren está quase a ter de entrar novamente, para comungar. "Há oito anos comecei a ir à igreja. Na China há cada vez mais pastores a introduzir a crença. É muito saudável, não prejudica ninguém e é bom nos dias de hoje... Acredita-se na eternidade." A crença serve também para traçar alguns limites: "A nossa igreja não deixa fazer amor antes do casamento, Jesus diz que não pode ser e nós não fazemos. Jesus é bom." Isso não se aplica agora a ela, que casou e já deu à luz Ângela e espera ainda dar-lhe irmãos. E esta será uma das razões por que não deseja regressar ao seu país: "Não se pode ter mais que um filho." Há outras: "Existe trabalho, mas ganha-se mal. Em Portugal, se somos pobres, não faz mal, mas na China as pessoas desprezam-nos. Fui lá nas férias e só queria voltar!" Voltar para Lisboa, onde há "bom tempo e simpatia".
Lá dentro, terminada a celebração, um grupo de sete jovens entre os 13 e os 26 anos (nenhum nascido em Portugal, para onde quase todos vieram há seis anos) dirá quase em uníssono coisas como: "Os portugueses são mais abertos, dão beijos na rua"; "quando têm dinheiro vão logo gastar, sabem viver a vida"; "a China, só para turismo"; "amigos portugueses só os colegas da escola" ou "só os do trabalho". Cheira a lulas guisadas. A enumeração das diferenças continua. "Na China há mais moda, é mais fashion"; "os prédios são mais altos"; "as cidades são maiores". História, política, Tiananmen são temas que não se desenvolvem nesta conversa. Nem em muitas que virão. Do massacre na Praça de Pequim em 1989, de jovens como eles, só ouviram falar já em Portugal. E ninguém se lembra exactamente da explicação.
Há movimentos atrás deste círculo que se formou entre risos para falar com uma jornalista. E, de repente, a igreja transforma-se numa sala de jantar. E os entrevistados viram entrevistadores: "É cristã? Como é que os portugueses vêem os chineses?" Polvo (afinal não eram lulas) cortado em pedacinhos, pepino cozido, porco com legumes e cogumelos, dispostos em várias travessas. "Quer jantar?"
Das gravatas ao consultório
Desde o início do século XX que há uma presença chinesa em Portugal, diz Pedro Góis, investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. "Dedicavam-se à venda ambulante, muitos eram vendedores de gravatas e andavam com elas penduradas ao pescoço por todo o país." Vinham sobretudo de Macau e do Sul da China.
Quem quer que investigue os chineses em Portugal dirá a mesma coisa: não há uma comunidade, mas várias, espalhadas sobretudo por Lisboa e Porto. Num estudo realizado juntamente com os investigadores José Carlos Marques e Catarina Reis de Oliveira, Góis escreve que entre 1975 e o início dos anos de 1980, muitos chineses originários de Cantão, Timor, Angola e Moçambique vieram para Portugal, depois da independência das colónias. A maior parte deles adquiriu a nacionalidade portuguesa e por isso desapareceu das estatísticas.
A década seguinte assistiu a um novo movimento migratório. Desta vez, de chineses vindos directamente da China, em particular das províncias de Zhejiang (vizinha de Xangai), Guangdong (Cantão), Guizhou (Centro) e Heilongjiang (Norte). Um último fluxo veio de Macau, depois da transferência da administração para Pequim, no final de 1999. Segundo os Serviços de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), o número de imigrantes chineses residentes em Portugal não parou de aumentar nas últimas décadas (de 0,9 por cento do total de estrangeiros em 1986, passou para 1,7 por cento em 2001).
Os dados do SEF de 2007 (os últimos disponíveis) apontam para 10.448 pessoas. Y Ping Chow, da Liga dos Chineses em Portugal, fala em 20 mil porque inclui os que "estão naturalizados portugueses, mas que continuam a ser culturalmente chineses". São já de segunda ou terceira geração, e a China tem um nome para eles: chineses ultramarinos.
As gravatas foram sendo trocadas por restaurantes (existem 500 em Portugal) e lojas (cinco mil). Mas basta andar na rua para perceber que, como sempre, não se pode colocar tudo no mesmo saco. Entre os jovens chineses que vivem em Portugal, as diferenças podem ser abissais.
Como Fei Ferian, há os que vieram depois de ter feito os estudos na China - e que vieram antes que a idade os impedisse de legalmente se juntarem à família. Iniciam aqui a vida profissional activa. "Tendem a juntar-se a familiares directos até conseguirem fundos para abrir o seu próprio negócio, o que pode levar uns dois ou três anos", explica Góis. A língua é uma barreira difícil de transpor e não chegam a "aportuguesar-se". O objectivo é muitas vezes o regresso. "Há frequentemente o mito do retorno."
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