Uma máquina do tempo chamada "Montanha Mágica"

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É um título obrigatório no "ranking" da ficção insuperável do século XX. Um romance sobre o tempo. Uma "trip". Não tarda nada faz 100 anos, mas só agora surge em Portugal na primeira tradução feita directamente a partir do alemão.

Não sabemos se o calhamaço que é "A Montanha Mágica" (mil páginas no original alemão e, a partir de agora, 816 páginas no melhor português - e algum francês, quando as paixões têm rédea solta) terá parecido mais digerível a um leitor de 1924 do que a um leitor da era do Twitter (capacidade máxima: 140 caracteres). Já em 1934, no diário que fez da sua primeira viagem aos EUA, a bordo de um vapor, e durante a qual leu o "Dom Quixote" de Cervantes, Thomas Mann (1875-1955) constatava que "a chamada literatura de entretenimento" era "sem dúvida a mais aborrecida do mundo" e que "tudo o que é bom requer o seu tempo", o que soa a advertência contra o espírito generalizado da época. "Encontra-se largamente divulgada a opinião de que o que se lê em viagens tem de ser do mais leve e superficial, balelas que ajudam a 'passar o tempo'. Eu nunca entendi semelhante atitude", escreve em "Viagem Marítima com Dom Quixote" (editado em 2008 pela Dom Quixote).

"A Montanha Mágica" é um desses clássicos mais conhecidos que lidos, título obrigatório no "ranking" da ficção insuperável do século XX, sendo provável que mesmo o leitor que nunca o leu esteja familiarizado com o seu enredo, que, aliás, se pode resumir em 140 caracteres: o jovem Hans Castorp chega a um sanatório para uma curta visita de três semanas e ali permanece sete anos, até ao início da Primeira Guerra. É só isto, e isto requer mil páginas - ou, em moeda portuguesa, 816 páginas? Sim (a acção importa menos que a narração). E não (este é um romance caleidoscópico, que suscita, porventura, tantas interpretações diferentes quanto o número de leituras, e leitores que tiver).

Uma trip

O mais seguro é dizer aquilo que "A Montanha Mágica" não é: um livro para ajudar a "passar o tempo". Num breve prólogo, Thomas Mann propõe-se narrar "com profundidade, rigor e minúcia", preparando o leitor para uma experiência singular do tempo. "Não será, pois, num abrir e fechar de olhos que o narrador conseguirá contar a história de Hans. (...) O melhor que ele tem a fazer é não tentar prever quanto tempo se manterá envolvido em tal projecto", escreve. Resumindo (em menos de 140 caracteres): "A Montanha Mágica" é uma voluptuosa máquina do tempo. Hermann Kurzke, biógrafo de Mann ("Life as a Work of Art", Princeton University Press, 2002), descreve o romance como um triângulo invertido, "assente na sua cabeça", chamando a atenção para a extravagância da sua estrutura - cada capítulo é maior do que o anterior (na versão portuguesa, o primeiro tem 17 páginas, o sétimo e último tem 215). Ao mesmo tempo, nas secções iniciais do livro, correspondentes à chegada de Hans e as suas primeiras três semanas no sanatório, o tempo parece passar muito devagar. Episódios de poucos minutos ou horas podem ocupar páginas e páginas e, à medida que se encaminha para o final, a passagem dos anos pode suceder em breves frases. O que corresponde à experiência que o protagonista, Hans Castorp, tem do tempo no sanatório suíço: ali, nas montanhas, retirado do mundo, "o tempo das pessoas não interessa para nada" e a "unidade mínima é o mês". Mas o que Mann deixa implícito e explicita, por fim, nas páginas 612-613, é que a sua intenção é "narrar acerca do tempo", que "A Montanha Mágica" é "um romance sobre o tempo". Uma "trip", como se insinua: não é por acaso que nessas mesmas páginas Mann se refere a experiências com drogas e respectivos efeitos na dilatação do tempo. O sanatório é um mundo paralelo, um idílio (patológico, doentio, mas um idílio), com regras próprias e um tempo específico, que nada têm a ver com o mundo normal, "lá de baixo", que é como os hóspedes da montanha se referem à vida prática e activa, à realidade fora dali. A experiência da leitura de "A Montanha Mágica" tem o mesmo efeito que o sanatório tem em Hans Castorp. "É uma realidade paralela", como sugere Gonçalo M. Tavares, talvez o escritor português que mais tem cultivado um parentesco com a literatura germânica da primeira metade do século XX (Musil, Walser, Mann, só para citar alguns autores). "A dimensão física (número de páginas) é tão importante que nos obriga a sair da realidade. E é tão significativo o tempo que levamos a ler o livro que depois nos lembramos bem dos sítios onde os lemos. É um paradoxo: puxa-nos tanto tempo e com tanta intensidade para fora da nossa vida que acaba por interferir nela. E por perturbar a natureza normal das coisas."

Não é só o tamanho, mas a natureza omnívora da obra, o seu desejo de totalidade. Mann revela um poder de apropriação quase enciclopédico: "A Montanha Mágica" é um íman do caldo cultural e científico que dominava a Europa antes da I Guerra Mundial, um retrato do "status quo" da medicina, da psicanálise, da filosofia e da política à época (sem esquecer uma deriva por experiências de ocultismo). Como se Mann quisesse dizer ao leitor: deixe o mundo real para trás, tem aqui tudo o que precisa. O carácter fabuloso da obra fará o resto. Não sabemos se "A Montanha Mágica" não será, ao fim e ao cabo, um sonho de Hans Castorp. Afinal, o narrador refere-se a ele como um "sonhador", e é um ruído estrondoso - a "explosão" da guerra - que o faz despertar da sua longa hibernação no sanatório. E, chegado aqui, é provável que o leitor tenha esquecido o que Mann anunciara no prólogo: "é bem possível que a nossa história tenha algo a ver com o mundo fabuloso".

Publicado em 1924, "A Montanha Mágica" remonta a 1912, quando a mulher de Thomas Mann, Katja, contrai uma doença pulmonar que conduz ao seu internamento durante meio ano num sanatório nos Alpes suíços, na região de Davos (tal como o sanatório Berghof do romance). Mann visita-a durante três semanas, período em que o médico do sanatório lhe diagnostica "um catarro nas vias respiratórias superiores" e recomenda uma estadia mais prolongada, à semelhança do que acontece com Hans Castorp. Mann relatou que o ambiente do sanatório descrito nas secções iniciais do seu romance corresponde à sua própria experiência e às impressões que lhe causaram a referida passagem pelo estabelecimento onde se encontrava a mulher. Mann começa a escrever "A Montanha Mágica" em 1913, ano da publicação de "Morte em Veneza". O plano é conceber uma novela que sirva de contraponto satírico a "Morte em Veneza" - depois da trágica destruição da vida ordeira de um grande escritor, a cómica perdição de uma existência banal (Hans Castorp) pelas mesmas vias do amor e da doença.

Mas a escalada da guerra interfere na escrita, que é interrompida devido ao crescente envolvimento político de Mann, que durante este período e até à publicação do livro vai sofrer convulsões ideológicas que o levam a mudar de flanco - o conservador nacionalista e anti-republicano converte-se num defensor da via democrática. Quando retoma a escrita do romance, em 1919, a superfície narrativa mantém-se - um sanatório na montanha, a desorientação educativa do herói por via da paixão e da doença, o confronto de argumentos entre um liberal e um conservador (Settembrini e Naphta), a irrupção da guerra como desfecho - mas a moral da história mudou inevitavelmente. "A Montanha Mágica" teria sido outra coisa se tivesse sido publicada antes de 1924. Dois germanistas, António Sousa Ribeiro, da Universidade de Coimbra, tradutor de Karl Kraus e Brecht, e Teresa Seruya, professora de literatura e cultura alemã na Faculdade de Letras de Lisboa, confluem neste ponto: o romance traduz a própria "procura interior" de Mann em termos do seu pensamento político, o "choque de ideias" - fratricida, até, porque o escritor se incompatibilizou com o irmão, Heinrich, cujas opiniões eram contrárias à sua - que foi a sua cabeça durante a produção do livro. "A Montanha Mágica" é "uma súmula do estado da civilização e das grandes linhas de pensamento da cultura europeia nos anos 20, mas já vista à luz da evolução ideológica" de Mann, nota Teresa Seruya. É por isso que, dos dois rivais que disputam a alma de Castorp, o racional e humanista Settembrini e o autoritário e repressivo Naphta, Mann "consegue dar alguns traços simpáticos" ao primeiro (e tornar o segundo repulsivo). "Isso teria sido impossível se Thomas Mann tivesse terminado 'A Montanha Mágica' antes da guerra", explica Seruya.

O homem sem qualidades

Hans Castorp, tal como é descrito em "A Montanha Mágica" é um "burguesinho de boas famílias", "singelo" - "o nosso herói insignificante", como o narrador não se cansa de referir. Que tipo de herói é este, que não tem nada de especial? "Hans é um nome vulgaríssimo na Alemanha, como João", nota António Sousa Ribeiro. "Até o nome remete para a mediania do zé-ninguém. De certa maneira, é um anti-herói, mais do que um herói."

Guilherme d'Oliveira Martins, presidente do Centro Nacional de Cultura, refere que "este homem comum que é Hans Castorp é alguém que se pode assemelhar ao 'homem sem qualidades' de Robert Musil e aos protagonistas de 'Os Sonâmbulos' de Hermann Broch", que também assistem à derrocada "do tempo das grandes causas". Castorp é um espectador das discussões exaltadas entre Settembrini e Naphta que quase sempre estão acima do seu entendimento, mas até na sua simplicidade ele detecta as inconsistências intrínsecas à argumentação de um e outro. "Com o tempo, ele vai perceber que Settembrini e Naphta são incapazes de viver um sem o outro, que são almas gémeas", resume Oliveira Martins. Naphta e Settembrini seriam meras caricaturas se não fosse o facto de representarem ideologias que dominaram o século XX.

Hans Castorp é um homem comum, em suma, porque, como o leitor contemporâneo de Mann, ele é um espectador do "absolutismo das ideias" que "acaba no campo de batalha", conclui Oliveira Martins.

Castorp "é um jovenzinho à procura de caminho", descreve Sousa Ribeiro, e "A Montanha Mágica", fiel a uma tradição da literatura alemã, é o seu "bildungsroman", o romance da sua aprendizagem. Mas o desfecho abrupto do livro, com o herói enterrando os pés na lama das trincheiras e cantando sobre a morte quando julgávamos que ele tinha escolhido a vida, é inconclusivo. Ele fica entregue ao seu destino enquanto o leitor fica entregue a uma obra aberta - e, evidentemente, à ambiguidade da "mensagem" de Mann. As interpretações divergem. O livro "não aponta um caminho, não dá uma solução, tem como programa equacionar", refere Sousa Ribeiro. "Nesse sentido, é um romance experimental - permite ensaiar um conjunto de posições, pô-las em confronto, mas acaba por não tirar uma lição. Inscrevendo-se na tradição do romance de aprendizagem, é o anti-romance de aprendizagem, quase uma paródia." Teresa Seruya: "Todo e qualquer ponto de vista é desmontado e confrontado com outro. Nunca há um ponto de vista estável, e isso é muito moderno." Moral da história, para Guilherme d'Oliveira Martins: Castorp aprendeu que "o valor das ideias é relativo" e o leitor pode vislumbrar nessa obra aberta que "há uma superioridade ética na liberdade de espírito". Maria Teresa Delgado Mingocho, especialista em Thomas Mann, completa: quando volta para a planície, Hans Castorp não é o mesmo que a tinha deixado, porque entretanto "teve uma preparação" para a vida, experimentou "esse mistério e essa aventura do que é ser-se humano". Agora, "tem de saber gerir o que aprendeu".

Assim como o leitor, no fim de "A Montanha Mágica".